sexta-feira, 26 de maio de 2017

Sobre a utilidade da corrupção

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No 146º dia deste ano as pessoas sentiram surpresas com a defesa do ex-governador André Puccinelli, feita por grande número de pessoas nas redes socais, inclusive jornalistas. Alguns textos são rigorosamente apaixonados, como que redigido por áulicos. Como se sabe, o médico e ex-governador foi detido há alguns dias pelas autoridades policiais sob a acusação de corrupção.

Cognominado Coronel da Toscana, por conta da região italiana em que nasceu e do seu estilo capo de governar, Puccinelli obviamente afirma que tudo é mentira dos seus muitos desafetos. Seu antecessor Zeca do PT, eg, afirma —em artigo publicado em fevereiro/15— que “até o momento, três ‘legados’ de André Puccinelli consumiram quase R$ 450 milhões: a verdadeira farra da publicidade (R$ 130 milhões), o faraônico Aquário do Pantanal (R$ 240 milhões) e o desfalque dos consignados (R$ 50 milhões). Para que tenhamos uma noção da magnitude desses valores, o mesmo corresponde a um mês de toda a arrecadação estadual de ICMS”.

Parece não haver provas de que o dr. Puccinelli é corrupto de fato, mas o sr. Zeca do PT afirma, como se leu acima, que sim. O petista, porém, lamenta a decisão da Justiça de colocar uma tornozeleira eletrônica no peemedebista, dispositivo usado comumente por prisioneiros que cumprem prisão domiciliar ou que estão no regime semi-aberto. “Não tenho razão —diz Zeca— para comemorar esse tipo de coisa. Eu faço luta política, não pessoal”*. Apesar do dispositivo no doutor,
Zeca ainda acha que ele é candidato forte para as eleições de 2018 —e o comparou, em prestígio, à figura do ex-presidente Lula da Silva.

É possível que muitos dos que defendem o ex-governador e outros políticos sejam favoráveis à corrupção, principalmente aqueles que apoiam o preceito do “rouba mas faz”. Isso pode parecer absurdo, mas há muita gente que aprova a corrupção sem ressalvas. Há inclusive analistas políticos sustentam que a corrupção pode desempenhar um papel útil nos países em desenvolvimento. Parece cínico —e é—, mas é real.

Este argumento possui um cinismo latente valor de choque que se iguala ao de que o nível ótimo da corrupção não é zero. Mais: não se trata apenas de que combater a corrupção pode ser tão caro a ponto de não valer a pena, mas que a corrupção propriamente dita pode criar benefícios econômicos, políticos ou administrativos.

Em seu livro “A Corrupção Sob Controle”, o economista norte-americano Robert Klitgaard, um especialista internacional em corrupção, demonstra que é possível mostrar três categorias de argumentos no sentido da corrupção poder, ocasionalmente, ser benéfica do ponto de vista social. Pode-se imaginar um argumento do economista, argumento do cientista político e argumento do gestor.

Eis o argumento do economista: os pagamentos por corrupção introduzem um tipo de mecanismo de mercado. Em um sistema em que bens e serviços são alocados por filas, política, seleção aleatória ou "mérito", a corrupção pode, em vez disso, alocar os bens segundo a disposição e a capacidade de pagar. A corrupção, por conseguinte, pode colocar bens e serviços nas mãos das pessoas que mais os valorizam, que os podem usar de modo mais eficaz. Em certo sentido, portanto, depois do ato de corrupção esses bens e serviços são distribuídos de modo mais "eficiente" na acepção econômica.

O professor de economia comercial Nathaniel Leff assim resume essa questão: “a corrupção pode introduzir um elemento de competição no que, do contrário, seria um negócio comodamente monopolista (...). Ao mesmo tempo a propensão para o investimento e a inovação econômica pode ser maior fora do governo do que dentro dele (...). Como o pagamento dos mais altos subornos é um dos principais critérios de alocação, a capacidade de aumentar a receita, seja tirando das reservas ou das operações correntes, é incentivada. A longo prazo, ambas as fontes dependem fortemente da eficiência na produção. Daí uma tendência para que a concorrência e a eficiência sejam traduzidas no sistema.

 A fala do economista tem dois aspectos. Primeiro, uma predição: as forças do mercado são difíceis de evitar. Quando o mercado não está acostumado a distribuir bens e serviços, a corrupção se insinuará em uma espécie de mercado ilícito paralelo. Em segundo lugar, uma avaliação: quando ocorre a corrupção, esta pode conduzir a uma alocação de bens segundo a disposição e a capacidade de pagar. Essa evolução, por sua vez, pode ser economicamente eficiente —talvez, portanto, socialmente útil.

Já o argumento do cientista político tem este sentido: pagamentos, nomeações e políticas motivadas pela corrupção podem trazer benefícios políticos. Os políticos podem utilizar a corrupção para favorecer a integração de várias comunidades, tribos, estamentos, regiões ou partidos, o que, por sua vez, pode levar à harmonia política em face da fragmentação da autoridade, da desunião e da hostilidade. Analiticamente, pode-se classificar certos gêneros de corrupção ao lado de acordos do tipo “ajuda teu irmão que ele te ajudará ou é dando que se recebe” e quotas preferenciais para diferentes regiões, grupos étnicos ou partidos. Embora tais artifícios em geral distribuam benefícios públicos de formas que, estritamente falando, se opõem à alocação por "mérito " ou "beneficio social máximo", elas podem acarretar benefícios políticos. Bem diferentes dos evidentes benefícios para o político politicamente corrupto, pois a sociedade como um todo pode ficar “melhor" devido à corrupção.

Cientistas políticos às vezes citam a experiência dos Estados Unidos, onde a corrupção auxiliou as "máquinas políticas" das cidades a fornecerem não apenas o voto, mas também os serviços públicos, e onde essa corrupção foi afinal suplantada pelo "bom governo". O surto de corrupção nos países em desenvolvimento, hipoteticamente, pode ter benefícios semelhantes e um prognóstico analogamente benigno. A corrupção por vezes é encarada como um mecanismo de "participação política” e influencia, particularmente minorias étnicas e empresas estrangeiras: "na maior parte dos países subdesenvolvidos, os grupos de interesse são fracos e os partidos políticos raramente permitem a participação de elementos alheios às facções rivais.

Em consequência, o suborno pode ser a única instituição que permite a outros interesses conseguir articular e ter representação no processo político. Daí, a despeito dos aparentes custos sociais, a corrupção poder trazer importantes benefícios políticos.

Finalmente, o argumento do gestor: a corrupção pode ter utilidades dentro de uma organização. Se as regras burocráticas a estão constrangendo, a organização pode às vezes beneficiar-se do desdobramento corrupto das regras pelos empregados. Uma dose limitada de roubos, desfalques, falsos relatórios de gastos, devoluções, "taxas de urgência”, e assim por diante, pode ser tacitamente admitida pela administração superior, pois controlar essas atividades ilícitas podem ser, a longo prazo, um sucedâneo para salários mais elevados. Um fundo tipo "caixinha" talvez funcione em uma organização como um fundo de despesas eventuais que a administração superior possa alocar, de modo flexível, mas ilícito, para favorecer os objetivos da própria organização.

Esses três "argumentos" têm alguns aspectos em comum. Primeiro, referem-se aos benefícios decorrentes de determinados atos de corrupção, não da corrupção sistemática embutida em muitas ou na maioria das decisões. Em segundo lugar, os supostos benefícios dependem da hipótese de que a corrupção transgride uma orientação econômica errada ou ineficiente, supera as limitações de um sistema político imperfeito ou contorna as deficiências das regras organizacionais. Em suma, se o sistema vigente é ruim, então a corrupção pode ser benéfica. Nossa equação anterior entre o interesse do outorgante e o interesse público pode ser, infelizmente, demasiadamente otimista.

Segundo o já mencionado Leff assinalou, “a crítica da corrupção burocrática muitas vezes parece ter em vista uma situação em que o governo e a administração pública estão trabalhando ativa e inteligentemente para promover o desenvolvimento econômico, só para serem frustrados pelos esforços dos concussionários. Uma vez que se discuta a validade dessa interpretação, os efeitos da corrupção também têm ser reavaliados. Tal é o caso quando o governo consiste em uma elite tradicional indiferente, senão hostil, ao desenvolvimento, ou em um grupo revolucionário de intelectuais e políticos primordialmente interessados em seus próprios objetivos.

Nas palavras do cientista político Samuel Huntington: "Em função do crescimento econômico, a única coisa pior que uma sociedade com uma burocracia rígida, ultracentralizada e desonesta é aquela com uma burocracia rígida, ultracentralizada e honesta.

Evidentemente, as políticas e normas contornadas pela corrupção nem sempre são míopes e extraviadas. A interferência e os controles econômicos deplorados pelos economistas podem ser implementados por motivos de eficiência econômica. Os governos com frequência (embora nem sempre) intervêm na economia exatamente em circunstâncias em que os mercados não são confiáveis para distribuir bens e serviços devido a exterioridades, indivisibilidades, bens coletivos e outras falhas do mercado.

Em casos assim, a corrupção talvez simplesmente reintroduza as deficiências do mercado, prejudicando a economia. Conclusão análoga aplica-se à transgressão corrupta de mecanismos políticos ou normas organizacionais aceitas. O resultado pode ser nocivo à estabilidade e à integração políticas, bem como à eficiência da organização.

A corrupção pode ajudar por um lado e prejudicar por outros. Contornar regras públicas por meio da corrupção, por exemplo, pode conduzir a um tipo de eficiência econômica, mas à custa dos outros objetivos visados pelas regras em primeiro lugar. Afirmações genéricas sobre a utilidade ou nocividade da "corrupção" não ajudam a avaliar os efeitos de casos particulares com os quais se possa deparar. Por outro lado, dado o predomínio, na cúpula política do Brasil, de apologistas da corrupção, talvez seja melhor assumir que o país é um cleptocracia empedernida. Ou uma pulhocracia desvairada.

(*) https://goo.gl/M9NrMd


Luca Maribondo

Campo Grande | MS | Brasil

domingo, 14 de maio de 2017

Amarelando

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De acordo com nota da sua assessoria de Imprensa, “o prefeito de Campo Grande, Marquinhos Trad (PSD), lançou na manhã de quinta-feira (4/5/17) o Movimento Maio Amarelo (...) realizado em nível (sic) mundial há seis anos, em cumprimento a uma resolução da Assembleia-Geral das Nações Unidas, editada em março de 2010, que definiu o período de 2011 a 2020 como a “Década de Ações para a Segurança no Trânsito”. Segundo “a administração municipal, o Brasil aparece em quinto lugar entre os países recordistas em mortes no trânsito mortes por acidente no trânsito”.



Pro doutor Trad, o problema no trânsito na cidade (e no Estado) é culpa da falta de educação dos atores da circulação urbana, motoristas principalmente, mais pedestres, motoqueiros, usuários de ônibus etc. Diz ele —e seus assessores concordam em número e grau— “que a maioria dos acidentes é causada por pessoas que saem bêbadas, em alta velocidade, fazendo manobras arriscadas”.


Claro que ele prefere ignorar a parte que cabe às autoridades e às instituições na esculhambação no trânsito da cidade. O poder público tem uma gorda cota de participação nas falhas no sistema de circulação de Campo Grande, a Capital do Estado, falhas essas que vão do planejamento à manutenção das vias públicas, passando por sinalização, construção, educação, fiscalização etc. etc. e tal. Há uma grande insatisfação da população desta Morenópolis com a insegurança no trânsito da cidade e as autoridades, demonstrando ineficiência e ineficácia no exercício da própria função, jogam toda a culpa no cidadão e fogem da sua responsabilidade como gestores do trânsito das cidades sul-mato-grossenses.

A sensação de impotência está explícita na face dos governantes. O poder público, cada vez mais inerte, se pronuncia de maneira confusa e pouco eficaz. A violência atinge patamares assustadores e os acidentes graves já estão incorporados à rotina dos brasileiros, seja nos grandes centros urbanos ou nas pequenas localidades do país —e Campo Grande não está entre as exceções. Colisões, abalroamentos, atropelamentos viraram fatos corriqueiros no dia-a-dia da população.

Não há qualquer justificativa para acidentes que tiram de forma tão absurda a vida das pessoas, principalmente sabendo-se que todos eles podem ser evitados na medida em que o condutor dirija com responsabilidade e respeito a outras pessoas. Os números chocam, impressionam e doem. As causas dos “acidentes” normalmente têm sempre um vilão para as autoridades —seja ela de trânsito ou policial: o condutor. É sempre ele que dirige alcoolizado, que tenta uma ultrapassagem em local não permitido ou dorme ao volante. As mortes poderiam ser evitadas se os condutores dirigissem com responsabilidade e respeito a outras pessoas. Mas as explicações não podem parar por aí. Não mesmo. As pessoas morrem nas ruas, avenidas, rodovias e estradas deste país por uma série de fatores. E o mais grave deles é a omissão estatal —com certeza à autoridade cabe mais culpa que ao motorista e motoqueiro. Se o motorista bebe e dirige, é também porque falta fiscalização para punir com rigor.

Quando se divulga que uma ultrapassagem proibida provocou uma tragédia, nenhum especialista vai checar se a sinalização no local era boa ou se havia um buraco na pista. Quando um caminhoneiro dorme ao volante, ninguém quer saber quantas horas ininterruptas ele trabalhava nem as condições de saúde. Nessas horas, uma das desculpas mais comuns das autoridades é que os órgãos de fiscalização não dão conta de tantas atribuições. Só que a situação precisa mudar. Por que não se toma uma iniciativa realmente séria e abrangente para conter a grande epidemia que causa tantas mortes no trânsito?

As medidas devem ir além das campanhas de conscientização. É preciso muito mais do que difundir o “se beber, não dirija”. É necessário reunir as autoridades pra preparar uma estratégia única para conter as tragédias nas vias. Fazer um levantamento completo dos problemas enfrentados, melhorar as vias públicas e adotar uma fiscalização única e eficaz.

Pode não render votos, mas evita tragédias diárias. Chegou o momento de estabelecer uma política séria de combate à violência no trânsito. Ou melhor, de firmar um pacto pela vida. E isso tem de começar com as autoridades parando de dizer platitudes como as que colocam todos os erros do trânsito na culpa dos motoristas.

A autoridade tem uma grande parcela de culpa pelo que acontece de errado no trânsito. É claro que se cada motorista exercitasse os valores da cidadania, da paciência, da solidariedade, da gentileza e da responsabilidade, o trânsito seria muito mais civilizado. Mas a mídia só cobra do cidadão; nunca exige do poder público, embora haja tantos erros no trânsito da exclusiva responsabilidade da autoridade.

Um dos grandes erros da Natureza —ou do Todo–Poderoso, sabe-se lá!— é não ter feito a incompetência doer. Já imaginou o gentil leitor se a incompetência doesse, por exemplo, nas autoridades do trânsito? Elas têm uma enorme aptidão para vigiar, fiscalizar, multar, aterrorizar o cidadão, cobrar impostos escorchantes, mas nenhuma para fazer o que lhes compete de fato.

Um exemplo: por que existem computadores, câmeras-robôs, radares, sonares, câmeras nos ônibus (o serviço de transporte é uma porcaria, mas o usuário está sempre estrelando os filminhos dos ônibus), lombadas eletrônicas, fotossensores e outros badulaques eletroeletrônicos para achacar o motorista, se as autoridades não são capazes de fazer a parte que lhes cabe na administração do trânsito?

Mas o trânsito continua mal administrado como sempre —e somos nós, cidadãos, que levamos a culpa por tudo o que acontece de errado. Você, gentil leitor, já observou com que cuidado, com que refinamento, com que acabamento sofisticado —e a que custo, claro!— com que a autoridade (do trânsito e de outras áreas) exerce a sua inépcia, inaptidão e incompetência? Mas a culpa é sempre sua, nossa —e com o apoio dos veículos de comunicação.

Entretanto, os grandes problemas —exatamente aqueles da competência do Poder Público— do trânsito continuam sem solução. As vias públicas continuam mal projetadas, com manutenção precária, mal sinalizadas e mal fiscalizadas; as autoescolas continuam ensinando mal a quem passa por suas salas de aula e veículos de treinamento; as autoridades continuam não cumprindo as leis, mas exigindo que o cidadão as cumpra rigorosamente, e multando pesadamente quando isso não acontece. Mas nós, cidadãos, não temos como multar as autoridades.

Quase todos os dias a mídia veicula alentadas reportagem sobre as vias de trânsito mais intenso de Campo Grande. São ruas e avenidas perigosas pra danar, extremamente estressantes para quem nelas circula. E os responsáveis pela reportagem não perdoam: a culpa pela esculhambação é dos atores do trânsito. Temos sim nossa parcela de culpa. Mas e as autoridades que não mexem no planejamento, nas dimensões, na construção, na manutenção e na sinalização das vias públicas? E nunca são multadas por isso.

Aliás, seria ótimo se isso fosse possível, é ou não é? Se toda vez que um servidor público pisasse no tomate, a gente pudesse tascar-lhe uma pesadíssima multa, seria uma delícia —pois, mais cedo ou mais tarde, todo governante, todo político, acaba correspondendo àqueles que não confiam nele. Se a gente pudesse realmente punir as autoridades que dão mancada, o poder público seria muito mais confiável e eficaz. Teríamos menos mortes. E nós, cidadãos, seríamos mais felizes.

Bom que as autoridades pensem num mês preferencial pra recrudescer a guerra contra as falhas do trânsito. Mas porque um mês amarelo? Afinal amarelar significa, entre outras coisas, perder a coragem diante de situação difícil, perigosa, embaraçosa, isto é, acovardar-se. Talvez porque a autoridade aja sempre covardemente com relação ao sistema de circulação de pessoas e veículos.

Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.brCampo Grande | MS | Brasil


terça-feira, 25 de abril de 2017

O saque livre


Astúrio Monteiro de Lima*
Já no fim do século passado, o coronel João Ferreira Mascarenhas, mato-grossense-do-sul, sagrara-se como legítimo chefe regional dominando largamente a política sulina. Era um homem aparentemente calmo, atraente, cavalheiro e valoroso.
Cultivava, com elevado estilo, os sentimentos humanitários, por igual a pobres e ricos, gozando por isso mesmo da estima geral.
Até entre os seus adversários era considerado como uma pessoa digna de respeito, admiração e apreço.
Sendo um político leal, admitia que os chefes mais altos da política estadual se conduzissem com a mesma virtude que o inspirava.
Homem de boa-fé, custou a compreender que por várias vezes se enganara. Despercebidamente, servia de instrumento inadvertido da política premeditada de alguns políticos do Norte do Estado.
De tantos dissabores, amarguras e repetidas desilusões, passou a admitir a idéia da separação. Em consequência disso, começou a receber hostilidades: a princípio veladas, mas depois ostensivas, articuladas e muitas vezes até mesmo pelos chefes aos quais havia servido com dedicação.
Outros chefes regionais foram sendo criados e amparados pelos que dirigiam a política estadual, evidentemente, com a intenção malévola de destruir o incontestável prestígio do Cel. Mascarenhas.
Surgiram assim, entre os políticos do Sul, sérios desacordos muito bem articulados e premeditados pelos chefes do Norte.
Acossado por fatores vários e manobras adversas, o Cel. Jango Mascarenhas decidiu-se pela reação armada, como única solução para a sua sobrevivência política.
Não logrou alcançar o objetivo que colimava, sendo vencido pelas armas, o que o obrigou a emigrar para Assunción, capital do Paraguai.
Desamparado por todos os lados, seus amigos perseguidos e seus bens arrasados, aguardava, melancolicamente na capital paraguaia, uma vaza para intervir novamente nos acontecimentos de Mato Grosso.
Em Assunción manteve um pequeno jornal enquanto dispunha de algum recurso, cuja finalidade precípua era dar curso continuado às suas idéias e manter viva a chama idealista entre os seus companheiros.
Enquanto isto se passava, o governo tratava de consolidar a posição conquistada no Sul com a derrota e emigração de Jango Mascarenhas. Não teve, para tal, meias medidas: foi ao ápice das mistificações e engodos.
Tudo seria utilizado para atrair os homens remanescentes de João Ferreira Mascarenhas: requerimentos de terras em tramitação especial, nomeações de autoridades, convites para visitar a capital e dinheiro.
Todos os meios seriam lícitos e admissíveis. O que se tornava necessário, imprescindível mesmo, era o desmoronamento integral do poderio político de Jango Mascarenhas.
A terrível e constante opressão governamental fez com que Mascarenhas distorcesse suas primeiras intenções honestas e sinceras.
Quase inenarrável era a opressão governista contra os companheiros de Mascarenhas, anteriormente e longo tempo após a revolução.
Meu pai guardava carinhosamente um exemplar do antigo jornal que, em língua portuguesa, se editava no estrangeiro.
No referido exemplar, havia um artigo com um título por d mais sugestivo: "Dandá p'ra ganhar vintém..." que criticava, acerbamente, os governistas por se haverem atirado a outra tática pouco recomendável e infame: a do dinheiro —a pano solto— sem o mínimo pudor político.
O artigo, bem trabalhado e espirituoso, causou enorme sucesso na época, pois era lido até pelos ferrenhos adversários com grande hilariedade.
Muitos sofreram com a "ferrotoada" agudíssima...
Mas a verdade é que pouco a pouco o Cel. Jango Mascarenhas, desprovido já de recursos monetários, ficou cercado unicamente de meia dúzia de companheiros que se conservavam fiéis ao chefe impoluto e valoroso.
Desesperado, pobre, traído, profundamente desencantado com a maioria dos companheiros de armas e ideal revolucionário, resolveu dar outro rumo a sua conduta, atirando-se a uma posição puramente pessoal, sem mais medir consequências.
Dia e noite, então, num quase delírio, se pôs a aliciar elementos estrangeiros para uma invasão a Mato Grosso.
Dirigindo-se a Missiones (argentina e paraguaia), passou a arregimentar mercenários vindos dos dois lados.
Não dispondo mais de recursos, antes de passar a linha divisória, onde tinha um depósito de armamento, declarou aos seus comandados dentro daquela franqueza que lhe era tão peculiar:
— "Não poderei pagar-lhes os serviços que me vão prestar, mas vocês ficam autorizados a praticar o "saque livre" nos lugares que cruzarmos daqui para a frente."
Abramos aqui um parênteses nesta singela narrativa histórica, para que se esclareça o seguinte: muito do que há neste capítulo, foi-me relatado pelo ajudante de ordens do Cel. João Ferreira Mascarenhas, nessa revolução.
Este lúcido informante, que depois de velho, pobre e doente, parou alguns meses em minha fazenda, chamava-se Rufo Silvano da Silva, que se aliara à causa do coronel Mascarenhas e era nada mais nada menos, que o avô materno do Sr. Jânio da Silva Quadros, nosso ex-presidente.
Transposta a fronteira, começaram as depredações de toda ordem: incendiaram fazendas, saquearam casas, desatendiam famílias, tiroteavam fugitivos, intimidavam gente, enfim, praticavam todos os atos capazes de gerar o pânico na população.
Dessa feita, pelo que sei, o Cel. Mascarenhas colocou-se dentro de normas especiais criadas por ele, tendo feito o seguinte pronunciamento:
— "Serão meus companheiros os que me seguirem. Nada de companheiro para ficar em casa dormindo sobre bom travesseiro e comendo galinha com arroz. Temos que dormir na macega, travesseiro de serigote, comendo carne assada no espeto."
Assim contou-me o velho Rufo.
Esta maneira de conduzir a sua invasão, fê-lo perder mais companheiros brasileiros, e assim, desprovido de outras forças, com as quais lhe fosse possível distrair o inimigo que se organizou logo, restava, unicamente a seu favor, apenas a mobilidade da sua coluna.
Valeu-se desta estratégia. Entretanto, houve tempo suficiente para a conjunção das forças contrárias, que puderam fixá-lo numa área pequena, obrigando-o a aceitar o combate em lugar de sua escolha, a qual recaiu nas proximidades da fazenda "Esperança".
Colocou aí sua força em linha, entre dois capões fronteiros, tendo os flancos amparados pelos matos que guarneceu convenientemente.
Atacado por forças muito superiores, resistiu tanto quanto pôde. Por fim, esgotou-se-lhe a munição. Os seus homens, impotentes para dar continuidade à resistência, foram-se rendendo ao inimigo, que havendo desmantelado o centro da linha de Mascarenhas, passou a fazer sucessivas cargas de lança, com o que veio a sacrificar inúmeros homens do Cel. Jango Mascarenhas.
Vendo tudo perdido, Mascarenhas retirou-se com o seu ajudante de ordens e mais dois oficiais, porém sempre combatendo, até que, tomando posição conveniente, porém sempre combatendo, até que, tomando posição conveniente, autorizou aos seus comandados que se escapassem como lhes fosse permitido.
Ilustração: Otávio

Como um autêntico bravo, o Cel. Jango Mascarenhas continuou lutando.
Foi encurralado.
Vinte homens endoidecidos perseguiam-no desapiedadamente.
Matou um deles no entrevero, feriu gravemente mais dois.
Foi vítima de nova carga, quase um corpo a corpo. Não recuou. Era um gigante na porfia desigual.
Recebeu um balaço na cabeça. Caiu para um lado, para morrer minutos depois ante o respeito de todos.
Jango Mascarenhas, com todos os erros que cometeu, não deixa de ser um grande vulto da tradição libertária de nossa gente.
Foi bem, podemos afirmar, um bravo acima de tudo, másculo e gigante até na hora da morte.
Ao assumir a responsabilidade que lhe cabia, em verdade, nos erros que permitiu se praticassem em detrimento do seu passado de homem probo, nobre e cavalheiresco, levou mesmo assim o seu nome à posteridade, ficando no coração de todos como um exemplo dignificante.
*Este causo foi extraído (tal como está no original) do livro “Mato Grosso de outros tempos — Pioneiros e heróis”, de Astúrio Monteiro de Lima

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