sábado, 22 de abril de 2017

Mais uma página virada

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Comemora-se neste sábado, 22 de abril, o 517º aniversário da chegada do comandante militar Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Creditado como descobridor de Pindorama, Cabral foi um fidalgo, navegador e explorador português. Mas a chegada de portugueses pela primeira vez ao Brasil deu-se com Duarte Pacheco Pereira em 1498. Isso, claro, não significa que Pereira tenha sido o real descobridor do Brasil, mas que chegou por estas terras antes do almirante Cabral.
De fato, o que aconteceu foi que, naquele ano do século XV, D. Manuel I, que era então o monarca de Portugal, encarregou Duarte Pereira de uma expedição secreta —de espionagem, dizem—, organizada com o objetivo de reconhecer as zonas situadas para além da linha de demarcação de Tordesilhas, originária do famoso tratado firmado entre castelhanos e lusitanos.
A expedição que, partindo do Arquipélago de Cabo Verde, se acredita teria culminado com o descobrimento (descoberta) do Brasil, em algum ponto da costa entre o Maranhão e o Pará, entre os meses de novembro e dezembro de 1498. Dali, teria seguindo pela costa norte daquelas terras, alcançando a foz do rio Amazonas e a ilha do Marajó.
O Tratado de Tordesilhas, firmado na povoação castelhana de Tordesilhas em 7 de junho de 1494, foi um acordo celebrado entre o Reino de Portugal e a Coroa de Castela para dividir as terras "descobertas e por descobrir" por ambas as coroas fora do continente europeu. Por proposição contida no tratado, foi criado o Meridiano de Tordesilhas e o acordo dizia que as terras a leste da tal linha imaginária pertenceriam a Portugal e as terras a oeste, à Espanha.
No que diz respeito ao tratado, entretanto, nenhum dos dois países o respeitou na íntegra. Portugal, com o decorrer do tempo, foi invadindo os espaços que se encontravam a oeste da linha imaginária que o acordo estabeleceu, ocupando terras que seriam de Espanha. Os espanhóis não deram muita bola, pois, já tinham muitos outros novos territórios nas Américas recentemente descobertas.
Isso acabou por dar forma gradativamente ao espaço brasileiro tal como é conhecido hoje. Mas, o atual território brasileiro, só ficou definido como o conhecemos hoje após a independência de Portugal, proclamada em 1822. Mas demonstra a preferência pela bandalheira pura e simples. E foi aí que a linha da ética foi transposta pela primeira vez em terras tupiniquins. Depois disso vieram o nepotismo (veja a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei dom Manuel), as sacanagens com os indígenas feitas pelos alienígenas lusos, a mentira da descoberta de Cabral etc. etc. e tal.
Depois de um gigantesco esforço pra apurar as origens das preferências do povo tupiniquim pela bandalheira, que os mais letrados já apuraram há muito, muito tempo, está definido que a corrupção está na índole da história do Brasil desde a sua pré-história. Durante a vigência do Tratado de Tordesilhas, portugueses e castelhanos já tratavam de traírem uns aos outros. Os mais letrados já sabiam disso, pois apuram essa história há longos, longos anos. Todos respiram preocupados, mas parece que não há solução para o problema. E a cada 22 de abril vira-se mais uma página da história tupiniquim.
Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.br
Campo Grande | MS | Brasil

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Roubemos todos

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Em definição simplificada, cleptocracia significa corrupção política e governamental na qual políticos, tecnoburocratas e seus comparsas protegidos exercem o poder para seus próprios benefícios materiais. Vem do grego "governado por ladrões". Na cleptocracia as decisões de Estado são tomadas com parcialidade total, contemplando unicamente os interesses pessoais dos detentores do poder político. Resumindo: grana pouca, minha algibeira primeiro.
Na cleptocracia, a riqueza é extraída (ou extorquida) da população (na soma da produção e dos tributos) e destinada a um grupo específico de políticos, servidores públicos e empresários detentores do poder. Muitas vezes são criados programas, leis e projetos sem nenhuma lógica ou viabilidade, que, no fundo, possuem a função essencial de beneficiar indivíduos —e suas maltas— ou simplesmente desviar recursos públicos para os bolsos dos políticos governantes.
Existe corrupção quando um indivíduo (ou súcia) coloca ilicitamente interesses pessoais acima das pessoas e ideais a que está comprometido a servir. Esta corrupção surge sob múltiplas formas e pode variar de trivial a monumental. Pode incluir o abuso de instrumentos de políticas públicas —tarifas e crédito, sistemas hídricos contra a seca e programas de habitação, o cumprimento das leis e normas atinentes à segurança pública, cumprimento dos contratos e o pagamento dos empréstimos, licitações de obras— ou procedimentos simples.
Pode ocorrer no setor privado ou no setor público —e é muito comum ocorrer simultaneamente em ambos. Pode ser rara (o que pouco acontece no Brasil) ou disseminada. E em alguns países em desenvolvimento, a corrupção tornou-se sistêmica, como é o caso do Brasil, que se tornou, de fato, como já foi dito, uma cleptocracia
Tem mais: a corrupção pode envolver promessas e ameaças —ou ambas; pode ser iniciada por um servidor público ou por um cliente interessado; pode acarretar atos de omissão ou comissão; pode envolver serviços ilícitos ou lícitos; pode ocorrer dentro ou fora da organização pública. Os limites da corrupção são difíceis de definir e dependem das leis e costumes locais. A primeira tarefa da análise e investigação de políticas públicas é desagregar os tipos de comportamento corruptos e ilícitos. Entretanto, isso parece quase impossível no país
Recessão econômica e desintegração dos direitos civis e políticos são as principais conseqüências desse modelo de Estado corrupto. Em tese, todos os governos tendem a se tornar cleptocratas. Entretanto, isso pode —e deve—ser evitado através do combate real dos cidadãos a essa situação —a cleptocracia é eliminada por meio do capital social dos cidadãos em seu coletivo —só a sociedade unidade tem os meios (e as armas) para vencer a corrupção.
Que fazem os governantes do Brasil de todas as colorações ideológicas? Alianças fisiológicas (o chamado “toma-lá-dá-cá”), dando-se cargos a quem não comprova competência nem merecimento; eleição de gente inepta, desonesta e corrupta; licitações fraudadas; incompetência administrativa. Assim se rouba dos bolsos do povo. A rouba se torna tão extenso que acaba por se tornar um projeto de Estado. Não é por acaso que o Brasil é um país fracassado, dominado por gente desonesta com o beneplácito de um povo ignorante.
E o Brasil é uma cleptocracia? Verdadeiras, as delações recentemente divulgadas pelos investigadores da Operação Lava Jato demonstram que sim. O cinismo de todos os depoentes prova cabalmente que a nação há muito tempo vem sendo governada por meliantes de todos os jaezes, tanto do setor público como da iniciativa privada.
Em um contexto social especialmente desregrado —ainda que haja excesso de leis no país —a corrupção e a cleptocracia encontrem estímulos especialmente poderosos. Há excesso de terreno fértil para o malfeito. A pesca é melhor e maior quando as águas estão revoltas. Extorque-se mais do cidadão quando o ambiente de tolerância —e de necessidade— promove as condições para seu crescimento. A cultura brasileira favorece a corrupção, assim como a cleptocracia. A ambiguidade ética está presente tanto nas elites dominantes como na sociedade como um todo —o cidadão saudável que estaciona numa vaga de deficiente, e.g., é o mesmo que aceita a cleptocracia sem traumas. Reina o relativismo moral, até porque nada é inflexível —nem a ética.
Moral da história: o Brasil é, de fato, uma cleptocracia. Roubemos todos.

sábado, 1 de abril de 2017

Insinuação do imaginário

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Quando se é criança, aprende-se que “a mentira tem pernas curtas”. E a vida também ensina que emitir mentiras sucessivamente é o que permite o mínimo de equilíbrio social. A verdade é que a verdade é insuportável, insustentável e indigesta. Talvez seja por isso que existe um Dia da Mentira, celebrado em 1º de abril —o Dia da Mentira é o momento para se contar mentiras grotescas e outras mais críveis, além de criar as condições para a pregação de peças em parentes e amigos.
A origem do Dia da Mentira possivelmente está relacionada com as mudanças no calendário propostas no Concílio de Trento, em 1548, e implantadas pelo papa Gregório XIII em 1582. Nesse tempo, o rei francês Carlos IX ordenou que, a partir do ano de 1564, o Ano Novo fosse celebrado em 1º de janeiro, e não mais em 25 de março, o início da primavera no hemisfério norte, como era a tradição na maior parte da Europa.
Havia, porém, uma grande dificuldade na comunicação das ordens reais. Os meios de comunicação eram lentos e as informações demoravam pra chegar a todas as partes. A ordem régia só foi efetivamente cumprida em todo o reino francês em 1567. Isso explica o motivo que levava algumas pessoas a continuar comemorando o Ano Novo em 25 de março. Como algumas pessoas sabiam da mudança do dia da comemoração, passaram a zombar das demais, que estariam comemorando o Ano Novo em um dia falso. A partir daí, a prática foi difundindo-se, transformando o 1º de abril no Dia da Mentira.

Com menor força, o Dia da Mentira é comemorado até hoje em todo o planeta, notadamente no mundo ocidental. No Brasil, a data tem um sabor especial em virtude da política e dos homens que a exercem, ou seja, os políticos. Pode parecer um pensamento perigoso, até porque deve haver um raro político sério e sincero. E pra um político mentiroso ser eleito precisa do aval do cidadão eleitor. José Saramago já escreveu que “os políticos são a mentira, legitimada pela vontade do povo!”. Falou e disse.
Os mais puritanos argumentam que conhecer a verdade sempre trás mais chances de poder lidar com tudo da forma mais acertada. Ainda que não pareça, as pessoas são muito mais fortes do que aparentam. Assim, melhor optar por uma verdade que fere a uma mentira que afaga. E com relação aos políticos, pode-se ter a certeza de maneira mais prática, evidente e eficaz de destruir uma mentira na política é contar outra.
Ex-presidente da República, Lula da Silva já afirmou, em julho de 2014, que “o povo aprendeu a distinguir a verdade da mentira”, e continuou, enfatizando a ideia ao qualificar sua gestão como “uma revolução social com a ascensão social de mais de 40 milhões de pessoas”. Como se depreende da sua fala, Lula da Silva é ele mesmo um mentiroso contumaz, apesar de não ser o mais mentiroso dos políticos brasileiros —a lista é extremamente extensa pra publicar neste espaço.
Eu particularmente penso que não há mentira: há apenas a insinuação do imaginário. Por isso, me abstenho de comemorar o 1º de abril, o Dia da Mentira. Nesse dia, nunca prego mais peças e petas do que no meu cotidiano exotérico.

Bom dia da mentira pra você, leitor.


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domingo, 19 de março de 2017

O Exterminador de Buracos

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Não precisa pesquisar nenhum estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para chegar à conclusão de que uma das obras que mais crescem em nossos dias em Campo Grande são os buracos (também conhecidos como batocos, boçorocas, covas, depressões, escavações, grotas, sorocas, sorocabuçus —tem um bocado de sinônimos) nas ruas da cidade.
É quase inacreditável, mas em Morenópolis há um buraco a cada 23 metros de rua. Índice que continua em célere crescimento, apesar das promessas do prefeito morenopolitano de plantão Marquinhos Trad, levantando a suspeita de que no futuro haverá um território urbano dividido em apenas dois gêneros de espaços: os com buracos e os remendados (não há a perspectiva de haver territórios sem buracos).
Num passado não muito distante ainda era possível trafegar tranquilamente em qualquer rua, sem ter de praticar slalom (percurso sinuoso entre obstáculos, ou seja, zigue-zague). As ruas pertenciam ao cidadão. Agora pertencem aos fazedores,  consertadores e outros especialistas buracos. Hoje é impossível os condutores dos mais diversos tipos de veículos (motos, automóveis, caminhões, carrinhos de pipoca, bicicletas, velocípedes etc.) trafegarem pelas vias públicas sem ter de desviar-se ou cair nas covas que matam molas, amortecedores e outras partes dos semoventes.
Depois de anos de estudos, concluiu-se que o buraco —como centenas de outros tipos de mobiliário urbano(?)— também é uma conseqüência do progresso, embora alguns historiadores afirmem que o fenômeno seja mais antigo, tendo surgido quando o homem das cavernas teve de sepultar o primeiro parente morto. Em Campo Grande cai uma lágrima de chuva e faz logo um furo no chão. Passa um Corolla, uma Brasília amarela, a picape de um botinudo desabotinado —entra e salta, bate e alarga. E surge a primeira utilidade do buraco, que é o de sítio de despejo. E ali se podem despejar muitas águas: a suja, a de sabão, do banho do rebento, a das sobras das comidas e até, de outras sobras que são um tanto, digamos, escatológicas.
E cheira mal? E como cheira. É o cheiro da presença do pior dos seres criados pela natureza —ou por Javé, a partir da sua divina imperfeição. Os buracos se ampliam e aumentam de número. Agora já não é mais um buraco sozinho ou vazio —tem lama. Lama de todas as cores (que o buraco não é racista): tem a branca de areia, vermelha de barro tijolento e a escurinha, que é da mesma cor dos dejetos. Passarão os dias e será uma lagoa cheia de muitos outros viventes: baratas, moscas, mosquitos, limos, águas fétidas onde nadam pererecas e cobras d’água.
E cuidado! Não despeje sal na água dos buracos. Se fica salgada você pode ter no tal buraco bichos como baleia, arraia (até arraia miúda) e tubarão, entre outros. É um perigo para a criançada que toma banho e não sabe que pode morrer de morte comida. Tubarão é bicho que mata quando é peixe, e come tudo da gente se é pessoa. Mas, ao contrário do que se diz, a água do buraco não está ali só pra provocar doenças e quebrar carros —também educa. O buraco da rua é, verdadeiramente, uma escola do ócio e do lazer. Ali aprendem as crianças a arte de pescar, de navegar e de nadar. Ali aprendem os meninos a defender a sua propriedade, enxotando e vituperando os rivais. Conhecem a lei: no buraco das pescas só pesca o próprio dono do peixe.
É também óbvio que os buracos têm uma vigorosa vertente ideológica. São buracos democráticos —todos, sem qualquer discriminação, podem cair com seus veículos, enche-los de lixo ou destroncar os tornozelos. São para todos, o banho das crianças e as retretes dos adultos apertados. Ainda mais: fornecem água gratuita para quem quer lavar a roupa. Cheiram mal para toda a gente. Não escolhem nariz, nem posição social. Quem passa, cheira. Quem não cheira, é porque não passou. Dividem por todos as doenças típicas dos buracos, tais como zica, dengue, chicungunia e outras, que matam a todos sem discriminação. Só não podem matar político, porque político não usa as ruas esburacadas (portanto, não caem em buracos) e filho de político estuda fora.
Todos sabem que os buracos fazem parte do patrimônio da cidade. Patrimônios histórico e turístico —e econômicos, porque proporcionam trabalho e lucros pra, mecânicos, borracheiros, empreiteiros, furadores etc. Dizem até que o prefeito está pensando em criar a Secretaria do Planejamento, Perfuração e Conservação do Buraco (Seplaperconbu), exatamente pra administrar as vantagens de ter buracos nas ruas da cidade —e lembrando que, a cada vez que se tapa um buraco, perde-se uma história.
Porém, os motoristas de toda a cidade têm enorme ojeriza ao buraco. A resistência do condutor, do ponto-de-vista psicológico, é compreensível. Vive tão atolado em dívidas e impostos que ainda não se acostumou a ter que pagar para ter ruas esburacadas e perigosas. Teófila Putifunda, funcionária do Ministério do Trabalho, faz sua queixa: "caindo em no mínimo sete buracos todos os dias, o mínimo que se ganha são sustos, pneus desinflados, amortecedores destroçados etc. Quanto é que isso dá no fim do mês?" Uma fortuna, diz ela. Teófila conta que tinha um Corcel 77, mas na quarta prestação foi obrigada a vendê-lo a um ferro-velho. Não podia pagar os consertos do automóvel.
O problema, por conseguinte, também atinge as indústrias de automóveis, que procuram tomar suas providências para não reduzirem a produção e perderem as vendas. E em neste 2017 é muito provável que os carros já venham equipados com mini-usinas de asfalto, pás, enxadas, retroescavadeiras, rolos-compressores etc. Talvez não resolva o problema, mas vai fazer crescer a indústria e o comércio de maquinário rodoviário do município.
Quando candidato, ainda em 2016, o prefeito de plantão Marquinhos Trad prometeu exterminar todos os buracos da cidade em curtíssimo prazo. O doutor Trad seria o Exterminador de Buracos Monepolitano, o Janot das covas de ruas, becos e vielas. Trad bem que tenta, mas o serviço é tão malfeito que quando um buraco é fechado num dia, logo ressurge no dia seguinte. É como se os buracos sentissem saudades de seus lugares nas vias públicas e voltassem sempre. E com muitos irmãozinhos.

Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.br
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sexta-feira, 17 de março de 2017

Dia Nacional da Hipocrisia

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Em 2009 difundi um fato que repercutiu pouco na época, mas que é importante. Dono de ter "grandes idéias", o grande guia do povo brasileiro Lula da Silva sugeriu numa quinta-feira, 30 de abril daquele ano, a criação do Dia Nacional da Hipocrisia. Na hora em que ouvi (e vi) o presidente na televisão sugerindo um dia para os hipócritas, pensei em sandice. Depois, passadas algumas horas, lucubrei que o presidente pode até ter certa razão. Pela índole das coisas, sinto que estamos mesmo necessitados de homenagear a hipocrisia e seus agentes, os hipócritas —Lula da Silva à frente.

Na sua fala à tv, o presidente Da Silva chamou de hipocrisia as denúncias sobre o uso irregular da cota de passagens aéreas da Câmara pelos deputados federais. Para o presidente, não é crime o deputado usar a cota para levar a mulher, filhos, parentes, amigos e agregados, papagaios, cães e gatos para Brasília. "Existe uma hipocrisia —defendeu Da Silva— muito grande nessa história da Câmara. Sempre foi assim. Não vejo onde está o tamanho do crime em levar a mulher ou o sindicalista para Brasília". Nosso líder mente e banca o hipócrita ao levantar tal parvoíce.

Afinal, não é verdade que "sempre foi assim". Essa história de mordomias para parlamentares começou no final da década de 1950, quando, em 1960, o então presidente Juscelino Kubitschek inaugurou a atual capital brasileira, Brasília —para mantê-la viva no seu inicio, JK precisou "pagar" para que os congressistas e servidores públicos de todos os jaezes trocassem as maravilhas dos balneários do Rio de Janeiro pela rudeza dos sertões do Centro Oeste. Deu no que deu.

Lula da Silva minimizou esse tipo de denúncia. "Esse não é o mal do Brasil. Se o mal do Brasil fosse esse, o país não teria mal." Interessante, é que na hora ninguém riu... O nosso líder rebateu ainda as críticas ao aumento de gastos do governo com pessoal. Ele chamou essa crítica de hipocrisia e aí sim defendeu a criação do Dia Nacional da Hipocrisia.
Estatueta do Dia Nacional da Hipocrisia

Foi o dr. Sigmund Freud que argumentou que "existem infinitamente mais homens que aceitam a civilização como hipócritas do que homens verdadeiramente e realmente civilizados, e é lícito até perguntarmo-nos se um certo grau de hipocrisia não será necessário à manutenção e à conservação da civilização, dado o reduzido número de homens nos quais a tendência para a vida civilizada se tornou uma propriedade orgânica". Lula da Silva certamente é um desses que defendem um bocadinho de hipocrisia para a manutenção e a conservação da civilização". Que é que tem servidores públicos gastarem à toa o nosso dinheirinho, é ou não é?!

Por isso tudo y otras cositas más defendo que devemos mesmo criar o Dia Nacional da Hipocrisia —1º de abril seria uma ótima data. Conclamo o povo tupiniquim a escrever ao seu senador e/ou deputado e pedir a criação dessa efeméride nacional de suma importância. E sugiro que se crie um troféu pra homenagear grandes hipócritas de cada ano: uma estatueta do ex-presidente Lula da Silva nu segurando uma espada diante da genitália, como se fora um Oscar rechonchudo e hirsuto.

E não pense você, leitor, que eu esteja sendo desrespeitoso ou maldoso —ou ambas as coisas— com o nosso –ex-guia. Afinal, o homem que usou microfones e câmeras para invectivar os 300 picaretas da Câmara, agora os usa para escudar os absurdos gastos de parlamentares que custam, cada um, aos cidadãos brasileiros um total de mais de 150 mil reais por mês (veja informações a respeito no site Contas Abertas). Afinal, penso eu, a hipocrisia já é um progresso ético. Um viva ao Dia Nacional da Hipocrisia e ao ex-presidente Da Silva, seu criador.

Luca Maribondo
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quarta-feira, 15 de março de 2017

Bravo, senhor monstro

[Bastaram apenas duas semanas e o futebol perdoou Bruno Fernandes, jogador de futebol que assassinou a namorada Eliza Samudio —e foi condenado por seu ato. Apesar da condenação por assassinato, o cavalheiro em questão recebeu nove propostas de trabalho de inúmeros clubes de futebol brasileiro. Assinou contrato de dois anos com o Boa Esporte, da cidade de Varginha, no sul de Minas Gerais. Um jornalista logo depois perguntou: “você torceria por um criminoso?”
Num bar de Varginha que atende pelo singelo nome de “Pinga com Torresmo” o acordo foi firmado. Bruno foi tratado como celebridade em Varginha;  o Boa Esporte virou assunto no Brasil inteiro. Os e as fãs logo souberam do encontro e passaram a correm atrás da celebridade sanguinolenta.
Muita gente fala em reabilitação e defende o ex-flamenguista assassino Bruno, que sempre alegou inocência, mas nunca lamentou a morte de Elisa, nunca lamentou pela criança que ficou sem mãe, nem lamentou pelo sofrimento de sua família. Nem nunca pediu perdão. Bruno pensa participou de algo corriqueiro e que ficar preso não muda nada. A tradução é a seguinte: o crime compensa. E compensa com a conivência da justiça. Porque se a justiça fosse séria ele ficaria trancafiado durante 22 anos.
Me perdoe oleitor por retornar a este assunto desagradável, mas isso tudo me veio à mente na manhã deste idos de março, uma quarta-feira, quando vi a primeira página de uma folha local, o jornal O Estado do MS, que exibe uma foto de crianças pedindo autógrafos ao atleta mineiro. Lembrei-me também de “O Manual da Barbárie”, ensaio do historiador britânico Eric Hobsbawm, que é a transcrição de sua conferência sobre anistia proferida no Sheldonian Theatre, em Oxford, em 1994.
No livro Sobre História, onde li o ensaio, Hobsbawm diz que “intitulei minha palestra como ‘Barbárie: manual do usuário’ não porque deseje apresentar instruções sobre como ser bárbaro. Ninguém de nós, infelizmente, precisa disso. Barbárie não é algo como dança no gelo, uma técnica que precisa ser aprendida —pelo menos, não até que se deseje tornar-se torturador ou algum outro especialista em atividades desumanas. Trata-se antes de um subproduto da vida em determinado contexto social e histórico, algo que vem com o território, como diz Arthur Miller em ‘Morte de um Caixeiro-viajante”.

Mais adiante, o historiador argumenta que “esclarecerei a primeira forma de barbarização, a que acontece quando desaparecem os controles tradicionais. Michael Ignatieff (político, escritor, historiador, jornalista e professor de História canadense), em seu recente ‘Blood and Belonging’, observa a diferença entre os pistoleiros das guerrilhas curdas de 1993 e os dos postos da fronteira bósnia. Com muita perspicácia, ele percebe que na sociedade sem Estado do Curdistão todo menino que chega à adolescência recebe uma arma. Portar uma arma significa simplesmente que o rapaz deixou de ser uma criança e deve se comportar como homem”.
Ver imagens de crianças pedindo autógrafos ao assassino condenado teve mais ou menos o mesmo significado para mim. Quer dizer, um assassino deve ser venerado, sim. Mesmo que seu crime tenha sido cometido de forma cruel e sanguinária. A atitude com relação a Bruno Fernandes demonstra que o crime compensa, né?! Testemunha e participantes disseram, à polícia, que Samudio foi esquartejada e enterrada. Outros acrescentaram que a moça foi dada como refeição a cães da propriedade rural do ex-ex-goleiro.
No Brasil, o meio esportivo é tão corrupto quanto o ambiente político. O que torna natural a louvação do Monstro de Varginha, que é a demonstração acintosa de que a barbárie é perfeitamente aceita entre uma grande parcela de brasileiros. Cometer um crime horrendo é uma ação perfeitamente aceita no seio da sociedade. Bravo, senhor monstro. Bravo, senhor Monstro de Varginha. E crianças aprendem com os adultos.
Luca Maribondo

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terça-feira, 14 de março de 2017

O monstro de Varginha

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Município brasileiro localizado na região sul do Estado de Minas Gerais, Varginha parece destinada a conviver com aberrações. A cidade está localizada às margens do Lago de Furnas, e ao mesmo tempo equidistante a três capitais do Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Vinte de janeiro de 1996 seria um dia normal na pacata cidade de 100 mil habitantes das Gerais, mas o relato de três meninas mudou tudo. Elas disseram que viram um ser estranho, baixinho e de olhos vermelhos, que não parecia deste mundo. Do dia para a noite, pesquisadores e inúmeras testemunhas começaram a falar sobre o "E.T. de Varginha".
Surgiram mais relatos sobre criaturas e objetos não identificados, operações militares, movimentações estranhas na cidade e mortes misteriosas. O caso virou notícia na mídia do mundo inteiro, principalmente em publicações ufológicas. Nesses 20 anos, muitas dúvidas ficaram no ar. Mas o certo é que a história faz parte do imaginário brasileiro e aterrorizou muita gente.
Agora, a cidade sofre com outra barbaridade. O Sr. Bruno Fernandes, condenado a 22 anos de prisão pelo monstruoso assassinato de sua ex-namorada e mãe de seu filho, a sul-mato-grossense Eliza Samudio, cujo corpo nunca foi encontrado –dizem até que foi transformado em comida de cães. Libertado pela suprema corte (!) brasileira e contratado por um time de futebol local, o Boa, o sujeitinho foi morar na cidade e, tal como o E.T., tornar-se-á uma aparição constante para os habitantes varginhenses.
Bruno Fernandes, o atleta assassino, é a prova de que a barbárie humana não tem limites. E que a lei nada tem a ver com Justiça. Sem nunca conseguir se livrar do E.T. de Varginha, a cidade agora terá de conviver com o Monstro de Varginha.
Luca Maribondo
Campo Grande | MS | Brasil

Chega de intermediários

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Com mente glacial, nervos de aço e persistência de uma mula, Marcelo Odebrecht assumiu o comando do conglomerado de empresas de engenharia e construção de sua família para levá-las ao auge dos empreendedores que tomam os serviços de empreita no Brasil. No país, MO fez algo que poucos empresários fariam: defendeu publicamente mandatários de esquerda e suas políticas. Agora, o empresário de 46 anos se encontra na mais improvável das circunstâncias para uma pessoa de tal prestígio: em custódia da polícia.
Preso desde junho/15, o então presidente da Odebrecht foi detido numa das fases iniciais da Operação Lava Jato, que investiga o escândalo bilionário de corrupção envolvendo a Petrobras, funcionários da estatal, executivos de empreiteiras, políticos e partidos —e gente da, digamos, mais alta qualidade. Sua prisão foi a com mais pompa e circunstância de um executivo brasileiro desde que o escândalo estourou em 2015. Prevê-se que Odebrecht fique na prisão até dezembro de 17.
Um de quatro irmãos, Odebrecht vinha comandando uma era de ouro para o grupo familiar, que tem 15 divisões e presença em mais de vinte países. Ele sucedeu seu pai, Emílio Odebrecht, no fim de 2008, em meio a uma crise financeira global. Engenheiro com formação em finanças, MO transformou o conglomerado no maior empregador do Brasil e em um dos cinco maiores grupos privados do país. Sua ascensão coincidiu com o segundo mandato do então presidente Lula da Silva, que tinha o objetivo de transformar o Brasil em uma potência global através da promoção de empresas brasileiras. Usando um chavão, pode-se dizer que juntaram a fome com a vontade de comer.
Protagonista de escândalos financeiros em todos os cantos do Brasil e, dizem, em mais ou menos quinze outros países, Marcelo Odebrecht é, certamente, um dos mais relevantes líderes dos negócios escusos de todo o mundo. MO tornou-se o cara que antes de elaborar o projeto já vinha com a proposta de maracutaia. Assim, tornou-se um dos principais líderes das mamatas e negociatas tupiniquins.
Mas, ainda assim, nunca passou de um intermediário dos grandes negócios escusos, principalmente do setor de obras publicas. Por trás dele e ao seu lado sempre estiveram (e ainda estão) algumas das principais lideranças políticas do país de uns vinte ou trinta anos atrás até hoje. Faz tempo que temos tido guias do povo (tupiniquim) que não funcionariam nem como guias de cegos —é preciso citar nomes, prezado leitor?!
Com seus conhecimentos de engenharia e gestão (de seus negócios) e um bocado de paciência, porém, Odebrecht logrou construir um verdadeiro império global de corrupção, atingindo políticos e governantes em todos os continentes, através dos quais constrói obras por preços estratosféricas, usando papagaios, notas promissórias, notas fiscais e até cheques com fundo e sem fundo. No plano administrativo MO montou uma estrutura profissional de pagamentos sistemáticos de propina no Brasil e no exterior. Somente em duas contas ligadas a esse setor paralelo estima-se R$ 91 milhões em pagamentos suspeitos de serem ilícitos.
Esse sistema estruturado de corrupção envolve empregados com divisão clara de atribuições, um sistema informatizado para controle da entrada e saída de milhões de reais e toda uma estrutura de contabilidade clandestina. Os pagamentos se referiam a obras públicas do governo federal e de governos dos Estados. Segundo investigadores a estrutura incluí até uma área específica na empreiteira, chamado de "Setor de Operações Estruturadas", também conhecido na mídia como Departamento de Propinas, algo inédito em todo o mundo e que operava os processos e ações ilegais.
Presume-se que, preso há tanto tempo, MO continue na ativa, mandando e desmandando. Além de mensagens administrativas, gerenciais e informações políticas e econômicas, Odebrecht envia, igualmente, recados à família, conselhos aos filhos, recomendações aos políticos, com os quais conversa muito, e também com a esposa, de quem tem muitas saudades. Dá, ao mesmo tempo, ordens aos empregados, supervisiona o trabalho da empresa, verifica se está tudo limpo e asseado, bem cuidado e em ordem e analisa os balancetes mensais. Isso, sem falar das ameaças explícitas e implícitas das delações.

No Brasil, não há impedimento legal para que um chefe de executivo administre da cadeia —vide o caso Robert Viana, prefeito de Mulungu (CE), que pode administrar o município mesmo preso. Outro precedente —um tanto insólito—, são os chefes do tráfico que, mesmo na cadeia, administram suas quadrilhas com muita eficácia. Por isso, seria muito heterodoxo, mas marcante, colocar o nome do engenheiro com formação em finanças como possível candidato à Presidência da República. Seria o fim dos intermediários na corrupção. E possivelmente a deixa para a criação do Partido Cleptocrático Brasileiro (PCB) —possivelmente MO seja o principal guia da cleptocracia no Brasil. Da Papuda para o alto —em 2018, Marcelo Odebrecht no Planalto... Chega de intermediários.
E o vice-presidente? Poderia ser o Jair Bolsonaro, né não?!
Obs.: para os desavisados: esta crônica é uma peça de ficção.

Luca Maribondo
Campo Grande | MS | Brasil

quarta-feira, 8 de março de 2017

Modelo de imprensa livre

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Partido da Imprensa Golpista (comumente abreviado para PIG) é uma sigla usada por órgãos de imprensa e blogs políticos de hipotética orientação de esquerda para referir-se a veículos de comunicação e jornalistas pretensamente de direita. Os veículos acusados de integrar o PIG (Rede Globo, Veja, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e outros) são acusados pelos esquerdistas de tendenciosos e supostamente de utilizarem de seu poder midiático para propagar suas ideias e desestabilizar governos de orientação política contrária à sua, conforme definição da Wikipédia.
Pig é também o vocábulo inglês para o animal porco (mamífero da infraordem dos suínos). A expressão foi criada por jornalistas petistas e popularizada principalmente por Paulo Henrique Amorim, comunicólogo responsável pelo blog Conversa Afiada. Segundo ele, foi inspirada em discurso do deputado Fernando Ferro (PT-PE). Amorim, quando utiliza o termo, o grafa com “i” minúsculo, em alusão ao portal iG (www.ig.com.br), que o demitiu em 2008, no que descreveu como um processo de "limpeza ideológica". De acordo com PHA, muitos políticos teriam passado a fazer parte do PIG: "O partido deixou de ser um instrumento de golpe para se tornar o próprio golpe. Com o discurso de jornalismo objetivo, fazem o trabalho não de imprensa que omite; mas que mente, deforma e frauda”.
Utilizado pela maioria dos jornalistas pró-petismo em seus blogs, em referência a eventos ocorridos no Brasil e no exterior, de maneira geral, hoje a sigla é muito usada em parte dos jornais, revistas, sites e blogs da esquerda. Ex-presidente, Lula da Silva dá respaldo à ideia contida na sigla quando vitupera: "Quem faz oposição nesse (sic) país é determinado tipo de imprensa. Ahhh, como inventam coisa contra o Lula. Se eu dependesse deles para ter 80% de aprovação, teria zero”.
PIG qualifica o jornalismo praticado pelos grandes veículos de comunicação, que seriam, segundo seus criadores e utilizadores, demasiadamente conservadores e teriam o intuito de prejudicar o ex-presidente e membros de seu governo. Diz Amorim que PIG pode ser conceituado da seguinte forma: “em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão, têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político —o PIG”.
Resumindo, o PIG seria uma espécie de guilda abstrata composta por jornalistas porcos capitalistas, imperialistas do mal e fascistas maléficos que se adornaram e dominam a mídia dita reacionária e buscam transformar todos os brasileiros em gente mais pobre do que já é, enforcar todos os esquerdopatas bonzinhos, cândidos e ingênuos e dominar toda a América Latina roussefista, moralista (de Morales), madurista (de Maduro), castrista (de Raul Castro etc.).
Não se sabe exatamente quando o PIG foi criado, mas é bem provável que tenha sido nos idos de março de 59 a.C., quando Júlio Cézar, que liderou os suínos romanos pra criar a folha Acta Diurna e obter adeptos pra um golpe de Estado no antigo Lácio (santa coincidência!). Desde então, passados 2076 anos (se meu calendário está correto), o PIG espalhou-se por todos os continentes e eras desta nossa maravilhosa e progressista civilização ocidental (e oriental, também!)...
Segundo os paranoicos da esquerda-petista desabotinada, se não fosse a honestíssima, ética e informadíssima mídia da esquerda brasileira, o PIG não teria quem os combatesse nesta nossa pátria amada, salve, salve, Brasil. Quem estuda a questão, entretanto, não é capaz de diferenciar uma da outra, exceto no aspecto ideológico. No Brasil, há muita gente que propugna por uma imprensa objetiva e apartidária.
Muitos outros no Brasil lutam para que a imprensa seja defensora de causas e tome posições políticas. Estes, claro, contrariam os já mencionados que pensam que a mídia deve ser objetiva e apartidária. Também tem quem crê que a imprensa deve respeitar e refletir instituições e tradições sociais, enquanto outros defendem que as deve questionar e desafiar a tudo e a todos. O ideal é que mídia possuísse um mix de todos estes atributos e mais alguns.
Na verdade, existem critérios definidores —mas não muito claros— dos privilégios e das responsabilidades de uma imprensa livre em uma sociedade livre. Uma imprensa livre e independente é essencial a qualquer sociedade livre e independente, dizem os especialistas. Mas o que se entende por imprensa livre? A mídia livre deve ser vista como um universo de comunicação não sujeito a indevido controle e regulamentação por parte do Estado, uma imprensa livre de indevida influência financeira por parte do setor privado, incluindo agências publicitárias, bem como de pressões de ordem econômica ou empresarial oriundas de empresas do setor privado. Isso não existe no Brasil.
Uma imprensa livre e independente deve entregar aos leitores, espectadores e ouvintes o produto informação de que esses necessitam para participar plenamente, enquanto cidadãos, de uma sociedade livre. Mesmo entre pessoas ponderadas há discordância quanto ao papel dos meios de comunicação social. Tem gente que argumenta que os jornalistas devem apoiar o governo e oferecer ao público apenas a informação que o governo considere apropriada —pensamento este típico da esquerda brasileira. Outros, pelo contrário, acreditam que a imprensa deve vigiar o governo, investigando e relatando casos de abuso do poder, incompetência, corrupção, improbidade, falsidade ideológica, desonestidade intelectual, obstrução da Justiça etc.
Como foi dito e redito, pugna-se por uma imprensa objetiva e apartidária. Quem é do meio, no entanto, sabe que isso não é possível. Cada veículo de comunicação tem o seu lado, geralmente uma facção com condições de bancar os veículos de comunicação de seu interesse. Por isso os donos da mídia esquerdista criaram o tal PIG. Ninguém fala em ajuntar um grupo de veículos de esquerda, mas dia desses um amigo, num papo de botequim, sugeriu a sigla PECO —sigla para Partido Esquerdista da Comunicação Ordinária. Lembrei-me de que a palavra peco também conceitua néscio (no sentido de “estúpido”)... Não sei se o título PECO vai ter a preeminência do seu congênere PIG, mas não deixa de ser interessante.
Mas não haverá no Brasil uma mídia objetiva e apartidária, nem de esquerda nem de direita, enquanto a sociedade não tiver os meios de bancar o seu próprio universo dos meios de comunicação. Hoje, quem custeia a mídia são os donos dos poderes econômicos e políticos. A mídia não vai mudar enquanto o sistema for esse.
Não sou direita nem esquerda, nem destra nem sinistra. Na verdade, eu prefiro ficar nos altos, voando como os pássaros, e observar o mundo que me cerca da perspectiva dos anjos. Não creio em imprensa ao mesmo tempo séria e sectária. O jurista inglês do século 18 William Blackstone defendeu que “A liberdade da imprensa é de fato essencial para um Estado livre: isso consiste na não imposição de restrições pré-publicação e não na isenção de censura a matéria penal após a publicação”. Essa distinção feita por Blackstone foi muito relevante. O poder do Estado de licenciar e controlar quem pode operar a imprensa e aquilo que poderia publicar é a epítome fundamental da liberdade de expressão. Ao impedir o discurso antes deste ser proclamado, o Estado reprime o debate e a dissidência.

Uma saída útil ao propor-se a criação de um modelo para uma imprensa livre é a consideração de quais são os direitos essenciais que permitem aos jornalistas realizar o seu trabalho. Esses poderão incluir a ausência de restrição antecipada; a proteção contra a divulgação obrigatória de informações; não exigência de licença estatal (diploma, e.g.), o direito de acesso a informações do governo e a processos judiciais; o direito de criticar os servidores governamentais e figuras públicas; acabar com o conceito de “autoridade”, o direito de recolher e publicar informações midiáticas sobre indivíduos; limitações ao licenciamento por parte do governo de jornalistas e veículos noticiosos; fim do foro privilegiado para oficiais do governo, e restrições limitadas e cuidadosamente formuladas relativas ao discurso indecente ou obsceno, corrupto.

A mídia só será séria quando essas ideias e diretrizes se tornarem dogmas.

Luca Maribondo
ilustração: https://waa.ai/jY78
Campo Grande | MS | Brasil