sábado, 4 de junho de 2016

Prenhe de fanatismo

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Hoje, sempre que há uma discussão política no Brasil, principalmente nas redes sociais, é comum um dos (ou todos os) lados chamar o outro de fascista. O termo fascista é pejorativo —um adjetivo frequentemente utilizado para se descrever qualquer posição política que não seja a do falante —o fascista é sempre da oposição. Não existe gente disposta a bater no peito e dizer sou um fascista; considero o fascismo um grande sistema econômico e social. O cientista político libertário Lew Rockwell argumenta: “porém, afirmo que, caso fossem honestos, a vasta maioria dos políticos, intelectuais e ativistas do mundo atual teria de dizer exatamente isto a respeito de si mesmos”.

Criado no início do século 20 pelos italianos Benito Mussolini e Giovanni Gentile, o fascismo é o sistema de governo que opera em cumplicidade com grandes empresas (geralmente favorecidas economicamente pelo governo), que carteliza o setor privado, usa planejamento centralizado da economia subsidiando grandes empresas e empresários com conexões políticas vantajosas, celebrando o poder estatal como sendo a fonte de toda a ordem, nega direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos e torna o poder executivo o senhor irrestrito da sociedade.

Não existe um estado cujo governo não siga nenhuma dessas características.  Esse arranjo se tornou tão corriqueiro, tão trivial, que praticamente deixou de ser notado pelas pessoas.  Praticamente ninguém conhece este sistema pelo seu verdadeiro nome. O fascismo não possui um aparato teórico abrangente —Gentile foi seu grande teórico. Não há outro teórico fascista famoso e influente (como o Karl Marx e outros das esquerdas).
Mas a falta de pensadores e teóricos não faz com que seja um sistema social, político e econômico menos presente na vida de todos, até hoje em dia. O fascismo também prospera como sendo um estilo diferenciado de controle social e econômico.  E ele é hoje uma ameaça ainda maior para a civilização do que o socialismo completo.  Suas características estão tão arraigadas nas vidas dos cidadãos —e já é assim há um bom tempo— que se tornaram praticamente invisíveis para a sociedade.

E se o fascismo é invisível é também um assassino verdadeiramente silencioso.  Assim como um parasita suga seu hospedeiro, assinala Rockwell, o fascismo impõe um estado tão enorme, pesado e violento (...), que o capital e a produtividade da economia são completamente exauridos.  O estado fascista é como um vampiro que suga a vida econômica de toda uma nação, causando a morte lenta e dolorosa de uma economia que outrora foi vibrante e dinâmica. Foi aconteceu com o Brasil das últimas duas décadas.

Em resumo, o fascismo é definido como doutrina política com tendências autoritárias  e antiparlamentares, que defende a exclusiva autossuficiência do Estado e suas razões, que são superiores ao direito, à ética e à moral, fazendo uso recorrente a forças que chamam de social-revolucionárias. No entanto, quando o fascismo é estabelecido, ele deixa ilesa a ordem social e política estabelecida, mas forçando normas disciplinares. Seu poder está fundamentado em organizações de massas e tem uma autoridade única, o grande líder, que não pode ser contestado. Os seus membros são, na sua grande maioria provenientes, da classe operária e da pequena burguesia rural e urbana, ou seja, dos ameaçados pelos fortes intervenientes do grande capital e do sindicalismo.

Quando o fascismo se estabelece no poder, aceita a presença do grande capital e se impõe de forma disciplinadora, impedindo que as organizações operárias defendam a luta de classes (sindicatos, partidos políticos). Isso certamente fará lembrar o que acontece atualmente no Brasil. Apesar dos lulopetistas (com dilmopetistas a reboque) qualificarem os adversários de fascistas, na verdade quem adota atitudes fascistas é o PT.

Mas o PT é um partido fascista? Não. Mas veja bem: o fascismo é o sistema de governo que opera em cumplicidade com grandes empresas (geralmente favorecidas economicamente pelo governo), que carteliza o setor privado —o Petrolão é um exemplo típico deste modus operandi: não é à toa que algumas das maiores empresas (empreiteiras principalmente) estão envolvidas no esquema.

Em consequência, o fascismo também se utiliza do planejamento centralizado da economia subsidiando grandes empresas e empresários com conexões políticas vantajosas, celebrando o poder estatal como sendo a fonte de toda a ordem. Também isto faz parte da alma do Petrolão e de outros escândalos que pautam a vida política do país desde os tempos de FHC e dominando os dois governos petistas (lulopetismo e dilmopetismo) mais recentes.

Outro ponto é a negação de direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos e torna o poder executivo o senhor irrestrito da sociedade —a guerra contra a mídia é um exemplo. E isso tendo o comando de um grande e infalível guia —no caso tupiniquim, o mais honesto de todos os brasileiros: não existe uma viva alma mais honesta do que eu (no Brasil), afirmou o próprio Lula da Silva. Sua pupila e presidente interrompida Dilma Rousseff passa o tempo todo repetindo ad nauseam o mesmo mantra.

E muita gente acaba entrando nessa onda, só que invectivando o PT. Não que o Partido dos Trabalhadores seja a pior das agremiações políticas. Não é, mas criticar o PT é muito mais divertido. Existem várias razões pra tanto: primeiro, porque os petistas são naturalmente fanáticos e é muito hilariante ver um fanático reagindo a argumentos lógicos e racionais. Dia desses um petista que conheço recebeu a solicitação de analisar discursos da senhora Dilma Rousseff (que são ininteligíveis impagáveis) e ficou furioso com quem o estava instando, exatamente porque não tinha argumentos pra defender a presidente.

Segunda razão, porque é divertido escrever sobre os petistas: eles ficam realmente furiosos e indignados quando o partido e seus líderes são criticados. Pra eles, Lula da Silva, José Dirceu, Dilma Rousseff e outros chefões e chefetes estão muito próximos da perfeição e deveriam estar sentados à direita do Deus Pai Todo Poderoso. Ou logo acima. Outro dia, faz um tempo, um “amigo” escreveu no Facebook: “eu amo o presidente Lula”. É verdade, eu li mesmo isso. Isso faz com que não tenha a menor graça escrever sobre o PSDB, o maior partido da oposição. Os tucanos são como picolé de chuchu —insossos e sem graça.


O PT é pura paixão. E, como toda paixão, está prenhe de fanatismo. E fanatismo paralisa a mente.

Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.br
Campo Grande | MS | Brasil

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