quinta-feira, 19 de novembro de 2009

.::Só depois da morte

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Não sou exatamente o que se pode chamar de preconceituoso, mas confesso que tenho uma certa birra com fanáticos religiosos em geral —evangélicos e carismáticos na dianteira—, principalmente porque pregam uma bondade que não praticam. E não fazem nada para que eu mude de opinião: cada vez mais agem de maneira a aumentar a malquerença que tenho por eles. Mas sempre que falo nisso, meus amigos e companheiros de mesa de botequim dão o contra: “isso é preconceito!”, logo dizem. Completando com “um evangélico —ou um carismático ou um budista— é um ser como outro qualquer”.

Como não acredito nisso, desenvolvi técnicas estatísticas para demonstrar que eles, os fanáticos religiosos de todos os credos e crenças, são os que mais fazem barbaridades no trânsito, por exemplo. Uma delas é olhar para os pára-brisas traseiros dos carros de motoristas que cometem faltas graves no trânsito. E, os números não mentem, cheguei à conclusão de que mais de 80 por cento dos infratores do trânsito trazem essas frasezinhas religiosas idiotas nos vidros dos seus carros. Tenho um vizinho que é pastor: ele é o sujeito que mais faz estrepolias com o lixo, atrapalhando o trabalho dos lixeiros, que têm uma lida das mais duras.

Se você não acredita, passe a reparar e anotar, como fiz. Sempre que alguém está na contramão, avança o sinal, dirige em alta velocidade, não respeita pedestre ou comete qualquer outra vilania no tráfego, pode ter a certeza de encontrar em seu carro um dístico qualquer do tipo: Se Deus é por nós, quem será contra nós; No íntimo do homem existe Deus; O salário do pecado é a morte; e outras do mesmo jaez. Encontrei um Fiat Pálio com a inscrição Viciado em Jesus. Fiquei horas lucubrando a respeito do tema: Jesus vicia?!

Um dia, um pastor evangélico disse que eu estava exagerando, e que gente ruim existe em todos os lugares, em todas as atividades, em todas as religiões. Eu argumentei: mas as pessoas não fanáticas não costumam ficar alardeando sua crença no Todo Poderoso, a ponto de cobrir seus carros, suas camisetas, seus armários, seus tudo, com adesivos contendo frases exaltando Jesus Cristo e seu divino Pai.

Cristo —que faz parte da Santíssima Trindade— é onipresente. Que eu saiba, em todas as religiões cristãs. Como diz o senhor Houaiss, o do dicionário, onipresente é aquele “que está presente em todos os lugares, em todas as partes; ubíquo”. Então por todos esses motivos me pergunto quais os grandes traumas que essas pessoas têm quando “encontram” Jesus, e fazem esse estardalhaço todo.

Eu confesso que nunca encontrei Jesus —acho que até porque, se ele existe mesmo e é onipresente, sempre esteve comigo: então estou perfeitamente acostumado à Sua divina presente e, logo, não preciso sair cantando isso aos quatro ventos. Já essas pessoas são afetadas por vários efeitos colaterais quando encontram Jesus Cristo.

Acho que na bula não se falava nada sobre demorar muito tempo para encontrar o que
sempre esteve com você. Tomara que por causa disso o ministério da saúde não resolva proibir tal medicação. Mas o fato é que as pessoas que se convertem e dizem finalmente ter encontrado o Filho de Javé passam a ter reações bem estranhas. A gente pode comprovar isso nas celebridades que se converteram a algumas dessas seitas envangélicas ou católicas.

Resumindo, penso que o problema está na captura da mensagem. Esses pobres coitados que não tiveram a graça de encontrar o Todo Poderoso desde que nasceram não estão acostumados ouvi-lo. Ouvem a igreja ou seita que tem uma retórica mais adaptada a almas perdidas. Temos que sempre ouvir Javé na fonte, sem ruídos. Assim quem sabe todos esses “perdidos” achem o caminho certo e retomem o que estavam fazendo quando se deparam com a religião —afinal, no mais das vezes, a religião é uma mentira, que em nada ajuda as pessoas, apenas iludindo-as com uma vida melhor, que nunca vem, ou com uma vida eterna, que só vem depois da morte.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

[O padre e o rádio]

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“No domingo próximo passado, no alto de Sant'Anna, na cidade de São Paulo, o padre Roberto Landell de Moura fez uma experiência com vários aparelhos de sua invenção, no intuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade, através do espaço, da Terra e do elemento aquoso, as quais foram coroadas de brilhante êxito. Esses aparelhos, eminentemente práticos, são com tantos corolários, deduzidos das leis supracitadas. Assistiram a esta prova, entre outras pessoas, o Sr. P. Lupton, representante do Governo Britânico, e sua família".

O texto aí de cima é de um jornal paulista cujo nome foi perdido há muito e refere-se à invenção do rádio por um brasileiro, bem antes do italiano Guglielmo Marconi: em 1893, desembarcou em São Paulo um padre gaúcho que carregava debaixo do braço um misterioso pacote. Dentro do embrulho, uma engenhoca que, garantia o religioso, permitia falar com qualquer pessoa a quilômetros de distância —e sem fios. A maquineta atendia pelo estranho nome de anematófono.

Segundo o padre, o anematófono é um aparelho com o qual, sem fio, gera-se os efeitos da telefonia comum, porém com muito maior nitidez e segurança, visto que funciona ainda mesmo com vento e mau tempo.
O pacote do padre também continha o teletition, espécie de telegrafia fonética, com o qual sem fio, duas pessoas podem se comunicar, sem que sejam ouvidas por outra. “Creio que com este meu sistema poder-se-á transmitir, a grandes distâncias e com muita economia, a energia elétrica, sem que seja preciso usar-se fio ou cabo condutor”.

No ano seguinte, o padre Roberto Landell de Moura – este era o nome do religioso gaúcho – fez a primeira transmissão pública de rádio do mundo. Sua voz, emitida na Avenida Paulista, percorreu oito quilômetros e foi ouvido com boa qualidade em Santana, bairro da zona norte da capital paulista. Marconi, aclamado mundialmente como o inventor do rádio, só faria funcionar seu sistema em 1865, quase dois anos depois.

Foi tão grande o sucesso da experiência do padre Landell, que até foi noticiada pelo “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro, então capital do País. Em 1904, Landell de Moura registrou patente do seu invento nos EUA, a terra das principais inovações tecnológicas, com direito até a nota do jornal “New York Herald”. No ano seguinte voltaria ao Brasil certo de que o governo brasileiro apoiaria e adotaria o seu sistema.

Mandou uma carta para o presidente Rodrigues Alves e pediu dois navios da Marinha para uma demonstração pública. Ao ser inquirido sobre a distância da transmissão, ele exagerou: “A máxima possível: meus aparelhos podem estabelecer comunicação com qualquer ponto do planeta. No futuro servirão até mesmo para comunicações interplanetárias”. O exagero custou caro ao padre. Rodrigues Alves negou ao padre Landell a oportunidade de comprovar a comunicação telegráfica entre navios em alto mar.

Numa pequena nota a respeito do padre Landell, a revista “Superinteressante” explica que “um oficial teria dito ao presidente que ‘esse padre é maluco – ele quer falar com seres de outros planetas’” A experiência não foi realizada e o padre Landell acabou estigmatizado. E o Governo Rodrigues Alves perdeu grande oportunidade histórica de apoiar o religioso. Desiludido, Landell de Moura destruiu suas engenhocas e voltou a dedicar-se exclusivamente ao sacerdócio.

Como se vê, parece que temos conosco a sina de perder as invenções brasileiras, utilizadas em todo o mundo: nos é negada a paternidade do avião, do bina, da máquina de escrever, inventada pelo paraibano padre Azevedo, além do francês naturalizado brasileiro Antoine Hercule Romuald Florence, que no Brasil tornou-se conhecido como Hércules Florence, e é mais conhecido como pioneiro da fotografia, antecedendo seus compatriotas franceses (Daguerre e outros) nesta invenção.

Constatando a grandiosa quantidade de descobertas, criações, pesquisas e invenções do mundo moderno, a gente fica espantada com a imensidão da inteligência humana. A gente pensa nisso a acaba até admitindo que a inteligência humana é quase tão imensa quanto a tolice de certos políticos e governantes. Um viva ao padre Landell!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

[Hacker ou cracker? — a difusão da ignorância]

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Por conta do blecaute que aconteceu há alguns dias, a palavra e o conceito de hacker bombaram. Toda a mídia passou a falar nos piratas dos mares cibernéticos, contando suas rocambolescas aventuras pelo mundo virtual: eles são os autores das mais enredadas vilanias com o uso de computadores. Não sei se por maldade ou por ignorância, os jornalistas que cobrem suas venturas e desventuras ao desligar a energia elétrica em 18 Estados brasileiros o tratam de hacker. Mas hacker ele não é. Pode crer: hacker, ou pirata de computador, não é criminoso implacável como se pensa e como insistem os jornalistas, que quase nunca aprofundam seus pensamentos e informações.

Exemplo disso é a história dos piratas tradicionais, aqueles dos "sete mares". Um pirata, antes de ser bom ou mau, precisava ter conhecimentos monumentais e profundos nas mais diversas áreas do saber. Enquanto outros olhavam para os céus e viam apenas estrelas, os piratas viam mais. Achavam seu caminho num mapa invisível. Seguindo os ventos da coragem e o prazer da descoberta, esses homens andaram por todo o planeta, nem sempre atuando como bandidos.

“O hacker é alguém que estuda a ciência dos computadores com o objetivo de ultrapassar os manuais, ir além dos ensinamentos dos livros e escolas. Assim, ele pretende explorar ao máximo todos os recursos que a informática pode oferecer. Hacker é o constante e insaciável estudante das ciências da computação. No mundo digital, todos os hackers têm um objetivo comum: o de conquistar a liberdade tecnológica. O hacker não tem a vontade capitalista, ou seja, ele não está em busca de dinheiro e sim, de reconhecimento", define Wayne Rocha, autor de dois livros sobre Linux, um sucedâneo do Windows de grande sucesso, criado por hackers —os sistemas operacionais baseados em Linux, por conta disso, são quase imunes a vírus.

Hacker é simplesmente o sujeito que conhece os sistemas operacionais (e os computadores) como a palma da mão e está sempre fuçando essas maquinetas. Uma vez que para entrar num computador sem autorização são necessários grandes conhecimentos (ainda que não seja necessariamente essa a realidade), rapidamente o termo se difundiu com um novo significado: o de intruso ou violador que acessa o controle de uma máquina em rede sem ter recebido permissão para isso.

Mas existe o hacker do mal:
o cracker (assim como há o pirata do mal). Ao contrário dos hackers, os crackers são aqueles que realmente têm intenções criminosas. “As semelhanças entre os dois são muitas e é por isso que ocorre muita confusão na hora de utilizar a nomenclatura", afirma Rocha. "O cracker é um irresponsável que não mede conseqüências e ataca sem piedade", completa Thiago Zaninotti, consultor em segurança de informações. O hacker é movido exclusivamente pelo desafio intelectual de romper as defesas de um sistema operacional —e quando consegue, encerra sua batalha.

Já o cracker, é aquele que inicia sua batalha exatamente quando consegue romper as defesas do computador, tendo em vista a obtenção de benefícios, sempre prejudicando alguém. Assim, a mesma descoberta que pode levar a salvar vidas, também pode eliminá-las. A constatação de uma falha tecnológica pode ser feita por alguém interessado em solucionar a questão de segurança, como também por alguém com objetivos de espionagem, de vandalismo ou coisa pior.

Como em qualquer área em que haja seres humanos, os atos criminosos na Internet são inevitáveis, e fazem parte do cotidiano digital. Muitas vezes são difíceis, para não dizer impossíveis, de serem solucionados. Os crackers conseguem ficar incógnitos e raramente deixam “impressão digital” ou outras marcas que possam ser rastreadas. As investigações no mundo virtual são um problema real e as leis não são capazes de garantir segurança e privacidade ao mesmo tempo.

As autoridades de todos os países estão confusas, porque não existe legislação adequada (quando existe alguma legislação) para este tipo de crime. Leis estão sendo elaboradas para penalizar os crimes cibernéticos, mas estas mudanças na legislação não têm a velocidade da Internet, e tornam-se ultrapassadas e ineficientes rapidamente. Bem como, do ponto de vista tecnológico, não existe conhecimento para que estas autoridades sejam capazes de definir o futuro virtual da humanidade.

Políticos, legisladores e empresários do mundo todo estão discutindo meios para eliminar as ameaças. Os responsáveis pela construção e crescimento da rede estão em debate sobre o envolvimento ou não nesta problemática. Eles não acreditam que tenham que fazer o papel de polícia, e muito menos de políticos. Na verdade, não se consideram responsáveis pela repressão e não estão dispostos em trabalhar contra a liberdade on-line.

Por sua vez, os políticos, geralmente, não tem conhecimento técnico para poder legislar sobre os crimes cibernéticos. A policia não está preparada para absorver essa tecnologia a curto e médio prazos, e acompanhar globalmente as rápidas mudanças que temos presenciado. No Brasil, como sempre, as coisas são muito piores. Além da incapacidade dos políticos e dos policiais para tratar desse assunto, não se conta, ainda, com um grupo coeso de técnicos militantes e de organizações ativas para resolver os muitos problemas que existem na Internet. Neste caso, a diferença entre a galinha e o político é que o político cacareja mas não bota o ovo.

A Internet brasileira chegou de forma pronta, e seu desenvolvimento se deu instantaneamente, aproveitando as soluções criadas no exterior, principalmente nos EUA. Desta forma, o crescimento da rede se deu de cima para baixo, acarretando um distanciamento das comunidades virtuais, que ajudaram a difundir a Internet nos outros países. Este é o motivo pelo qual não existe nenhuma organização da sociedade estabelecida visando diminuir as ingerências dos bandidos que sempre surgem em todas as áreas.

Essas impossibilidades deixam o sistema virtual indefeso para uma infinidade de crimes. Estão todos preocupados com os ataques dos vândalos contra o patrimônio das empresas ou do governo. Mas a recíproca também é verdadeira. Isto é, preocupados quando as empresas invadem e corrompem a privacidade dos indivíduos. Os legisladores, portanto, não podem simplesmente ignorar esta situação, e privilegiar um lado em detrimento do outro, apesar da influencia do poder econômico e de outros interesses escusos.

A saber, a nossa imprensa, nossos legisladores, e pessoas ligadas a Internet comentam exaustivamente os ataques dos supostos crackers, mas não dão o espaço necessário para discutir a invasão da privacidade do cidadão. Parece que ninguém se importa realmente com este assunto. O que não deixa de ser verdade, mas o desinteresse é obra do desconhecimento.

Esta questão só terá um fim adequado para todos quando os políticos e a mídia tiverem um olhar aberto para todas as nuances dos problemas existentes, privilegiando não apenas a defesa aos ataques contras empresas e instituições, mas protegendo o cidadão não só individualmente, mas também como membro da comunidade virtual. É preciso ter sempre na cabeça que foi do underground do mundo da tecnologia que surgiram grandes marcas, serviços e softwares que estão transformando a rotina de todos e apontando o modo como humanidade viverá neste novo século.

No caso específico do jovem "hacker" do apagão, todos ficaram indignados —e com razão— com seus atos. Mas todos os que sofreram com seus ataques atacam o cidadão de outras maneiras —também usando alta tecnologia—, cobrando taxas escorchantes, fazendo os maiores rolos em suas operações y otras cositas más. Assim, quando ouvir falar em bancos, empresas, geradoras de energia elétrica e assaltos (por bandidos comuns ou crackers), pergunte logo: de fora pra dentro ou de dentro pra fora? No mais, fica por conta da ignorância dos coleguinhas jornalistas o desvirtuamento de mais uma palavra, de mais um conceito. Estamos a cada dia nos tornando os principais difusores da ignorância.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

[Que mal faz um palavrão, afinal?]

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Apesar da ampla liberdade no linguajar que existe hoje em dia, há muita gente que detesta palavrões, notadamente quando se depara com um tabuísmo no seu jornal ou revista favorito. Mas as pachouchadas estão já perfeitamente integradas ao nosso linguajar quotidiano. Aliás, não há porque se horrorizar com o palavrão, mesmo porque, dependendo do contexto, qualquer vocábulo pode ou não tornar-se uma palavra chula.

Esta pode parecer uma idéia um tanto desabusada, mas pondere o gentil leitor: termos e expressões como tira, bota, mais, aí não!, mexa, mais embaixo, é muito grande!, que coisa enorme, no mato? etc... não são palavrões e, pelos critérios dos mais pudibundos, pode-se publicá-las livremente. Se alguém achar essas palavras e/ou expressões licenciosas, é porque as colocou num contexto da sua própria criação.

Ao contrário, o substantivo filho-da-puta pode ser usado como expressão de grande admiração e até carinho. O Dicionário Houaiss diz, por exemplo, que a palavra, "como outros disfemismos, pode ser empregada ironicamente como elogio ou em linguagem afetiva". Há que citar ainda o caso do notório garanhão inglês, glorioso na história do hipismo mundial. É evidente que sir William Maxwell, seu proprietário, não lhe pespegou o nome de Filho da Puta (assim mesmo, em português) como ofensa.

Enfim, o palavrão —ou bocagem, impropriedade, linguarada, obscenidade, pachouchada, palavrada, porcaria, turpilóquio ou qualquer outro nome que se dê às palavras ditas de baixo calão— faz parte da nossa língua, do nosso discurso informal, às vezes até do coloquial.
É impossível pensar-se no português/brasileiro cotidiano de hoje em dia sem os muitos palavrões que dizemos regular e copiosamente.

Muitas vezes, o uso do palavrão acontece de forma hilariante e parte de quem menos se espera, ainda que de maneira apropriada. Esta história, por exemplo, é real e aconteceu num final de tarde, numa ensolarada e movimentada Afonso Pena: eis que estavam dois cavalheiros num Honda, subindo a nossa principal avenida, quando, com aquela tradicional e costumeira falta de educação e indisciplina que caracteriza o motorista campo-grandense, resolveram entrar na 13 de Junho.

Nesta conversão, o motorista não deu sinal, entrou com o semáforo vermelho e fechou um outro carro, uma Fiat Dobló (esses mini-ônibus de origem italiana que mais parecem um guarda-comida) pilotada por uma jovem e bela senhora, que transportava um grupo de pelo menos uma dúzia de crianças, com idade variando aí pelos cinco e dez anos.

Freada brusca, ranger de pneus. Gritos das crianças. Pancadas em alguns sensíveis mas duros cocurutos. E uma incontida indignação da jovem e bela chauffeuse, que partiu em disparada atrás dos pouco gentis cavalheiros.

Ela alcançou-os no cruzamento da 13 de Junho com a Antonio Maria Coelho. Emparelhou seu carro com o dos imprudentes senhores, botou a linda cabeça para fora, deixou antever um alvo e belo colo através do generoso decote do vestido e gritou em alto e bom som, com entusiástica e ruidosa aprovação da criançada:

— Não respeita uma mãe de família, não?!, seu filho-da-puta...

Nem por isso o mundo desabou ou o real se valorizou. Os protagonistas da história apenas demonstraram que imoral, amoral ou moralista, todos eles acabam cometendo toda sorte de imoralidades. Só tem uma diferença: o moralista não se diverte.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

[A culpa é dos outros]

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Por que se queima Judas nos sábados de aleluia? Não será, por certo, para punir a delação. Entre os seviciadores do canhestro boneco das semanas santas haverá traidores, cafetões, vigaristas, traficantes, gente disposta a todas as falcatruas para empulhar os seus semelhantes. Com certeza não será para castigar a perfídia.

Diante das chamas que lambem o mal-ajambrado e bufo bonifrate, brilharão os olhos do pedófilo, da esposa infiel, do político de má cepa, do desertor, do difamador e do pusilânime. Não será para vingar o Cristo. O Filho do Homem já se foi há muito tempo —e, afinal, quem pensa mesmo no romântico judeu da Galiléia durante a queima do homem leviano de Karioth?

No sábado de aleluia acaba-se realizando uma orgia selvagem, uma barbaridade impossível de enquadrar-se na doutrina do reformador nazareno —trocando em miúdos, é uma prática anticristã, diabólica. Os evangelhos cristãos narram que o Filho do Homem perdoou, no momento em que morria, o canalha que, por míseros trinta dinheiros, o traíra impiedosamente. Para o Cristo, o arrependimento nunca vinha tarde demais —e Judas, o de Karioth, procurou no enforcamento a expiação da sua culpa. Cristão seria perdoar o traidor, o delator, mesmo quando prejudicado fosse, como foi, aquele que se dizia o Filho do Todo Poderoso. Mas ficou a prática anticristã, mas humana, e de cunho político.

Nos primeiros séculos de Cristianismo, haveria a necessidade —a bem dizer política— do doloroso ritual. Os cristãos, partidários de uma religião ilegal dentro do onipotente e onipresente Império Romano, reuniam-se em catacumbas, em plagas esconsas, sob o maior sigilo e mistério. E, claro, era necessário criar uma consciência contra o delator, contra os possíveis Judas que poderiam determinar, não já a crucificação do Cristo —que afinal de contas viera mesmo ao mundo para, com o seu sacrifício, redimir a humanidade—, mas a dos propagadores dos seus ideais de fraternidade, pobres e humildes elementos do underground.

Assim, a queima do Judas se tornou uma prática católica, ainda que não-cristã. Com grande insistência a Igreja Católica —entre todas as seitas cristãs a que mais traiu os ensinamentos do Cristo, de maneira a desfigurá-los, criando abismos entre a teoria e a prática— denunciou os traidores, os infiéis, os apóstatas, e perseguiu os hereges. Hoje, a necessidade político-religiosa da cerimônia medieval da queima do Judas não tem mais razão de ser. O hábito, entretanto, ficou. Por quê?

Haverá traidores, prostitutas, caloteiros, maridos e esposas infiéis, difamadores, covardes, levianos, toda a escória da humanidade, a apreciar o ato selvagem da queima, em efígie, do homem de Karioth. “Quem lhe poderá atirar a primeira pedra?” – perguntaria o Cristo. Toda essa assistência —sem dúvida seleta— sabe apenas que ali está por se tratar de um divertimento cujo caráter popular aumenta a capacidade de difusão das dores e atribulações individuais, dissolvendo-se no meio da massa anônima que ri, que grita, que se enrosca de prazer, vendo o sofrimento simbólico do autor da mais sensacional das traições. Ninguém se lembrará do Cristo.

O homem de Karioth encarna, não uma coisa abstrata como a delação, a traição, a deslealdade, mas o bolicheiro da esquina, o patrão, locatário da casa, a dona do lupanar, o agiota, o Leão, a sogra rica que não quer morrer, o adversário político, o homem importante que corre com o carrão importado acendendo invejas impotentes. Estralejando, queimado e iluminado pelas chamas que o consomem, injuriado e coberto de infâmia, Judas, o de Karioth, simboliza, por um momento, o ódio e a desesperança do homem comum contra o sofrimento a que está condenado.

São sentimentos inconsciente e grosseiramente voltados contra as classes sociais imediatamente superiores à sua humilde condição —contra os burgueses das cidades e os latifundiários do campo. Judas vale como um desabafo, como uma explosão contra as amarguras da inferioridade social, a que somente a luta política comum pode dar conteúdo e forma superiores e mais vigorosos.

Aquilo que se convencionou chamar de “sentido de ordem”, criado pelo catolicismo, se anula nessa orgia —nessa forma rudimentar de luta política— em que o povo se afirma contra seus exploradores econômicos, intelectuais e políticos, na sua eterna e insaciada sede de justiça, sempre lembrada quando se aproximam as eleições.

Se a gente olhar para as pessoas que cometem as atrocidades contra o boneco Judas vai descobrir que elas são como todos nós —comem, dormem, transam, vão ao cinema e ao banheiro. Mas essas pessoas se sentem pouco à vontade de saberem que entre elas e um serial killer não há muita distância, um simples verniz separa a mais pacata dona de casa de ser a próxima açougueira do bairro. Ou o médico conceituado de tornar-se o pedófilo execrado.

Às vezes precisamos por essas pessoas “do outro lado” —não os malhadores do homem de Karioth, mas os criminosos de sempre—, nos distanciarmos delas, para podermos dormir tranqüilos e sonhar que o mundo só é feio e malvado “lá fora” e que somos pessoas melhores que as outras.

Mas não adianta espernear, adianta só assistir ao modo como as coisas se desenvolvem, ver cada vez mais vezes as pessoas “terceirizarem” suas culpas e crucificarem tudo que achem estranho, ou não adequado aos seus padrõezinhos morais. Não importa se os assassinos lêem Paulo Coelho, vêem Tropa de Elite, ouvem a Xuxa em seus mp3 ou mp4 e rebolam ao som da dança do créu, a culpa sempre é deles, dos outros, e somente deles, pois não há meio ou obra que justifique ou condicione a pessoa a tal ponto. Quem aperta o gatilho?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

[Pra desorientar]

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Sempre estou me perguntando, principalmente quando se aproxima a realização de um pleito eleitoral: será que os resultados das eleições são influenciados pelo determinismo? Isto é, é o destino que comanda quem vai ganhar ou quem vai perder uma disputa eleitoral? Se assim for, a pesquisa de opinião, ao invés de constatar, pode definir os rumos de um pleito eleitoral como o que se avizinha e que determinará quem governará o País e os Estados nos próximos quatro anos?

Os donos dos institutos de pesquisa, os ibopes da vida, ramo de negócios cada vez mais rentável nesta e em outras plagas, dirão que não. O eleitor é livre, são detentores do livre arbítrio, alegam, e escolhe de acordo com sua consciência. O próprio eleitor, se pesquisado sobre o tema, dirá mais ou menos a mesma coisa. É razoável que assim seja. Aqueles, até por implicações legais, buscam preservar o seu negócio; e este, por auto-estima ou orgulho, sabe-se lá, prefere ostentar razões nobres para suas preferências políticas.

Há, no entanto, uma dimensão que nos permite aplicar ao problema o mesmo raciocínio e a dialética certeira de João Saldanha, célebre técnico e cronista de futebol do século passado. À pergunta "será que 'escrita' pode ganhar jogo de futebol?", ele, fiel ao seu estilo direto e irônico, respondia na lata que "sim". E agregou, segundo ele ancorado no método do materialismo histórico (era comunista o técnico que formou a Seleção Brasileira tricampeã em 1970), uma explicação simples e definitiva: "os jogadores acreditam".

Por isso, por mais que se negue, as “pesquisas” jogam, sem dúvida, um papel decisivo na armação do cenário da disputa eleitoral. A razão é simples: “os jogadores acreditam”. Os candidatos, os assessores, os cabos eleitorais, as burocracias partidárias, até os marketeiros e comunicadores, todos sabem que a cotação no “mercado eleitoral” passa pelas maquinações e pelo abracadabra da pesquisa, daí sua influência nos humores e na disposição de ânimo daqueles diretamente envolvidos na disputa.

Todo mundo sabe —e este é um dado decisivo— que os financiadores das campanhas (geralmente de um amplo leque ideológico, se é que há ideologia nisso) se orientam pela pesquisa eleitoral. Ela define a bolsa de apostas e o destino do vil metal. Nenhum financiador de campanha abre as burras para candidatos que não têm expressão nas pesquisas eleitorais.

Legislação permissiva, fiscalização frouxa, tradição de interferência do poder econômico, entre otras cositas más, são elementos da cultura política que transformam as pesquisas eleitorais em território da mais desbragada manipulação. Não existe coisa mais fácil de “manipular” do que a pesquisa eleitoral. São incontáveis as possibilidades de fazer maracutaias: na elaboração do questionário, na escolha da amostragem, na intercalação dos dias da enquete, na divulgação, no trabalho de campo. Em qualquer estágio da pesquisa é possível direcioná-la para um resultado conveniente para o interessado. É o que lhe dirá, sob garantia de sigilo, qualquer técnico da área. E mais, tudo “científico”, irreparável, perfeitamente defensável, sem deixar rastros de má fé.

Como o fio de bigode dos avós, a única garantia apresentada é a independência das empresas que fazem pesquisa. Pura balela, conversa pra boi dormir. A maioria trabalha —dentro e fora das épocas de campanha eleitoral— para o poder público, empresas e corporações, entidades e sindicatos patronais, quase sempre com aquelas licitações e faturas de transparência (é quando você está fora de si que o pessoal vê melhor o que você tem dentro) um tanto turva.

De fato, as pesquisas são ao mesmo tempo um mal necessário e uma garantia do processo democrático. Todas as nações democráticas do mundo têm pesquisas eleitorais, e os institutos que as realizam são independentes, mas não muito, geralmente empresas, e que dominam técnicas apuradíssimas e esotéricas de pesquisa estatística. Elas influenciam, sim, o comportamento do eleitor, mas não poderia ser diferente, assim como existem muitos outros fatores que influenciam. Querer um "comportamento puro", intocável, como se o eleitor vivesse dentro de uma caixa preta é uma sandice, que só alguns políticos que não entendem nada da ciência estatística são capazes de fomentar.

Resta o fato —pretextado por todos os donos dos institutos de pesquisas— de estar sempre em jogo a reputação da empresa responsável pela consulta. Esta, naturalmente, se mede pela comparação entre o voto contado na urna com a última pesquisa realizada. As variações dos resultados do período anterior —que é quando se arma toda a farsa do cenário da disputa— são acochambradas e acabam ficando por conta da uma sempre alegada volubilidade do eleitor. É quando se comete o crime perfeito.

Na verdade é um crime tão perfeito, que nunca ninguém consegue prová-lo. Mas sempre tem gente querendo proibir a divulgação de pesquisas antes das eleições, para punir a felonia, cometendo toda sorte de legislação em seu nome. A manipulação das pesquisas com certeza é um crime dos mais espantosos —mas a vítima (o eleitor) não tem a menor importância, até porque são três os resultados básicos das pesquisas eleitorais. O primeiro é para orientar partidos, candidatos e seus assessores; o segundo, pra orientar financiadores e doadores de campanha; o terceiro pra desorientar o distinto público eleitor.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

[Toscos]

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Na abertura da 14ª Parada do Orgulho Gay, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, neste domingo, 1º de novembro, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, deixou um recado para o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), que disse em um programa de televisão que o câncer de mama em homens “deve ser conseqüência de passeatas gay”. Minc revidou: “preconceito dá câncer, faz mal à saúde e pode matar. O que cura o preconceito e a doença é a solidariedade”, atacou Minc.

Mas Minc retomou a polêmica com o governador de Mato Grosso do Sul durante seu discurso na Parada Gay. E foi mais agressivo: "outro governador (André Puccinelli) ficou chateado comigo porque eu queria defender o Pantanal e disse que ia me violentar. É uma cabeça troglodita de quem pensa como se estivesse na época da Inquisição”, atacou. Em setembro, Puccinelli chamou o ministro de “veado e fumador de maconha” e prometeu estuprá-lo em praça pública.

Na época, Minc não deixou por menos e disse que o governador devia “cuidar do homessexualismo que existe dentro dele”. Depois dos ataques contra Minc, o Governo de Mato Grosso do Sul emitiu uma nota em que Puccinelli pedia desculpas pelas declarações.

Na nota na época, o Governo do MS lamentou a "conotação ofensiva atribuída às declarações" e observou que “quaisquer desdobramentos alheios devem ser entendidos como inapropriados e, se gerarem ofensa ao ministro Carlos Minc, o governador André Puccinelli ratifica suas desculpas”. Mas o mal-estar continua e Puccinelli ainda é cobrado por suas declarações.

Não se sabe desde quando, o governador de Mato Grosso do Sul anda frequentemente inventando grosserias e atitudes toscas tão complicadas, tão envolvidas em indelicadezas menores, indelicadezas bobinhas e indelicadezas rudes, que os adversários ao retrucar todas as grosserias, acabam apelando para outras grosserias, semelhantes ou piores. O caso do ministro Minc é exemplar.

[Existe televisão depois da morte?]

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Tem gente que possui a crença profunda na idéia de que a televisão de fato existe. Entretanto, apesar dos fenômenos bizarros a ela relacionados, alguns cientistas do mundo inteiro, mais cautelosos e partidários desta ficção espantosa que se chama “o fato”, duvidam da existência da televisão como tal, atribuindo seus efeitos a um vírus não filtrável, isto é, um agente de doença invisível, que passa através dos filtros e só pode ser cultivado em presença de células vivas que sejam suscetíveis, também conhecido como ultravírus ou tvírus.

Em resumo, esses homens de ciência defendem a teoria de que a tv não passa de uma moléstia pandêmica dos grandes centros urbanos e neurológicos, transmitida através de bizarras caixas de plástico ou madeira, chamadas receptores, que têm antenas, quatro ou mais patas, cíatos, um grande olho brilhante —que se torna ativo, como nos mosquitos, à hora do crepúsculo—, cinescópio, iconoscópio, e são acéfalos ou anencéfalos, além de super-heteródinos —os mais modernos utilizam sistemas como plasma, cristal líquido (lcd), díodos emissores de luz (led) e outros.

Surgida originalmente no hemisfério setentrional (ou hiperbóreo), suas primeiras vítimas foram detectadas nos EUA, Alemanha e Inglaterra, depois na Itália, França, Belarus, Macedônia, Bósnia Herzegovina, Croácia e outros países da Comunidade Econômica Européia. Segundo os especialistas no assunto, também conhecidos como teleologistas, a tv ataca principalmente o cérebro, o cerebelo e o telencéfalo, apresentando a curiosa capacidade de devastar tanto pessoas vivas quanto gente já defunta. Isto, aliás, seria explicado pelo fato de que criações dos grandes gênios da humanidade, quando acometidas pela tv, transformarem-se em fantasias pueris, cretinas e ocas.

Hoje, a televisão fala os idiomas de todo o mundo. Aqui, no Brasil, segundo o jornal Folha de S.Paulo, “do galego ao árabe, do japonês ao hebraico, a tv brasileira é uma verdadeira ‘torre de Babel’. Nela, o telespectador pode encontrar onze línguas. distribuídas em canais internacionais e/ou programas feitos no Brasil por descendentes de imigrantes”. Dizem os especialistas que não demora muito a tv brasileira vai conseguir falar em português. O que eu acho pouco provável.

Ao descrever os sintomas, os cientistas observam que as pessoas afetadas pela tv passam horas diante do olho brilhante, julgando observar ali uma infinidade de imagens fascinantes. Alguns animais domésticos, além de seres humanos, também são suscetíveis à moléstia, como é o caso de inúmeros gatos, cães, papagaios, antas e peixinhos de aquário que acabam tão fascinados quanto homens e mulheres, crianças e idosos, veados e lésbicas.

Mas o animal doméstico que mais gosta de tv é a mosca (dípteros esquizóforos da subordem dos ciclórrafos). É notável a freqüência e a obstinação com que este díptero costuma aparecer, seja participando das imagens que as pessoas acometidas de tv (telepacientes ou telespectadores) imaginam ver no vídeo —nas orelhas dos atores das novelas, no nariz dos apresentadores de telejornais, na testa de políticos entrevistados etc.—, seja ela mesma participando como telespectadora amiga, pousando (e posando) e decolando da tela. O fato da mosca ser vidrada em tv pode ser explicado pela especial preferência que o asqueroso inseto demonstra por matéria fecal ou coisas em estado putrefato ou malcheirosas.

Certos povos da Lapônia, algumas tribos da Amazônia interior, ugro-fineses da Europa setentrional e outras gentes menos votadas são imunes à tv e suas conseqüências. Em compensação, particularmente vulneráveis são donas de casa, senhoras de certa idade, crianças, políticos —já notou o que tem de político em Campo Grande dando uma de apresentador de televisão, e cada um pior que o outro?!) e deficientes mentais.

Nos casos mais agudos, o telespectador —pessoa acometida pela moléstia— perde o interesse por tudo que não seja tv, fica preguiçoso, abandona a família, deixa de comer e passa os dias estático diante da telinha, olhos vidrados nos conjuntos de imagens a que chamam de programas, shows, telejornais, reality shows, aos quais dá nomes extravagantes como Um Contra Cem, Big Brother Brasil, SuperNanny, Malhação, Octopus, Domingão do Faustão, Pânico na TV, Gordo Chic Show, Caras & Bocas etc. e tal.

Estes —e outros— são programas de televisão que, quando a gente liga, não consegue mais desligar —dorme imediatamente. As vezes fico pensando se não estou redondamente (ou quadradamente) enganado: os que vivem combatendo a televisão deveriam ser mais humildes ao emitir juízo de valor a respeito dela; afinal, 100 milhões de cretinos (só no Brasil) não podem estar totalmente errados. Na verdade, a televisão parece ser um sistema de solução sem problema.

Na fase terminal nota-se a liquefação parcial ou total da massa encefálica, dislogia, esquizoidia, encefalocele galopante e uma profunda frenoplegia. Esses fenômenos são perceptíveis tanto naqueles telepacientes que assistem tv, quanto naqueles outros que pensam que estão produzindo as imagens. Talvez seja por isso tudo que o humorista Millôr Fernandes tenha afirmado que “uma coisa não se pode negar à tv: ela não tem medo de insultar a inteligência do telespectador”.

Depois de escrever tudo isso e analisar profundamente a questão televisiva, penso na morte (até porque estou escrevendo estas mal-traçadas no Dia dos Finados de 2009) e fico apavorado lucubrando sobre uma questão transcendental: será que existe televisão depois da morte?

sábado, 31 de outubro de 2009

_De algibeiras e estribeiras

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Ignazia Kravitz nasceu num prostíbulo em Santos. Era filha de uma meretriz polonesa, Malgorzata Kravitz, que um dia desembarcou no porto paulista e lá ficou até a morte. Mercadejou o corpo enquanto a beleza eslava o permitiu e depois tornou-se uma honrada cafetina. Ignazia, ou Naná, nasceu em 1948 e, como a mãe, iniciou-se no mais antigo ofício da humanidade ainda menina, aos 14 anos. Em 1966, com 18 anos incompletos, Nana veio parar em Campo Grande —era época de campanha eleitoral e ela foi convidada a integrar um caravana de moças de vida airada que iria visitar as diversas cidades do sul de Mato Grosso, oferecendo favores sexuais a lideranças políticas locais pra ajudar a eleger um dos candidatos. Falo do milagre mas não revelo o santo por óbvias razões.

Naná por aqui ficou após o pleito —gostou dos moços, apegou-se a alguns peões, a sopa paraguaia tornou-se uma das suas iguarias favoritas e passou a desfrutar do tereré refrescante todas as tardes. Foi puta durante alguns anos e, depois que o corpo deixou de prestar-se às dificuldades da vida fácil, continuou no meretrício, mas como patroa: tornou-se uma respeitada e honrada cafetina.

Você, gentil leitor, pode achar bizarro o adjetivo "honrada". Afinal, como pode haver honra numa atividade tão devassa? Mas na Sra. Kravitz há sim. Desde que assumiu a função de celestina, já nos anos oitentas do século passado —sim, porque Naná foi quenga até quase completar 38 anos—, ela sempre respeitou suas meninas, sempre honrou seus compromissos e sempre conviveu com gente da melhor qualidade.

Ainda nos anos 1980, Dona Naná montou, com a ajuda de um empresário com quem teve uma filha bastarda, um belo lupanar num local afastado do centro de Campo Grande, mas que hoje tornou-se bairro de classe média alta. O bordel existe até hoje: lá pode-se desfrutar da beleza de moças de todo o país, jogo manso ou pesado, boa bebida e uma cozinha que se esmera nos mais saborosos pratos da região: mojica, picanha assada, peixes maravilhosos e uma fatura de tanta comida doce e salgada.

Denominado pela cor castanha do seu elaborado portão, Casa do Portão Baio —e não adianta procurar, porque não tem placa—, o castelo é muitíssimo bem freqüentado: empresários, pastores evangélicos (e até alguns padres muito bem disfarçados), profissionais liberais (médicos, advogados e jornalistas são os mais assíduos) e, principalmente políticos. A partir das noites de quinta-feira e por todo o final de semana, o Casarão da Vereda Grande, como Dona Naná chama seu estabelecimento, é uma ferveção só.

Por conta de sua proximidade com os políticos —ela observa que política e prostituição são duas atividades que não vivem uma sem a outra—, a Sra. Kravitz tornou-se uma acurada observadora e analista da vida política da Guaicurúndia. E uma frasista mordaz e sarcástica, até porque conhece tudo da política destas plagas em que o mugido de um touro peó vale mais que um discurso no parlamento.

Dona Naná é uma amiga de muitos anos e volta e meia aparece aqui no meu modesto mas divertido tugúrio, que chamo de ateliê, para discutir a política guaicuru, em longas conversas acompanhadas de cerveja gelada, chipa quente, fatias de sopa paraguaia e, eventualmente, um tereré gelado que só ele degusta. Como estamos em vésperas de eleições, suas visitas se amiúdam. E suas digressões sobre a política me ajudam desenhar o cenário das eleições de 2010, objeto por objeto.

Na última vez em que esteve aqui no meu ateliê, a Sra. Kravitz analisou a política de alianças para as próximas eleições, focando principalmente PT e PMDB que, no âmbito nacional vão estar lado a lado, mas que aqui periga serem adversários. No final do nosso papo, Dona Nana disse uma das suas frases, aparentemente difícil de compreender, mas que você pode ter certeza de que tem gente lá do alto da pirâmide política que sabe muito bem do que a Sra. Kravitz está falando: "tem político que pensa tanto nas algibeiras que acaba perdendo completamente as estribeiras".

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

_Ignorante... e patife

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Sábado foi para a Lenora o dia mais horrível de sua vida de patricinha melindrosa, suscetível e possuída.

"Que merda! Desaforo! Quem terá sido o cretino? A vadia?!", exclamava ela, indignadíssima, a correr, com um papel amarelo na mão, todos os cantos da casa. Estava deste modo agitada, quando lhe aparece dona Carmita, sua mãe, e a tia Berê, que, ao vê-la tão agitada, perguntam: "Que é isso, Lenora? Que foi?", perguntou a mãe; "Que te aconteceu, menina?", complementou a tia Berê.

"Ai mamãe. Uma carta anônima, mamãe!, cheia de invejas e despeitos, de deboches e

calúnias! Uma criatura indigna, que me escreve me tachando de cretina, tola, frívola, desajeitada, vadia, bolinadeira e arrogante! Quanta mentira, meu Pai do Céu!...

"Calma, minha filha, calma; nós havemos de descobrir essa pessoa", garante a mãe. E a tia Berê, como era de seu costume, complementa: "Nem que a gente tenha de chamar um detetive"...

Não podendo mais com aquilo, a garota se deixa cair desajeitada numa cadeira, deixando o vestido subir até o alto das coxas, e dizendo, entre soluços:

"Toma, mamãe... Olha só tia Berê... Vejam se consegues descobrir de quem é essa letra"...

As duas boas senhoras pegam a carta, e a lêem lado a lado do princípio ao fim, do fim para o princípio, pensam... A tia Berê é a primeira a dizer alguma coisa: "Pessoas que se dão ao trabalho de escrever cartas anônimas não esquentam a cabeça com a redação delas... Mesmo porque elas são mesmo anônimas. O resultado é que, se são descobertos, os autores são considerados não apenas patifes, mas também ignorantes!"

E a dona Carmita complementou: "assim de cara, não dá pra descobrir quem escreveu esta carta —e levanta o papel amarelo—; mas uma coisa eu posso garantir: isto é de alguém que te conhece muito bem...

_Cadê o ovinho que estava aqui?

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Apesar da ascensão firme da Familia Trad rumo à sua ampliação e solidificação no poder, definitivamente algumas coisas não andam bem no clã. São muitos pequenos casos: o emprego fantasma da matriarca Therezinha Trad no Senado; as faixas publicitárias que o prefeito Nelsinho Trad mandou colocar em homenagem a uma participante do programa de tv Big Brother Brasil, como se ela fosse uma grande personalidade da cidade; as atitudes alopradas do presidente da OAB-MS, Fábio Trad, e tantas outras.

Agora, foi a vez do deputado estadual Marquinhos Trad que foi severamente desancado por deputados integrantes da CPI da Aneel (que trata de energia elétrica). Sem fazer comentários a respeito do assunto, reproduzo a seguir declarações captadas em sessão da investigação realizada na terça-feira, 27/out.:

Deputado Wladimir Costa (PMDB/PA): "(...) o deputado estadual Marquinhos Trad começou a dar uma série de entrevistas na imprensa do Estado dele, divulgando que viria para cá para nos ensinar a lidar com CPI, a nos ensinar a promover palestra... (...) Então eu tenho uma série de matérias aqui, em que ele divulga que viria aqui para nos ensinar a labutar com CPI. Então é isso um absurdo. (...) O Marquinhos Trad, deputado estadual do Mato Grosso do Sul, tem que se dar respeito à Assembléia do MS, e não na Câmara dos Deputados, se ele quiser falar pela CPI, que ele dispute as eleições do ano que vem e venha ser deputado federal.

(Declaração de deputado não identificado): Deputado Vladimir, me permita. Eu recebi matérias também com referência a declarações desse deputado Marquinhos Trad dando uma de professor, que ele viria aqui para nos ensinar. (...) agora vem esse rapaz, parece-me que ele tem o pai do nosso partido, a onde é que tem requerimento para ele vir nos ensinar?

Deputado Wladimir Costa (PMDB/PA): Mas ele é dado a proselitismo no estado dele, só que não vai colar aqui conosco.

Deputado Sabino Castelo Branco (DEM/AM): Só pra complementar as palavras do deputado Vladimir, que aqui não é lugar para dar palestras. Que se eles fizeram uma CPI lá no Mato Grosso do Sul, que essa CPI não deu em nada e não teve resultado nenhum, e ele querer fazer mídia com a CPI da Câmara Federal.
Esse cara não tem vínculo nenhum com a Câmara Federal para que possa falar que vai vir dar palestra aqui. Se nós tivéssemos tempo eu gostaria que a gente votasse o relatório para gente trazer ele aqui para saber que palestra que ele ia dar. Nós é que iríamos dar uma palestra para ele saber como voltar ao Estado dele. E como o deputado falou, se ele quiser se relacionar com a Câmara que ele se candidate a deputado federal.

(Declaração de deputado não identificado): Gostaria de também registrar o nosso repúdio as declarações do deputado Marquinhos Trad que vão contra o trabalho que esta CPI está prestando. O deputado Vladimir está coberto de razão quando levanta essa questão, pois o deputado que quer se aproveitar eleitoralmente do momento, tendo em vista que por mais que os setores da imprensa não tenham dado o devido destaque a atuação da CPI, se essas discussões hoje, essa declarações, de que as distribuidoras se apossaram indevidamente de mais de R$ 1 bilhão do povo brasileiro é graças ao trabalho desta CPI, que desde o começo tentaram, sem sucesso, aplaca-la, estrangula-la, (..).


Como se vê, Marquinhos Trad mostra claramente qual é a diferença entre o político e galinha: cacareja muito, mas não bota o ovo. Nem precisa comentar, né?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

_Sem perder as estribeiras

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Alguém, não lembro quem, disse que "em política nada se perde e nada se transforma —tudo se corrompe". E corrompe gente que deveria ser incorruptível, gente com formação universitária qualificada e de preeminência na sociedade. Um caso eloqüente desses dias é a eleição da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que acontece no dia 16 de novembro

Atual presidente da instituição, o advogado Fábio Trad liderou há alguns dias carreata de um dos candidatos, Ary Raghiant, de quem parece ser cabo eleitoral apaixonado.
Em dado momento, Trad e caterva resolveram passar em frente à sede do comitê de campanha do adversário, Leonardo Duarte, a fim de debicar a turma do outro lado. Só que o que deveria ser uma forma zombar dos antagonistas, tornou-se uma ação agressiva e despropositada, segundo testemunhas.

Relato que consta de um email que está circulando na Internet afirma que Fábio Trad "desviou completamente de seu itinerário e atravessou a cidade para afrontar aqueles que estavam a comemorar. (...) nosso presidente (da OAB) estava completamente descontrolado". E as fotos anexadas ao tal email mostram um Trad desatinado, com mais da metade do corpo pra fora da janela do carro que o transportava (o que fere as leis de trânsito). Do outro lado, um rapaz faz um gesto impudente. Tem mais: dentro do carro o que parece ser uma criança sorri. Como aquela era uma situação potencialmente perigosa, não teria sentido uma criança estar participando.

O site da OAB não toca no acontecimento (claro, né?), mas uma nota da Comissão Eleitoral da entidade, assinada por Edson Macari, ameaça: "no sentido de manter a normalidade do pleito eleitoral no próximo dia 16 de novembro de 2009, conclama a todas as chapas concorrentes a se pautarem dentro dos limites éticos, evitando ofensas à honra e imagem de candidatos, ou à imagem da instituição. Os excessos serão apurados e punidos na forma da legislação vigente". Estranhamente, a nota está prédatada de 27 de novembro de 2009.

Volto ao email: o autor diz que "só nos resta lamentar e pedir a tais advogados que recordem a lição número um da advocacia: manter a ética, tratar os colegas com urbanidade e dignificar a profissão". Procurei o Sr. Edson Macari na tarde de ontem na OAB, mas ele não se encontrava. Assim não dá pra saber se o Fábio Trad será punido, como preconiza a nota.

Resta apenas lamentar que dirigentes que se deixam dominar pela exaltação denigram a entidade. Afinal, a importância da OAB para o País transcende, e muito, o papel de órgão representativo do estamento do direito A OAB é um patrimônio intangível da nação brasileira e República, pois nunca hesitou em defender o Estado democrático de direito, mesmo nos momentos mais críticos da vida política brasileira. Nunca se acovardou. Seus dirigentes não têm o direito de perder as estribeiras.

_Leis demais punem de menos

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Nós, seres humanos, somos animais sociais —no sentido de que somos um agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua; não somos os únicos (vide abelhas, formigas e outros que tais), mas somos aqueles que têm a exclusividade do livre arbítrio e usam leis não naturais para ditar as normas de comportamento coletivo. Para estabelecermos essa convivência criamos regras e regulamentos que convencionamos chamar de leis.

Começou com Hamurabi com seu olho por olho, dente por dente..., depois veio a política de Platão, o direito romano, o estudo da moral (das inúmeras correntes filosóficas), Jesus, Buda, Maomé e suas religiões, as cortes francesas e as aprimoradas etiquetas, Gandhi com o pacifismo, a lei do Ventre Livre, a constituição de 1988 (e suas inúmeras emendas) e até as regras do condomínio são algumas tentativas de transformar esses seres humanos em animais um pouco mais domesticáveis.

Hoje estamos muito distantes daqueles primórdios da humanidade em que nós, homo-sapiens, éramos pouca coisas mais civilizados que um bando de orangotangos. Evoluímos muito a partir das leis das selvas —mas ainda nos deixamos levar pela regra que diz que o mais forte sobrevive subjugando o mais fraco: por isso estamos sempre resolvendo boa parte dos nossos conflitos na porrada. Temos direitos iguais, oportunidades iguais e respeitamos nossos companheiros. Pelo menos é o que está escrito durante milênios de aprimoramento das relações sociais civilizatórias —mas em todo lugar tem aqueles que são mais iguais do que os outros.

Para nos abordar, enquadrar, jungir, censurar, confinar, iludir, agrilhoar, conquistar, enlouquecer, tungar, foram escritas leis federais, estaduais, municipais, paroquiais, rurais, locais, marginais; com as quais avançam nos nossos bolsos o presidente da nossa República, o governador do nosso Estado, o prefeito da nossa cidade, o segurança do nosso escritório, o síndico do nosso prédio, o guarda da nossa praça. Quando Hamurabi criou o primeiro código de lei não melhorou em nada o comportamento humano e, ainda por cima, inventou a ilegalidade, até porque toda a punição é maldade —toda a punição em si é má. E também o advogado, o juiz e promotor.

A lógica diz que quanto mais leis mais crimes. A frase pode parecer óbvia para alguns, absurda para outros tantos; mas espelha a realidade na medida em que nossas leis surgiram de preceitos morais religiosos. Veja-se as cinco proibições fundamentais dos chamados Dez Mandamentos, utilizados por inúmeras religiões e seitas ocidentais: as que se referem a matar, roubar, cobiçar, prestar falso testemunho e cobiçar a casa (e tudo o que tem dentro dela, inclusive a mulher) do próximo, que podem ser encontrados em quase todos os sistemas morais conhecidos e aceitos por quase todas as sociedades humanas, mesmo as orientais.

Na hora de punir, as questões morais têm grande peso, um peso maior do que o próprio direito e a própria Justiça. No Brasil, por exemplo, as situações em que um indivíduo mata seu semelhante e é considerado inocente são mais comuns do que aquelas em que é declarado culpado —e mesmo estes acabam ficando muito pouco tempo atrás das grades. E é assim mesmo ou pior em todas as outras quatro situações. O roubo e a corrupção, por exemplo, têm nuances tão variadas que não podem ser expostos sem que se esgarce irremediavelmente todo o tecido social, sem que desmorone todo o edifício político.

Os fundamentos da moral, que ditam a criação das leis, são basicamente os mesmos em toda parte, com pequenas variações. Mas a moral, como a teologia, se presta a acréscimos, decréscimos, remendos (e sonetos) e emendas. Há não muito tempo, não mais que dois séculos, por exemplo, eram permitidos casamentos entre crianças e entre adultos e crianças; também o conceito de que é pecado beber mudou muito: há não muito tempo a bebida fazia parte dos rituais religiosos —não é à toa que em inglês as bebidas alcoólicas são chamadas de spirits (em português espírito também significa bebida, mas o termo caiu em desuso: ninguém sai por aí dizendo que vai beber um espírito). E em algumas religiões o uso do álcool ainda perdura: os padres católicos continuam bebendo vinho durante a missa. Hoje, essas práticas são cada vez mais execradas e punidas.

Criamos uma civilização cercada, por todos os lados, de regras e regulamentos, extremamente punitiva, mas cada vez mais nossos prepostos, ou seja, políticos, governantes e outras autoridades civis, militares e eclesiásticas, têm menos capacidade para punir os excessos, tanto coletivamente como individualmente. Certamente nossa civilização vai ser melhor se usarmos menos moral e mais ética para compormos nossas leis. Hoje temos leis demais que punem de menos. Há tantas leis que é impossível que alguém as conheça todas —estávamos melhor na antiguidade: digam o que quiserem sobre os Dez Mandamentos, mas devemos ficar contentes por eles serem apenas dez.