domingo, 19 de fevereiro de 2017

Compre um tanque de guerra


Ou como enfrentar um morenopolitano no trânsito
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Ficha técnica do carro ou automóvel (automobilis meckanikos): quadrirroda da família dos veículos automotores que vive na cidade e no campo, em ruas, avenidas, estradas, rodovias, trilhas etc., que se alimenta de gasolina, água, óleo, ar comprimido e, eventualmente, de alguns seres humanos desavisados. Tem hábitos gregários e habitualmente vive em vias e caminhos, garagens, parking lots e outros habitats cobertos ou não. Alguns, chamados de anfíbios, andam até sobre a água.
Ser muito vigoroso, tem força equivalente à de vários cavalos. Também é muito veloz: corre demais e, quando mal conduzido em alta velocidade pode perder o controle e atacar motocicletas, outros automóveis, postes, árvores, homens, mulheres e até crianças. É muito fácil de ser conduzido, tanto que até macacos os pilotam. Mas, em geral, os seres humanos têm muita dificuldade em guia-los, mesmo os menores, como o Renault Twizy, um dos menores automóveis do mundo.
Campo Grande, urbe dominada pelos morenopolitanos (homus morenopolitanus), é uma cidade muito perigosa por conta disso: seus habitantes têm uma enorme dificuldade para conduzir seus carros. A impressão que da é de que todos (ou a maioria) sofrem de ataxia, moléstia que indica a falta de coordenação muscular durante os movimentos voluntários, tais como caminhar ou pegar objetos, fazer carícias, jogar porrinha e outras atividades menores. Sinal de uma condição subjacente, ataxia pode afetar os movimentos do paciente, sua voz, seus movimentos oculares, sua capacidade de engolir e até de fazer sexo ou praticar o onanismo.
Para a maioria dos motoristas campo-grandenses parece ser algo extremamente complexo para seus cérebros lentos pilotar um automóvel. Esses condutores parecem não ter a menor noção de como cuidar e conduzir um carro. Quem dirige pelas ruas da cidade logo pode notar carros das mais diversas marcas e tamanhos com lanternas e faróis estragados, expelir fumaça em excesso, conversões sem sinalização, pneus descalibrados e carecas, rodas tortas, descargas ruidosas y mil otras cositas más.
Na condução, a coisa é péssima: primeira e bem pior, o condutor é incapaz de ler a sinalização de tráfego, inclusive dos semáforos, que consiste apenas em acender e apagar luzes coloridas; entrar a esquerda em vias de mão dupla, estacionar; utilizar espelhos retrovisores; acionar os pedais do veículo, dar ré, escolher a melhor faixa de tráfego pra colocar seu carro, usar sinalização sonora, também conhecida por buzina ou cláxon, trocar pneus, sinalização com as mãos, acender luzes nos momentos de baixa luminosidade, manter a faixa na hora da conversão, compreender as rotatórias, etc. etc. e tal.
A cada dia que passa, os veículos automotores são cada vez mais usados pelos seres humanos. O carro é cada vez mais precedente: alguns automóveis modernos, por exemplo, se autoconduzem —isto é, não necessitam de um motorista para conduzí-los. E ficam cada vez mais auto-suficientes. O carro, por exemplo, carrega seu próprio filtro; já o homem não pode correr e beber água filtrada simultaneamente —aliás, o carro quando sai leva, além do filtro, as velas, escova, pistão, luva, ventilador, mala, descarga, fluídos diversos e até mudança. E o homem? Carrega no máximo um saquinho de supermercado ou uma pasta de documentos.
Mas se são um dos objetos favoritos dos seres humanos, como foi dito lá em cima, os automóveis são máquinas extremamente perigosas, notadamente quando estão sob o controle dos campo-grandenses. E enfrentar um morenopolitano ao volante é uma ação muito complexa e complicada, até porque os condutores de automóveis e outros veículos pensam que estão sempre certos, com toda a razão. Parafraseando o ex-presidente Lula da Silva, o motorista campo-grandense parece estar sempre dizendo: "duvido que alguém neste país dirija um carro melhor do eu".

Se você é um desses poucos motoristas que dirigem bem na cidade, tem uma solução muito prática e eficaz pra enfrentar o abominável, deplorável, execrável e repulsivo condutor morenopolitano: adote a direção defensiva e compre um tanque de guerra. Mas dirija com cuidado e não beba antes de dirigir.

Luca Maribondo
campo Grande |MS | Brasil

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Fanático confesso


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Nunca discuta com um fanático, até porque eles não são de compreender e aprofundar os argumentos de uma discussão. Pior, os fanáticos não compreendem que em qualquer altercação há outras alternativas. Despropositado, o fanatismo impede o indivíduo de ser racional. Os fanáticos agem instintivamente, são cegos e não percebem a realidade. Não aceitam o contraditório, e diante do conflito reagem com estupidez quando são confrontados. O fanático adora os seres que consideram superiores, sejam guias, líderes, mistagogos, condutores, mentores, mestres, deuses. Por isso, é quase impossível encontrar um fanático confesso —fanáticos nunca admitem seu próprio fanatismo. O fanático é o palhaço da política...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O pior dos cenários

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Em resumo, a rebelião encetada pelas polícias militar e civil do Estado do Espírito Santo configura uma grande ameaça à paz social e política do país. Vai que a ideia pega. O efeito cascata atingiria outras unidades da Federação. O caos social se instalaria rapidamente, ameaçando inclusive ampliar-se em conflagração armada, isto é, guerra civil. E seria muito complexa e estapafúrdia a tarefa de administrar uma grave e generalizada conturbação social e política. As Forças Armadas não têm preparo para enfrentar um conflito com tal dimensão. E as Forças Nacionais de Segurança funcionam apenas como um paliativo. Nessa hora ruim de Pindorama, uma conflagração geral seria o pior dos cenários.


Uma análise mais acurada demonstra que não foi por acaso que o motim aconteceu no Espírito Santo. A situação demonstra ser uma estratégia elaborada por especialistas: uma conflagração num Estado pequeno, que não se destaca pela violência, muito próximo de Estados mais poderosos, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, São Paulo. Não é o momento de profecias catastróficas, mas há que se pensar na provável ocorrência de fatos mais graves e ampliados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"Sou preta, mas linda..."

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A irreverência sempre foi marca registrada do Carnaval, notadamente do Carnaval carioca. Por isso, soa um tanto insólito o bloco dos que defendem a exclusão de canções como “Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão", “O Teu Cabelo Não Nega", “Índio Quer Apito", “Mulata Bossa Nova", sob o argumento de que são ofensivas e perpetuam preconceitos. A ala dos politicamente corretos quer banir também algumas fantasias, como as de índio, baiana e nega maluca, consideradas desrespeitosas. Sobrou até para a purpurina, acusada de provocar danos ao meio ambiente —agora, recomenda-se um tipo de brilho comestível, usado na decoração de bolos e doces.
Autor de “Cabeleira do Zezé", “Maria Sapatão" e “Mulata Bossa Nova", João Roberto Kelly critica a patrulha e está surpreso com o alvoroço criado em torno dessas cantadas desde que foram criadas: “Na minha opinião, a mulata é o tipo mais representativo da mulher brasileira. Essa polêmica não combina com carnaval". De fato, o carnaval, desde sua origem nas festas pagãs da Antiguidade, sempre teve espírito libertário, com excessos, transgressões e inversão de papéis. Isso se mantém até hoje, guardadas as regras de convivência em sociedade. Marchinhas com frases de duplo sentido ou politicamente incorretas são uma característica da folia. Importar idiossincrasias de outros países pode acabar avacalhando traços importantes da cultura tupiniquim. Daqui a pouco vão querer anular até o Aleijadinho, um dos mais importantes artistas da História do Brasil.
Essa verve transgressora fica patente não só nas letras das marchinhas, mas nos próprios nomes dos blocos: Calcinha Molhada, Suvaco do Cristo, Perereka sem Dono; Balança Meu Catete, Pinto Sarado e outros que são apenas alguns da lista de mais de 400 grupos que irão desfilar em 17. O jeito irreverente está presente ainda nas fantasias. Por isso, não faz sentido querer banir da folia figurinos de baiana, nega maluca e índio, três tradições da folia. O que seria da Cacique de Ramos sem seus índios? E o desfile da Beija-Flor, que este ano terá “Iracema" como enredo?
"O que há num nome?", pergunta Shakespeare em "Romeu e Julieta". Muita coisa, segundo os adeptos do politicamente correto, cujo vocabulário é cada vez mais imposto ao cidadão comum. É um comportamento que supostamente não fere os sentimentos de pessoas pertencentes a grupos marginalizados ou desavantajados. Surgiu nos Estados Unidos, nação teoricamente de longa tradição de defesa dos direitos humanos e, paradoxalmente, com uma longa história de preconceitos: nos EUA floresceram a Ku Klux Kan, a Wasp (Branco, Anglo-Saxão e Protestante na sigla em inglês) e muitas outras organizações voltadas para a promoção do preconceito e da discriminação.
À medida, porém, que os grupos politicamente corretos fizeram valer seus conceitos, o vocabulário teve de mudar. Muita coisa, diga-se, melhorou. Entretanto, como sói acontecer nestes casos, o pêndulo oscilou para o lado oposto, e o que era uma sadia reação ao preconceito tornou-se caricatural. Muitas universidades até publicaram manuais ensinando não apenas como falar sem ferir suscetibilidades, mas também como agir em situações potencialmente perigosas.
Em um ótimo artigo exatamente sobre esse tema, publicado pela revista Época sob o título "Réquiem para Maria Sapatão", o jornalista Guilherme Fiuza conclui que "o bom dessa revolução (do politicamente correto) é que ela é prática —você declara conceitos de 1,99 Real e triunfa. Sendo progressista, portanto uma pessoa boa, portanto a favor dos fracos, portanto guardião do que é nosso, você pode roubar a Petrobrás sem deixar de ser do bem. Sendo contra o Cunha (lembra-se dele?), você pode virar herói da resistência democrática contra o golpe —e se sua posição favorecer a narrativa da quadrilha, ninguém vai nem notar".
Em resumo, o politicamente correto implica uma questão moral e ética e está circunscrito a um determinado contexto histórico —isto é, o que era politicamente correto ontem, pode não o ser nos dias de hoje. Em muitos casos, é a expressão da revolta de segmentos sociais e políticos marginalizados e/ou segregados em busca do respeito merecem; traduz séculos de humilhação, opressão, sutil ou brutal, quando não sanguinária. Que se revista de exagero é apenas compreensível. No futuro, o vocabulário politicamente correto deverá ser olhado como o testemunho, curioso talvez, de um momento de rebelião contra o status quo.
Politicamente correto é uma expressão que foi apropriada pelas elites burguesas e que pretendia renovar a filosofia ética com o objetivo de balizar as relações sociais e políticas. Pessoalmente, penso que não existe gente que adote o politicamente correto que não seja estúpida, exceto quem tem a idade mental um guri de oito anos. Seria possível transformar tudo em politicamente correto? “Sou uma moça preta, mas linda, ó filhas de Jerusalém (...)" —esta frase está no cântico de Salomão (livro da Bíblia cristã). A leitura que se faz é de que ser bela é privilégio de mulheres brancas e a beleza numa mulher negra é uma exceção, né, não? Para os politicamente corretos o ideal seria expurgar a frase do texto bíblico.

Luca Maribondo

Campo Grande | MS | Brasil

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A gente se entende

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Reconto aqui uma antiga fábula, que li não sei onde —ou me contaram— há muito, muito tempo. Como a escrevo de memória, não sei se é exatamente assim, mas aí vai.

Trajando uma magnífica roupa de caçador, um homem caçava na mata. Estava metido na mais negra e escura floresta, e caçava. Mas não procurava uma caça qualquer, não. Procurava uma determinada, uma especial, capaz de proporcionar-lhe aquela pele peluda que aquecesse suas longas noites hibernais.

E procurava, e procurava. Procura que procura, eis que, senão quando, numa clareira, depara nada mais nada menos que com um urso dos maiores. Os dois —o caçador e sua caça— se defrontam diante de uma gruta. O caça­dor aterrorizado pelo primitivismo e selvageria do animal. O animal apavorado pela crueldade e civilização —na for­ma da arma e dos projéteis— do caçador. Faminto, foi o urso quem falou primeiro:

— O que é que você está procurando?

— Eu?! —perguntou o caçador— Estou em busca de uma boa pele com a qual possa abrigar-me e aquecer-me no inverno. E você?

— Eu —disse o urso— procuro algo pro jantar, até porque há três dias que não como.

E os dois se puseram a pensar. Ficaram ambos um longo tempo meditando à porta da gruta e foi de novo o urso quem falou primeiro:

— Olha, caçador, vamos entrar na caverna e conversar lá dentro, que é melhor.

Entraram. E, em meia hora, o urso tinha o seu jantar e, conseqüentemente, o caçador estava devidamente abrigado em seu capote.

Como a maioria das fábula, esta também tem lá a sua moral: é conversando que a gente se entende.

Me lembrei desta fábula a propósito dos primeiros trinta dias (em 31/1/17) da administração do prefeito Marquinhos Trad. O distinto público talvez ainda não saiba, mas o novo prefeito foi avaliado assim por um jornal digital local: "a população de Campo Grande avalia como bom o primeiro mês da gestão do prefeito de Campo Grande, Marcos Marcello Trad. Enquete realizada pelo Top Mídia News com a pergunta 'Como você avalia os primeiros 30 dias de Marquinhos Trad como prefeito de Campo Grande?' apontou que 28,05% dos leitores consideraram como ‘bom’ o início da nova administração. Para 24,39% dos votantes classificaram como regular. 23,17% consideraram como péssimo. Na quarta posição, 18,29% consideraram a gestão de Marquinhos como ótimo e 6,10% como ruim". Quer dizer, nem 1/3 da população aprecia

Em 1933, quando Franklin Roosevelt assumiu a presidência dos Estados Unidos, surgiu a mística dos 100 primeiros dias de governo como período emblemático para que a população conheça a cara da nova administração ungida pelas urnas. Naquela época a nação que estava prestes a se tornar a maior potência mundial vivia os efeitos da quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929. Foi nesse período que o líder norte-americano criou as bases que reergueram a economia através da política do “New Deal”.

No Brasil esse período mágico de pouco mais de três meses é apontado como o momento em que a oposição e os desafetos dão uma trégua sem fazer cobranças mais duras e colaborando sem grandes exigências nas disputas e análises. De maneira geral, a mídia também torna-se mais benevolente e leniente nas críticas. Todos comentam erros e acertos, mas evitam pegar mais pesado com o gestor recém empossado.


Trad recebeu o que se pode chamar de herança maldita e tenta convencer a todos de que tem o poder e a força pra consertar os erros dos seus antecessores mais recentes. Um mês não é tempo suficiente pra se avaliar uma novel gestão municipal. Assim, fala-se muito e age-se pouco. Mas, como se sabe, é conversando que a classe política se entende, ainda que, volta e meia, a conversa leve um a tentar engolir o outro. Assim, é bom na política esperar-se os primeiros cem dias —depois, deixa o pau comer: sempre tem um político tentando fazer o outro calar a boca. Muitas vezes não é conversando que se entende.