quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

[Os computadores e o caráter humano]

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O computador chegou ao estágio em que resolve
todos os problemas. Exceto, claro, os dele.
Millôr Fernandes


Desde as últimas décadas do século passado os computadores vêm fazendo, cada vez mais, parte de nossas vidas. Querendo ou não, somos obrigados a lidar com eles a todos os momentos, nos caixas eletrônicos de banco, na escola, no trabalho, nas compras —até os boxes do camelódromo de Campo Grande estão informatizadas. Mesmo gente mais refratária às mudanças é obrigada a se acostumar com as maquinetas, sentindo que não há como escapar da tecnologia. A humanidade está sendo dominada pela tecnologia, mas, infelizmente, não podemos dizer que a recíproca é verdadeira.

Por mais que a gente amplie nossos conhecimentos e desenvolvamos novos produtos, os computadores continuam dando respostas inesperadas nas piores horas, e gerando comportamentos malucos sempre que possível. Dizem os especialistas que a informática nunca foi uma ciência lógica, muito pelo contrário... A nossa vã filosofia, a todo tempo, é subvertida pelos softwares, plataformas, arquitetura, linguagens e todos aqueles outros termos nem sempre de fácil compreensão.

Tentam explicar e resolver todos os problemas com grandes teorias, novas linguagens, versões betas e outras coisicas que nunca acabam funcionando como se deseja e ainda acabam criando novos problemas —e quem já não ouviu a frase fatal “mas o computador nunca erra, meu senhor!” Outros se conformam e apenas aprendem as técnicas de defesa pessoal para redução dos efeitos provocados por um pau ou tilt, para os mais antiquados. Nestas técnicas estão os famosos control/alt/del, além do reset e outras palavrinhas tão meigas, que já fazem parte do vocabulário de qualquer criança com mais de três anos.

Não sou um expert em informática, e, nos computadores, isso é o que menos me fascina. Uso um micro apenas como uma ferramenta, um meio para produzir algo. Na verdade, é pouco mais que uma máquina de escrever metida a besta. Mas conheço gente que sabe tudo de informática, e de um jeito ou de outro, sempre estive envolvido com isso (desde o Atari... ou melhor, do Genius —quem se lembra deles?), tenho minha teoria sobre a principal causa de todos os problemas de um computador.

Semântica! Exatamente, isso! Responda rapidamente para mim: quantas vezes você apertou a tecla enter do seu micro realmente desejando entrar em algum lugar ou em alguma coisa?! Enter em inglês, segundo meu tradutor eletrônico tecnologicamente plugado à Internet, significa exatamente isso: entrar, anotar, penetrar, verbo intransitivo.

Por mais que o computador tente, é impossível fazer tudo certo sendo contrariado o tempo todo. Contrariedade tal, que só pode ser comparada aos garçons de rodízio. Se pararmos para recordar a história da computação, vamos nos lembrar que no início não havia a tecla enter, existia o bom e velho return, e eu pergunto agora: quem se lembra de uma operação fatal com direito a tela azul em um TK-3000, ou num Apple que usava a linguagem Logo com aquela maldita tartaruguinha, hem?!

Pois é leitor!, os computadores são, na verdade, dispositivos que trabalham o tempo todo negando tudo em que acreditam, são palmeirenses obrigados a cantar o hino do glorioso rival alvinegro durante toda a jornada de trabalho. É inevitável que as operações fatais ocorram a todo instante, pois não é todo chip que é psicologicamente preparado para isso.

Possivelmente, se os teclados e sistemas fossem adaptados pela função do usuário, os nossos problemas seriam mais facilmente resolvidos. Se o usuário fosse digitador, ao invés de enter haveria a tecla return ou parágrafo, se fosse um usuário de computação gráfica simplesmente ok, e assim por diante. Deste modo, reduziríamos o sofrimento dos computadores, e nós, teríamos a nossa paciência finalmente poupada. E sem travamentos.

Fico pensando se as maquinetas não estão aos poucos se humanizando. Quase sempre que se fala em computadores, eles estão fazendo maracutaias nas eleições, adulterando contas bancárias, errando nas cobranças dos cartões de crédito, revelando segredos de Estado. Estou ficando desconfiado que o computador herdou e ampliou a falta de caráter do ser humano.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

[Você odeia políticos?! ]



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Falar mal dos políticos é, no Brasil, uma espécie de esporte nacional. Nem todos os políticos, claro, são maus, inaptos e/ou corruptos. Mas eles fazem por merecer todas as críticas que recebem. Nos últimos tempos, os muitos escândalos dos legislativos brasileiros de todos os níveis provocam e justificam todas as críticas que se fazem aos políticos e governantes.

Muitos motivos explicam a aversão do cidadão pelos políticos, notadamente nos escalões mais jovens. Dois desses motivos se destacam: eles não fazem questão de buscar a coerência exigida pelos cargos que ocupam; e a ligação eleitor-governante é praticamente nula. Assim, não espanta o fato de mais de 1,5 milhão de eleitores brasileiros terem os títulos cancelados porque não votaram nem justificaram a ausência de 2006 para cá.

Os próprios parlamentares, como cidadãos, deveriam dar o exemplo ao cumprirem as regras mínimas de cidadania, insertos na sociedade que os elegeu, respeitando o povo e a tal democracia. Infelizmente, por manifesta incompetência (muitas vezes por pura má fé) realizam um trabalho que é incompreendido pela sociedade; em muitos casos vai contra as demandas dessa mesma sociedade que teoricamente representam.

Talvez se os senhores parlamentares, como cidadãos, começassem por abdicar das suas leis obscenas, dos casos de corrupção, e trabalharem verdadeiramente como todos os cidadãos, recusarem os obscenos subsídios que recebem, enfim, mostrarem ao povo que os elegeu que estão a trabalhar.

Em sua edição desta terça-feira, 2 de fevereiro/2010, o jornal Correio do Estado publicou os resultados de pesquisa elaborada pelo Ibrape na qual se demonstra que "apenas 12% dos campo-grandenses consideraram ótima ou boa a atuação da Câmara Municipal" da Capital de Mato Grosso do Sul.
É um índice obsceno, que demonstra a aversão que a população adquirir por seus representantes.

Paladino da moral e dos bons costumes, o presidente do legislativo campo-grandense, vereador Paulo Siufi (PMDB), está entre os parlamentares mais mal avaliados pela população. Siufi, que recentemente propôs projeto de lei (aprovado pelos seus pares e vetado pelo prefeito Nelsinho Trad) regulamentando o que ele chama de pornografia, é considerado um bom vereador por apenas 0,6% da população da cidade.

A pesquisa demonstra que Campo Grande precisa de representantes que estejam realmente preocupados com a população e que gostem da cidade verdadeiramente; representantes que dêem condições de governabilidade ao executivo de modo que a população seja beneficiada; e que façam jus aos altos salários que recebem. Será que eles não percebem que realizando um trabalho que parece inócuo todos não terão a sua reeleição garantida?

Dia desses numa reunião no plenário, uma senhora bem velhinha, ao comentar um vereador que pedia respeito, disse uma frase que é emblemática: "dêem-se ao respeito, que serão respeitados!" O essencial é a postura ética e honesta de quem se faz representante da população. Afinal, a boas qualidades do político e do eleitor estão intimamente ligadas. Os vereadores morenopolitanos demonstram que ao fim e ao cabo todo político corresponde aos que não confiam nele.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

.::Candidatos double face

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O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não
fala, não enxerga, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que
o custo de vida, o preço de feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato,
do remédio, dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil
que, da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior
de todos os bandidos, que é o político vigarista; pilantra e corrupto. O
analfabeto político é lacaio dos exploradores do povo.

O Analfabeto Político
Poema-crônica de Bertolt Brecht


Já dizia Niccolò Machiavelli que a virtú era a arma para sedução da Fortuna. O cônsul italiano acreditava, ao contrário dos romanos, que tal atributo não estava relacionado à virilidade —à força masculina, atributo do macho—, mas à sutil combinação entre a força e a astúcia. Mais que a força, a sagacidade de demonstrar —sem a utilizar— que a força é que marcava a vida dos grandes príncipes. Através desse caminho, muitos analistas atribuíram a Machiavelli a noção de que o critério para julgar uma decisão política é simplesmente o seu resultado ou a conquista do objetivo a partir da habilidade. O mundo da moral e o mundo da política estariam em dimensões distintas. Simplificando, a conhecida noção de que o fim justifica os meios.

Max Weber, autor de Politik als Beruf (A Política como Missão), retomou o dilema ao analisar a ética da responsabilidade, que envolve a ação dos líderes políticos. Um líder, argumenta o sociólogo alemão, é movido pela paixão, mas também possui equilíbrio. Antes de tudo, porém, é responsável pelas conseqüências das suas ações. Um dos corolários é que, para o governante, o que importa é a certeza do resultado.

A partir daí, muitos seguidores de Weber sustentam que a omissão é uma atitude plausível e justificável na ação responsável de um líder político. Conseqüentemente, nem sempre um líder pode ou deve dizer o que ocorre ou vai ocorrer, sob pena de estimular a disputa e trair os planos de Estado. Fugir à responsabilidade pelos erros dos subordinados é um exemplo disso —todos sabemos a confusão que dá.

Partindo-se do princípio de que essas concepções e orientações teóricas são absolutamente corretas, todos os candidatos a um cargo político com reais condições de vitória tenderiam a convergir para um discurso e práticas comuns, antecipando a ética de um chefe de Estado. Sabendo que poderiam ser eleitos e assumir um cargo público, tenderiam a ser cautelosos, adotar a responsabilidade do cargo e demonstrar possibilidades, mais que agir de maneira irrefletida. Ao contrário, um candidato sem chances de vitória poderia mostrar-se por inteiro, pender para atos mais agressivos e afoitos, pois estaria longe de praticar sua virtude.

Esta talvez seja uma explicação teórica plausível para o que acontece na campanha eleitoral deste ano. Por que, afinal, principalmente os candidatos presidenciais, ainda que não estejam claramente definidos quais são, se parecem tanto —fala-se dos presidenciáveis, mas isto é real aqui também— nas suas propostas? Uma boa explicação é justamente a real chance de qualquer um deles tornar-se o próximo presidente da República —ainda que hajam apenas dois realmente na disputa. Intuitivamente, percebem que o segundo turno das eleições já é uma certeza.

José Serra (PSDB), demonstram as pesquisas recém saídas dos fornos, está com jeito de garantir a cada dia que passa a sua vaga na finalíssima desta disputa. Dilma Roussef e Ciro Gomes disputam a outra vaga —agora com uma sólida vantagem para a Dama de Pedra—, de acordo com os levantamentos mais recentes. O trio de candidatos parece antever que, no segundo turno, haverá uma outra eleição, não havendo garantias sobre o resultado. Então, os três assumem uma postura prudente e cautelosa, insinuando que não romperão com o stabilishment. Mas esta hipótese não basta. Há ainda a possibilidade de Marina Silva, do PV, e Roberto Requião, mas por enquanto estes não contam. Requião, postula a candidatura dentro do seu partido, o PMDB.

Sabe-se que em momentos de forte crise social e/ou econômica, de insegurança total sobre o futuro, surgem lideranças políticas pouco racionais, da estirpe dos carismáticos ou dos demiurgos. Sigmund Freud escreveu, num artigo um tanto conservador, um texto sobre este fenômeno: em O Futuro de uma Ilusão, ele traça um paralelo entre a busca da figura do pai organizador e a busca das massas —quando mergulhadas no caos— da figura do líder aglutinador que guia a sociedade com uma promessa de triunfo. Um verdadeiro demiurgo.

A semelhança do comportamento dos três candidatos e o espaço insignificante e pouco legitimado de discursos mais arrojados na campanha eleitoral de 2010 parecem indicar uma percepção geral de que o país não está precisando de mudanças —não de mudanças profundas, embora muita coisa tenha mudado sob Lula da Silva. Isto poderia significar um sinal de avanço e de maturidade política da sociedade brasileira. Mas não é bem assim e esta alternativa também é insuficiente.

Outra hipótese plausível para a parecença do comportamento dos postulantes é o cenário econômico de 2011, que reduz o espaço de manobra do próximo presidente. Não estamos mergulhados no caos, porém estamos cientes de que não temos a garantia de um amanhã de crescimento e estabilidade. O fluxo de capital externo para as empresas instaladas no país é instável.

É claro que a instabilidade latino-americana, as crises da Argentina, Paraguai, Bolívia e a Venezuela (esta sob ditadura), além do Haiti, a quebradeira de grandes corporações norte-americanas, provocam enorme desconfiança nos senhores do capital. Concorrem para tanto, também, a diferença do dólar para o euro —como que demonstrando o esgotamento do crescimento dos EUA— e a crise dos balanços forjados pelas megacorporações norte-americanas —muitas das quais foram à bancarrota recentemente. Resumindo, o cenário do ano que poderá ser de grande aperto financeiro. Pior para nossa estrutura econômica.

Os três pré-candidatos, é claro, estão cientes de que não podem abrir muito o estoque de opções, sob pena de prometerem o que não poderão cumprir e ainda perderem, talvez logo nos primeiros dias de governo, a legitimidade que conquistarem nas urnas, diga-se de passagem modernas e eletrônicas, mas que provocam a desconfiança de muita gente.

Tem outra explicação plausível: o envelhecimento precoce de um sistema partidário que nunca foi dos mais sólidos e confiáveis. Deixamos um sistema bipartidário, imposto pelo regime militar instalado em 1964, para um sistema pluripartidário muito instável e fisiológico. Estudos e comentários científicos indicam que a exceção à regra era o Partido dos Trabalhadores. O PT teria, em resumo, as características clássicas de um partido político moderno: programa partidário para além do período eleitoral, organização burocrática profissional, bases sociais sólidas, militância atuante inclusive fora do período das campanhas eleitorais. O atraso petista está mais em seus militantes —mesmo aqueles dos mais altos escalões— do que propriamente da estrutura partidária, ainda que a agremiação tenha piorado depois de haver assumido o poder.

O resultado é que, nas eleições de 2002 —mais ainda na de 2006— já se percebia um decisivo desvio do PT na direção de uma intenção mais claramente eleitoral e menos mobilizadora —daí o afastamento da sempre presente militância petista. Para tomar esse desvio reforçou o marketing político, reduziu gradativamente seus pontos de atrito com a ordem social vigente e procurou ampliar seu público-alvo para os segmentos formadores de opinião.

Flexibilizou, portanto, seus vínculos com os movimentos sociais que lhe proporcionavam sustentação desde a sua criação, e assim deixou de lado muitos dos compromissos com a pauta política que esses movimentos elaboravam. Com o divórcio, o PT aproximou-se do padrão instável dos demais partidos políticos brasileiros. Sem o antigo poder de mobilização social —ou mesmo certa simbiose com tais movimentos— o cenário partidário ficou pasteurizado. Nas eleições deste ano, o que era apenas uma tendência, passou a ser uma marca: as alianças políticas são muito parecidas, sem a base histórica. O que vale não é a vitória, mas ganhar as eleições. Se alguém duvida disso, é só ver quem são os principais aliados da companheira Dilma Roussef na campanha que ainda nem começou oficialmente.

Todos sabemos, ainda que intuitivamente, que não são os programas e as propostas de governo que diferenciam os candidatos. Todos são muito semelhantes e o que os diferencia é o comportamento individual ou os traços de caráter de cada um. Os projetos ousados propalados no início do processo de redemocratização do país são substituídos, a partir de então, por ações espetaculares, de natureza midiática. É assim que se explica a importância cada vez maior dos trajes do candidato, da sua pele esticada, dos dentes alvejados ou do penteado de cabeleireiro, sua reação às provocações anunciadas, à capacidade de sorrir. São filigranas, pura cosmética, todos sabem, mas elas é que diferenciam o que é tão parecido.

Em resumo, nestas eleições de 2010, os candidatos estão mais uniformizados, mais digestíveis. A mesmice domina tudo e, mais que nunca, o divórcio entre padrão moral e padrão político é evidente. Com certeza estamos experimentando uma espécie de cultura pós-moderna na política. Os políticos demonstram que hoje estão cheios de argumentos e atitudes ambíguas, que podem tanto ser usados como contestação ou a favor do sistema, capuz para dias de chuva excelente para dias de sol. São candidatos double face...

sábado, 30 de janeiro de 2010

.::PMDB na corrida presidencial

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Esacheu Nascimento, presidente regional do PMDB de Mato Grosso do Sul, conseguiu um feito memorável na sexta-feira passada, durante evento para inaugurar a nova sede do partido em Campo Grande. Trouxe um convidado muito especial, o governador do Paraná Roberto Requião, e reuniu as principais liderança peemedebistas do Estado. Lá estavam o governador André Puccinelli, o prefeito Nelsinho Trad e alguns peemedebistas históricos, como o ex-governador Wilson Martins, o senador Valter Pereira, o deputado Waldemir Moka, a prefeita Nelly Bacha. Requião, que pugna pela candidatura própria do PMDB à Presidência da República —no caso, ele próprio—, concedeu entrevista coletiva à imprensa local e defendeu seus argumentos. De quebra, Nascimento, ainda arrancou de Puccinelli a promessa de que apoiará candidatura própria do seu partido, caso Requião consiga se viabilizar politicamente.

.::Nascimento e morte dos escândalos

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No Brasil, todos os escândalos políticos seguem um ciclo simples —tão simples que até uma criança é capaz de compreender: primeiro surge o escândalo —é a etapa do aparecimento; a segunda etapa é chamada de desenvolvimento — nesta fase a mídia denúncia e argumenta, mostra alguns detalhes e dados; os políticos e as autoridades discutem, analisam e, principalmente, negam a existência do escândalo. A terceira fase é a morte, nesta etapa o escândalo é esquecido ou substituído por outro. Este ciclo de nascimento, desenvolvimento e morte dos escândalos políticos mostra bem como os cidadãos brasileiros, em geral, agem politicamente.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Radamés Gnattali, 104 anos

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Uma das figuras que mais naturalmente circularam entre os universos popular e erudito na música, o gaúcho Radamés Gnattali (foto aí embaixo), que completaria 104 anos neste 27 de janeiro de 2010, é uma figura-chave para se entender as tênues fronteiras que envolvem a música brasileira. Filho de uma pianista gaúcha e de um imigrante italiano radicado em Porto Alegre, foi envolvido desde cedo pela paixão que os pais nutriam pela ópera, que se refletiu nos nomes dos três filhos do casal: Radamés, Aída e Ernâni, todos personagens de óperas de Giuseppe Verdi.

Gnattali é o autor do Hino do Estado de Mato Grosso do Sul, que na época da instalação da unidade da federação realizou concurso público para a escolha do seu canto solene. A letra é de dois poetas locais. Um deles, Otávio Gomes, conta a história de sua composição:

No período da instalação do nosso governo de Mato Grosso do Sul, nós e José Couto Pontes, na qualidade de membros da Academia de Letras, extra-oficialmente fomos convidados para assessorar os funcionários do Governo, em assuntos culturais.

Mal iniciamos nossas atividades, foram abertos concursos para escolha dos símbolos do novo Estado. Interessado em concorrer aos concursos, eu me afastei para concorrer ao certame.

Nenhum dos concorrentes conseguiu aprovação da COMISSÃO, mais por imposição de pessoas de fora do Estado que desconheciam
as realidades nossas do que propriamente falta de qualidade dos trabalhos.


Dada a urgência da criação do Hino, resolveu a Comissão encarregada do concurso que se procurasse no Rio de Janeiro compositores consagrados e poetas de renome para compor o nosso HINO.

José Couto Pontes foi enviado ao Rio de Janeiro e, levado ao MAESTRO RADAMÉS GNATTALI, por Odílio da Costa Filho, da Academia Brasileira de Letras, segundo declarou, em artigo publicado recentemente, o então presidente da Academia.

O maestro compôs a melodia, portanto.

Quanto ao poema, disse-nos o emissário que foi ao Rio de Janeiro – depois de consultados alguns especialistas, declararam, que ao que sabiam do ambiente cultural do nosso Estado, haveria certamente, poetas capazes de realizar aquele trabalho; e declinaram do convite.

Ter-se-ia repetido o acontecido com Osvaldo Cruz quando da epidemia de peste bubônica, na antiga capital. Solicitaram ao Instituto PASTEUR, um sanitarista, e a resposta foi aquela já conhecida. A pessoa procurada está aí no Brasil e se chama OSVALDO CRUZ.

Convocada às pressas a Academia SUL-MATO-GROSSENSE DE LETRAS, foi-lhe dada a missão de compor o poema do Hino do Mato Grosso do Sul.

Faltava possivelmente uma semana para a instalação do Governo do novo Estado.

Os acadêmicos reunidos iniciaram as conversações. O primeiro a se manifestar foi o saudoso poeta Germano Barros que declarou-se sonetista e sem condições de produzir um poema em exíguo tempo; os demais consultados, dada a responsabilidade, e exigência do curto espaço de tempo, desistiram.

Os dois únicos que consultados disseram estar disposto a tentar: nós, estudiosos da nossa HISTÓRIA e com um livro de poesia publicado; e Jorge Siufi, apresentador musicista e cantor de seresta. E COUTO PONTES, na qualidade de Presidente da ACADEMIA, na coordenação.

Iniciamos a composição cientes de que, devido, à urgência, o poema seria composto em versos brancos, estilo modernista.

Nós que havíamos concorrido ao concurso com uma letra baseada em temas históricos e da nossa natureza, continuamos usando os mesmos temas que julgávamos deveras oportunos.

A professora NEUSA G. GOMES, convocada, ia executando a melodia ao piano. Nós e o Jorginho fomos tentando as fases e o COUTO PONTES opinava. Assim foi composto o esboço do HINO, em aproximadamente duas horas. O passo seguinte era a adaptação técnica do poema à melodia.

Aí foi lembrado o Maestro Peter HANS, que conseguiu harmonizar a letra à partitura. E continuava a corrida contra o tempo. Neste intervalo ainda tentamos a execução da partitura com a BANDA DA POLÍCIA MILITAR. Mas em razão dos membros da corporação haverem concorrido ao concurso ou porque os executores da música não estavam motivados, a interpretação não era boa. Foi quando a professora NEUSA, exasperada, tomou a si a regência do ensaio e pediu mais entusiasmo na execução. Nesse momento veio-nos a idéia de dizer aos participantes da Banda, o significado histórico do poema do Hino. Acreditamos ter conseguido transmitir aos músicos algum entusiasmo patriótico, porque um oficial militar ali presente, entusiasmado com as nossas palavras, em vibrante alocução exortou aos músicos a executarem a partitura com mais vibração e sentimento, o que foi conseguido.

Nesse interim, o Coral Universitário realizava os ensaios, e chegava a Orquestra Sinfônica Brasileira, que executou a partitura de Radamés Gnattali no ensaio geral, junto ao Coral Universitário.

Resultado: na festa de instalação do novo Estado, no Teatro Glauce Rocha, o Hino de Mato Grosso do Sul foi aplaudido de pé.

Depois o Hino foi esquecido. Tempos depois, a Fundação Barbosa Rodrigues mandou fazer um novo arranjo e a Assembléia Legislativa, num gesto digno de aplausos, mandou gravar o Hino e o distribuiu pelas Escolas.

O Hino na realidade agora está bem melhor. O que está faltando é a regravação em maior número, e distribuição mais ampla pelos órgãos de divulgação do Estado e pela Secretaria de Educação.


Texto extraído do sítio da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (http://www.acletrasms.com.br/texto.asp?ID=8)

Mais informações sobre Radamés Gnattali no site www.radamesgnattali.com.br.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

.::A ética acima de tudo

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Homens, mulheres, jovens, adultos, idosos, ricos, pobres, religiosos, ateus, todos enfim, passam boa parte das suas vidas tendo que fazer escolhas: nosso cotidiano é feito de encruzilhadas nas quais temos de optar entre o bem e o mal, entre o certo e o errado —ou melhor, entre
o que consideramos bem e certo ou mal e errado. Apesar, porém, da longa permanência e da universalidade da questão, o que se considera certo e o que se considera errado varia conforme o tempo, a história, o lugar, as pessoas e as contingências.

Veja só: ainda hoje, em muitos lugares do planeta, o Estado é autorizado a matar em nome da Justiça. Em outras sociedades, o direito à vida é inalienável, inviolável e nem o Estado nem ninguém tem o direito de tirar a vida de um semelhante. Não está longe o tempo em que era legítimo espancar crianças, surrar e mutilar mulheres, segregar idosos.

Embora ainda se saiba de trabalho escravo —inclusive no Brasil—, de espancamento de crianças, violência contra mulheres, violação de direitos humanos por parte das autoridades da segurança pública, nesta primeira década —que se finda neste 2010— do século todos estes são comportamentos condenados publicamente na maior parte do planeta.

Entretanto, a opção pelo certo ou pelo errado não deve ser colocada apenas na esfera dos temas polêmicos e pontuais que atraem os olhos nem sempre atentos da mídia. De maneira geral é na solidão da consciência de cada um, homens e mulheres, pequenos e grandes, que certo e errado, bem e mal, se enfrentam. E a ética é o cenário desse enfrentamento.

No entanto, nem sempre, as decisões entre certo e errado, bem e mal, dizem respeito a fazer ou não fazer algo determinado, praticar ou não praticar este ou aquele ato. Muitas vezes as decisões éticas das pessoas ficam afetas a apenas julgamentos, opiniões, juízos de valor. Qual seja, o ser humano pensa e age segundo seu senso ético. Filósofos, psicanalistas, moralistas, antropólogos, sociólogos e outros estudiosos do comportamento humano afirmam que ninguém nasce com senso ético.

Esses estudiosos afirmam que ética se aprende: aprende-se em casa, na escola, na igreja, na rua. Ao longo de toda a vida, a partir das diferentes experiências que vive, o ser humano vai reforçando ou alterando seu senso ético, isto é, os valores que norteiam o comportamento do cidadão e seu modo de pensar. É certo até que o ser humano pode mudar a ética conforme o humor ou as emoções ou ainda os sentidos.

Dentre as experiências e vivências que influenciam o senso ético do indivíduo, destacam-se as culturais e artísticas. Em seu compromissos com a vida humana em suas diferentes fases históricas, as manifestações artísticas e culturais tematizam conflitos éticos, representando o ser humano e situações limite.

Quase sempre o dilema ético é escancarado nessas manifestações artísticas e culturais. Impossível seria discutir a ética e a estética sem a literatura, a poesia, a música, o teatro, as artes plásticas... É nas artes e na cultura que se constroem os dilemas e conflitos que obrigam as pessoas a tomar decisões baseadas na ética. A ética precede tudo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

[Liberdade?]

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Este é tema antigo e muito discutido —no Brasil, porém, discute-se muito e pouco se faz. Por isso é sempre oportuno voltar a ele: a independência política do Brasil, proclamada num 7 de setembro, no longínquo 1822, não significou a independência do povo brasileiro. Ao menos para a maior parte dele. A elite econômica da época acabou criando um liberalismo sui generis que visava a garantia de seus principais interesses: a manutenção das relações escravistas, a concentração da propriedade da terra e a consolidação do seu mando no Estado, que perdura até hoje. A Constituição de 1824 fundou um estado juridicamente desigual ao garantir direitos individuais à elite branca e tolerar a escravidão dos negros.

No bojo da Independência, a Constituição de 1824 produz algumas rupturas que fazem parte do universo liberal no conjunto das idéias fora do lugar da modernização à brasileira. Surgem as garantias individuais, mas é lógico que tudo isto não poderia colidir com o “direito de propriedade em toda a sua plenitude” que, mantida a escravidão na letra da lei, instituiria a cilada da cidadania no Brasil, que pontua até hoje os discursos do liberalismo da direita à terceira via no Brasil.

Paradoxalmente, o escravo, que era coisa para o Direito Civil e mercadoria para a economia da época, podia ser sujeito ativo de crimes. Ironia perversa do liberalismo tupiniquim: o escravo só seria reconhecido como ser humano ao praticar crimes. Sua “independência civil” muita vez só era alcançada com sua condenação à morte. A criminalização do negro no Brasil imperial estava diretamente relacionada ao fantasma das rebeliões que afligia as elites da época.

É este medo do negro, do pobre, da rebelião que aflige o inconsciente coletivo da elite brasileira até os dias de hoje. Os quilombos converteram-se em favelas; os insurgentes em traficantes de drogas; a criminalização do negro em criminalização do pobre. E a guerra continua. O medo continua. A reação natural ao medo é a guerra ao inimigo, pois somente sua exclusão —sua morte— trará a paz. No dilema entre a independência ou morte, a elite brasileira optou por sua independência à custa da morte das massas.

E a elite ainda finge que nada está acontecendo. É puro escárnio. Por isso, para que o Brasil se reconheça como independente, as elites econômicas terão que pagar às massas seus direitos à educação, saúde, trabalho, moradia e tantos outros garantidos na Constituição da República de 1988. A elite brasileira só proclamará a independência de seus medos, quando indenizar as massas pela miséria, pela exploração e pelas mortes causadas.

O dilema da “independência ou morte” só se resolverá quando a independência de uns não estiver mais condicionada à morte dos demais. Só assim os pobres se libertarão de seus cárceres e os ricos de seus medos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

[Da natureza do colunismo social]

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Garantem os especialistas no assunto que Campo Grande é a capital brasileira com maior número de colunistas sociais per capita no país. Esses mesmos experts não logram explicar o porquê do fenômeno: sabe-se inclusive que não existem estudos aprofundados a respeito deste momentoso tema, que a todos afeta.

Entretanto, os especialistas garantem que o colunista mundano é também um ser humano e, como todo ser humano, está exposto às fragilidades naturais da espécie: unha encravada, botulismo, cartão de crédito sem limite, cheque especial bloqueado, telefone portátil (vulgo celular) com a conta atrasada etc. A propósito, celular é uma ferramenta indispensável para o colunista social: a maioria tem pelo menos dois, sempre de última geração, mesmo que não tenha fundos pra pedir uma talagada de cachaça no botequim da esquina.

Estudos recentes comprovam que o ser humano que constitui o colunista social pode ser dos mais diversos sexos, dimensões, personalidades, temperamentos, aparências, culturas, etnias: existem colunistas indígenas, de origem paraguaia ou alemã; colunistas magros, colunistas gordos, colunistas mais ou menos; alguns colunistas vestem ternos, outros preferem jeans e camisetas. Quase todos moram na Zona Leste da cidade e trazem nos cartões de visitas endereços ditos granfas.

Hoje em dia, graças à proliferação das faculdades de comunicação e de letras, além de cursos de eja, muitos colunistas escrevem suas próprias colunas, embora este não seja um hábito lá muito bem visto pela classe —por isso, muitos preferem ter personal ghostwriters. A maioria dos colunistas, porém, consegue ler a coluna que assina —ou tem alguém de confiança que lê pra ele.

No colunismo mundano, usa-se a adoção de anglicismo e galicismos, o que leva o analista a crer que os colunistas exercem o papel de criação de um jargão da vida social. É o que se poderia chamar, doutra sorte, de princípio sociocultural, isto é, o jargão social indica uma classe social (burguesa) e sua cultura (estrangeira) que segue uma longa tradição da cultura brasileira, desde o período colonial. O empréstimo, por adoção, é um fenômeno sócio-lingüístico mais importante em todos os contatos de línguas. Ocorre todas as vezes que existe um indivíduo apto a se servir total ou parcialmente de dois falares ou sistemas lingüísticos diferentes

De cada 151 colunistas, 2,5 falam uma língua estrangeira —alguns até sabem algum idioma alienígena; cinco em cada 163 falam (e escrevem) o português. Os cronistas de priscas eras falavam o francês, que era a língua da moda. Hoje em dia, com a universalização do inglês, que está se tornando uma língua latina por causa da introdução de inúmeras palavras espanhola, a maioria usa uma espécie de spanenglishlusitano.

De modo geral, adota-se um entendimento muito pragmático entre o colunista social e seu empregador, o dono do jornal ou sítio de notícias na Internet. Esse entendimento baseia-se na compreensão e no respeito mútuo: o colunista escreve o que interessa ao boss ou é imediatamente defenestrado. Dessa compreensão das relações resultam duas vantagens de suma importância: o colunista passa a compreender mais profundamente o que é verdade: a verdade é tudo aquilo que convém ser publicado. E o boss passa a depositar a mais profunda confiança no colunista do seu veículo.

Assim também o sujeito/colunista social tende a vender as informações como mercadoria e tratar seus leitores como consumidores. Tomados pela superficialidade e imediatez da vida cotidiana, os leitores se identificam com notas curtas e rápidas para ler, constituídas de informações atuais. Dessa forma, nesse gênero há uma mistura de informações e opiniões que constituem essas adequações da coluna social. Assim, o próprio nome desse gênero já está sendo (re)configurado, pois as colunas sociais já não possuem o sentido de social da alta sociedade brasileira, e sim de variedades e segmentações para a sociedade em geral, visando os bens de consumo e o marketing das chamadas celebridades.

E como o veículo de comunicação, por sua vez,
se encontra exatamente a serviço dessas figuras afortunadas chamadas celebridades —políticos, artistas, cantores de música baiana, atores globais, jogadores de futebol, putains respecteuses, participantes de reality shows da tv, narcotraficantes e outros—, dotados de poder e burras abarrotadas, e como, por mera coincidência, são justamente essas que o colunista menciona sempre em sua coluna, chega-se à insofismável conclusão de que essas celebridades são, por vias indiretas —ou não tão indiretas assim—, colunistas sociais de si mesmas, entrando o colunista apenas com o nome e a coluna.

Do mesmo modo, muitos colunistas partem pra auto-louvação: agregam celebridades a si mesmos posando ao lado de celebridades verdadeiras do mundo real. As colunas sociais estão abarrotadas de fotos dos colunistas ao lado daqueles mesmos políticos, artistas, cantores de música baiana, atores globais, jogadores de futebol, putains respecteuses, participantes de reality shows da tv, narcotraficantes e outros mencionados lá atrás.

Donde se conclui que o regime da sociedade sem classes já foi na realidade instaurando no Brasil que nos apercebêssemos disso. Mas a vida é assim mesmo: muitas vezes as coisas já aconteceram e a gente ainda está suspirando por elas. E quando tomamos tento, a festa acabou, a banda silenciou, a luz se apagou e nós não tivemos a chance de posar pra uma foto com aquela formosa morena que se servia de canapés de rabo-de-jacaré ou aquele elegante cavalheiro de cabelos grisalhos que pedia ao garçom um copo de caipirinha de vodka finlandesa. Pena; tinham jeito de celebridades.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

[Cerveja e propaganda de cerveja]

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Em artigo veiculado na Folha de S.Paulo em 18 de dezembro/2009, Rogério Cezar de Cerqueira Leite, físico e professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), esculhamba a qualidade da cerveja produzida no Brasil: "É inexplicável que sejam tão omissas as autoridades brasileiras quando se trata da bebida nacional mais popular e de maior consumo".

Sob o título "A cerveja: bebendo gato por lebre", o artigo desenvolve o argumento de que "aparentemente, o receio era o de que a população cervejeira, ao ser exposta a diferentes e mais sofisticados exemplos, desenvolvesse algum bom gosto e, consequentemente, passasse a demandar cerveja de qualidade. A cerveja brasileira (com pequenas e honrosas exceções) é como pão de forma: mata a sede, mas não satisfaz o paladar exigente".

Não demorou muito tempo pra indústria cervejeira retrucar. Em 30 de dezembro, em artigo sob o título "A cerveja e o orgulho de quem faz o melhor", na mesma Folha, Silvio Luiz Reichert, químico, mestre cervejeiro pela Doemens Fachakademie, da Alemanha, vice-presidente de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico da Anheuser-Busch Inbev. Diz ele que "a indústria brasileira de cerveja zela pela qualidade de seu produto. Ela sabe que seu consumidor é exigente e tem muito bom gosto".

Pra refutar Cerqueira Leite, Reichert argumenta que "para deixar claro que não aprecia o produto que é feito no Brasil e consumido e aprovado pelos brasileiros, o autor se vale de números errados e premissas levianas que não levam à conclusão por ele desejada, a de que a cerveja brasileira é ruim porque elaborada de maneira enganosa, na base da 'malandragem', utilizando-se de produtos de baixa qualidade, ludibriando o consumidor e afastando-o do que o autor considera 'bom gosto'".

Reichert finaliza afirmando que "esse nível de desinformação se choca frontalmente com o patamar de excelência em que se encontra a indústria brasileira de cerveja. Trata-se de um setor que investe permanentemente em pesquisa e inovação, dispõe das mais modernas tecnologias e zela pela qualidade de seu produto porque tem plena consciência de que, diferentemente do que pensa o autor do artigo, seu consumidor é exigente e tem muito bom gosto."

Mas é difícil ficar do lado do cervejeiro. Primeiro, porque os argumentos do físico são mais consistentes. Além de tudo, Reichert é representante da indústria cervejeira brasileira que, pro meu paladar, não faz realmente uma boa cerveja. Não sou exatamente um zitolibador, mas há muito tempo —exatamente desde que Brahma e Antártica passaram a ser manufaturadas pela mesma empresa— noto que a nossa cerveja vem piorando a olhos vistos. Ou bocas degustadas.

E tudo piorou em relação à cerveja brasileira. Sabor, qualidade, durabilidade. Mas vou
ficar numa área que conheço: marketing e comunicação: certa feita, entreouvi num botequim um comentário que me chamou a atenção: "quem faz propaganda de cerveja acha que quem bebe é retardado." Fiquei lucubrando e fui obrigado a dar toda a razão. Meus companheiros publicitários fazem propaganda estúpida pras diversas marcas de cerveja. Utilizam conteúdo abusivo, apelativo ou de mau gosto. No mais, peças são chulas e estúpidas, servindo apenas pra manter o nome da empresa na mente das pessoas.

Vivem de inventar modismos, piadinhas, estilos, turminhas, giriazinhas e tudo mais para insultar o intelecto de quem bebe. O slogan da cerveja mais vendida do mercado é "a cerveja que desce redondo" é estúpido. Se o nível continuar caindo e for, cada vez mais, apelativo, sugiro que proibam propaganda de bebida alcoólica. Assim, pelo menos podemos beber com a consciência tranquila sem ter alguém te chamando de idiota. Ou ouvir "olha a maminha da Renata" ou "experimenta a picanha do Valmor".

Uma cerveja boa mesmo não precisa de propaganda em massa e comerciais a cada 30 segundos para fazer com que você jamais se esqueça dela. Uma cerveja boa precisa de preço e qualidade equilibrados. Uma cerveja boa você bebe uma vez e se apaixona. O fim da criatividade. Publicitários sentem saudades de quando o uso de mulheres seminuas era liberado (e vital) nos anúncios de cerveja. já há algum tempo os publicitários que cuidam da propaganda de cerveja estão sofrendo de um sério déficit de criatividade. Foi-se o tempo em que as pessoas comentavam a veiculação da nova propaganda da cerveja "x" ou "y" no dia anterior.

No princípio era o verbo, a propaganda se apegava a simbologias e mensagens simples, algo que exigisse pouca sofisticação intelectual pro entendimento do público, assim como o baixinho da Kaiser ou um bando de soldados marchando e cantarolando, da Malte 90. O humor raso e a mensagem quase nula fazem parecer que mal existiam publicitários de verdade na década de 1980. Chega os anos 90s e, de repente, fiat lux! Os marqueteiros de plantão associaram os bebedores de cerveja ao gênero masculino e passaram a explorar a imagens de mulheres semi-despidas e jogadores de futebol.

Não interessa que a esmagadora maioria dos homens morra sem nunca namorar uma "loira da Skol" ou uma "gostosa da Schin" ou a "boa da Antarctica", e até mesmo que os bebedores de cerveja estejam longe de qualquer estereótipo dos atletas saudáveis e milionários. O importante é que esse tipo de propaganda combina as mulheres que os consumidores gostariam de ter com os homens que gostariam de ser.

O tempo foi passando e a fórmula mágica quase inesgotável de mulheres gostosas e jogadores de futebol não envelhecia. Os publicitários e suas estratégias não evoluíram, mas a sociedade sim. Movimentos feministas e religiosos entulhavam processos contra as marcas de cervejas que, a cada novo comercial, banalizavam a imagem da mulher como objeto. Propaganda desse tipo tornou-se politicamente incorreta e as constantes intervenções legais trataram de decretar sua extinção. Quanto aos jogadores de futebol, são cada vez mais raros serem requisitados para este tipo de publicidade. Até o consumidor mais acéfalo percebia que o Bebeto, quando fazia o número um a cada gol marcado, nunca tinha provado uma Brahma. Ou mesmo que o Ronaldo, em propaganda mais recente, é incapaz de levar o copo com o precioso líquido dourado à boca.

O mercado publicitário cervejeiro passou por uma fase de pragmatismo. Sem seus principais garotos-propaganda, os publicitários tiveram que apelar para a inteligência e criatividade para manter as dispendiosas contas de cervejas, e isto era o que eles mais temiam. Tartarugas, siris, e toda a fauna brasileira não foram suficientes para despertar qualquer modificação nas vendas de bebidas. Pior, tratou de estimular o consumo entre crianças, que se ligavam na bicharada, para desespero da saúde pública, que constata que o primeiro contato com o álcool ocorre cada vez mais cedo.

Lançar bordões é altamente arriscado na publicidade, pois se eles pegam viram sucesso total, mas se fracassam, o esquecimento e a indiferença do público acabam por desperdiçar todo o investimento de uma empresa. O fato é que, depois do desuso de mensagens superficiais e de mulheres seminuas, falta de talento e mau gosto está virando lugar comum entre os publicitários.

É colossal o consumo de cerveja no mundo, inclusive no Brasil. Em geral esse consumo é puramente hedonista: não se be cerveja como alimento, não se bebe cerveja como remédio, não se bebe cerveja a título de rito ou culto (como acontece com o vinho), não se bebe cerveja por dor-de-cotovelo. Bebe-se cerveja apenas pelo prazer de viver —e de conviver. Os bebedores solitários de cerveja são poucos.

Praticamente no mundo inteiro a cerveja é consumida à temperatura ambiente ou da adega, o que significa ligeiramente mais fria. Nada disso, porém, se compara ao arraigado hábito nosso que demanda a cerveja quase sempre geladinha, embora a propaganda também tenha inventado a bobagem de ser "estupidamente gelada".

Entretanto, fabricantes brasileiros só fazem piorar a qualidade da maioria das nossas cervejas (conheço uma honrosa exceção: Eisenbahn, de Santa Catarina, tão boa quanto difícil de encontrar em nossos bares e supermercados). Concluindo: a qualidade da cerveja brasileira, vai de mal a pior, obrigado. Assim como a propaganda da cerveja brasileira.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

>>>Resposta ao Jamil da Silva

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Novamente recebo algo que você escreveu a respeito do ano 2010 ser o último ano da primeira década do século: "Apelo para o senso comun e acho um nonsense afirmar que o ano de 2010 não pertença aos anos-dez, ou década de dez. Acho isso legítmo por entender que esta cultura foi uma elucubração do senso comum. Não seguiu doutrinas ou conceitos de um possivel sistema cronológico, como os apresentados nos argumentos acima. Estaríamos assim, modificando o estilo do "autor". Pode até ser bem visto pelos padrões da critica científica, mas denoda carência espiritual" (sic).

Mantenho seu texto sem mudanças, apenas pra demonstrar que você ainda precisa apurar seu modo de escrever, para não cometer tantos erros. Quanto aos seus argumentos, não sei a que senso comum (conjunto de opiniões, idéias e concepções que, prevalecendo em um determinado contexto social, se impõem como naturais e necessárias, não evocando geralmente reflexões ou questionamentos) você se refere. Eu, por meu lado, estou apenas me apegando à aritmética mais simples e primordial: uma simples contagem. Já tentei lhe dizer que basta você contar seus dedos pra comprovar que o dez é o último de uma sequência de dez. Simples assim.

Mais: anos dez e década de dez não são a mesma coisa. Anos dez vão de 10 a 19. Década de 10 vai de 11 a 20. Num texto anterior, você observou que "na virada do saudoso século XX, eu tive certa dificuldade em entender esses mistérios. Como poderia o século terminar no ano de 2000, já que no sistema numérico decimal mudamos de ordem a cada dez unidades, ou seja, contamos tudo de zero a nove, mas não temos um símbolo para dez, como tinham os romanos, em seu sistema numérico. Por quê, hein?" Não há mistérios, homem. Há apenas, volto a repetir, a básica aritmética: não sei de onde você tirou a idéia de que "contamos tudo de zero a nove". Ninguém conta nada de zero a nove, mas de um em diante. Repito (talvez com a repetição seu cérebro possa ser colocado em movimento): conte seus dedos.

Você argumenta que "por que dez unidades de uma ordem, representam-se por uma unidade de ordem imediatamente superior e zero unidades da ordem considerada como referência.Representamos dez, contando zero unidades de tal ordem e uma unidade de ordem imediatamente superior (tal-mais-um). Assim: zero,um,dois,três, ...,..., nove, (um e zero),(um e dois), (um e três).Dez não entra na contagem; porquanto não temos simbolo para ele no sistema, pois com ele não se "conta".Melhor dizendo, a partir dele se conta, um e zero; um na seguna ordem e zero na primeira ordem." É ridículo. Gostaria de ver você fazendo somas: os resultados dos seus cálculos seriam muito insólitos.

"Não temos esse costume, e se o utizassemos corretamnte, uma classe deveria ter dez e não apenas três ou quatro ordens.E se continuassemos ainda, teriamos que, dez classes formariam a categoria colegio, por exemplo etc...Como se diz: Toda complexidade é decorrente da necessidade de criarmos categorias para preservarmos a coerência do sistema." Esse argumento é tão absurdo quando tentar provar a quadratura da roda; não merece comentários.

Mais argumentos seus: "você entende contagem no sentido natural, ou como uma enumeração. Mas se ano de nascmento de Cristo fosse o Ano zero, ou marco zero, seria de fácil entendimento o cálculo da primeira década: de zero, inclusive, a nove, inclusive, temos 9+1 = 10 anos contabilizados." Absurdo e irrelevante, até porque o filho de Javé não nasceu no ano zero; nem houve um ano zero.

"Engraçado, Dr. Maribondo, é que usamos exatamente esta convenção na contagem de idades. Ninguém se apercebe do fato de que seu primeiro ano de idade foi o ano zero." Você já notou que primeiro é o ordinal de 1? Logo seu argumento é incoerente: pela sua lógica, zero = primeiro, 1 = 2º, 2 = 3º, e assim por diante. Percebe como sua contagem é burra? "Se os judeus da época de Jesus assim também contabilizavam suas idades, Maria só passou a afirmar que Jesus tinha um ano a partir do segundo ano da era cristã." Ri muito quando li este disparate.

Mais uma vez: conte seus dedos.