sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Galera é a sua turma

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Nunca me refiro a um grupo ––qualquer grupo–– de pessoas como galera. Explico o por quê: quem gosta e estuda as palavras conhece bem o uso político que se faz delas. Desde sempre, esta é uma prática utilizada por governantes, políticos e seus sectários, líderes religiosos, jornalistas e outros detentores do poder. O uso político das palavras joga sabiamente com sua polissemia, de modo que elas têm como verdade o fato de terem diversas verdades. Um exemplo disso é o uso errôneo do vocábulo golpe, pra denominar o impeachment da presidente interrompida Dilma Rousseff.
Por isso, com frequência, grupos diferentes podem vincular seus interesses a este ou aquele sentido possível das palavras. E as lutas a propósito das palavras vão consistir na tentativa de alterar a hierarquia comum dos sentidos para constituir como significado fundamental um conceito até então secundário, ou melhor, subentendido, operando assim uma revolução simbólica que pode estar na origem de revoluções políticas.
É preciso compreender que o discurso, o uso político das palavras, concorre para transformar a consciência humana e livrá-la das mitificações e mistificações, abrindo um campo enorme para a ação dos homens, mediante o uso da razão; mas uma razão despida de sua conotação instrumental e utilitária, uma razão que busca o reencantamento do mundo, um sentido maior do qual somos órfãos, e do qual dependemos visceralmente; uma razão que busca resgatar os valores universais de justiça e paz, e que busca uma nova ética, fundada em bases humanistas e desatrelada do relativismo contemporâneo, desintegrador dos laços sociais.
Nem sempre é assim, claro, muito pelo contrário. Mas deveria ser assim.
Um exemplo clássico de uso político da palavra é o termo pagão. Em Roma, no início do Cristianismo, pagánus era o homem da aldeia, aldeão; cidadão que não era soldado. Mas para desqualificar aqueles que não aderiam à nova religião, os cristãos passaram a adjetivar de pagano como aquele que não foi batizado e era adepto de qualquer religião que não adota o batismo ou adota o politeísmo. Ou seja, pagão era o herege.
O mesmo aconteceria mais tarde com as palavras direita e esquerda, no sentido de ideologia política. A designação de direita e esquerda dada a um e outro antagonista político-social foi mera casualidade topológica. Esquerda é um termo político muito inadequado, embora consagrado em várias línguas, tanto quanto direita. Marx e Engels não usaram a distinção, pois se referiam direta e cientificamente às classes sociais em luta ou a movimento, com qualificação ou sem ela. Lênin só utilizou as palavras esquerda e esquerdismo de maneira irônica.
Galera é a mãe...
Assim, os vocábulos esquerda, centro e direita dissimulam e confundem, porque não refletem claramente a base real de classes e subclasses sociais em que se articula a disputa política, assim como dão margem a entendimentos equivocados devido à sua polissemia. Coisa direita, comportamento direito, é certo, correto, justo, elogiável etc. Conduta esquerda é conduta estranha, canhestra, duvidosa etc. E é bom ter a referência do que se refere a essas posições: direita é destra, esquerda é sinistra —mas a ignorância faz com que a maioria não saiba disso. E sinistra significa perniciosa, trágica, calamitosa.
Ademais, os crentes acham piamente que o diabo existe e é canhoto e tem a cor das esquerdas, o vermelho… Isto tem fundamento numa antiquíssima superstição arraigada nas línguas indo-europeias. A distinção entre esquerda e direita dá margem às tentativas frustrantes e enganosas de taxonomia política de quem ou do que pode ser considerado de direita ou de esquerda. Substitui a análise do caso concreto.
Isso nos leva a outro exemplo: sinistro, que antes nada significava além de canhoto, isto é, quem usa preferencialmente a mão esquerda, mas passou a ser quem pressagia acontecimentos infaustos; agourento, funesto, que é pernicioso; mau. Sinistro era simplesmente o contrário de destro… Mas a crença popular dizia que ser canhoto era ter parte com o Diabo. Muitas outras palavras ganharam novas conotações além da original por mero uso político, além das já mencionadas: analfabeto, burro, discriminação, preconceito, paranoia, ambiente, sustentável, feminismo, corrupção e tantas outras.
Um dos mais recentes exemplos do uso político da palavra é o vocábulo homofobia e seus derivados. O termo é um neologismo criado pelo psicólogo norte-americano George Weinberg, em 1971, na verdade um acrônimo resultante da união da palavra grega phobos (fobia), com o prefixo homo (igual, semelhante), como remissão à palavra homossexual.
Phobos é medo em geral. Fobia é o medo irracional (instintivo) de algo. Porém, fobia neste termo é empregado não só como medo geral (irracional ou não), mas também como aversão ou repulsa em geral, qualquer que seja o motivo. Como qualquer outra fobia, é patológica. É doença. Etimologicamente, o termo mais aceitável para a ideia expressa seria homofilofóbico, que é medo de quem gosta do igual. Mas quem iria usar essa palavra tão escalafobética?
Assim, ficou homofobia mesmo, que é largamente usada pelos gays do mundo inteiro para marcar quem não aprecia o homossexualismo e os homossexuais, com ou sem razão, como se isso fosse crime —como criminalizar uma doença? O jogo político se tornou tão cruento, que hoje é difícil alguém falar abertamente contra o homossexualismo. Se o fizer, logo será taxado de homofóbico e execrado em praça pública.
Boa parte da culpa por esse uso é dos jornalistas, o que é um pecado mortal, pois como diz Alberto Dines, “jornalistas não podem oferecer os seus leitores conceitos enganosos. Jornalistas não deveriam sequestrar o sentido das palavras”. Vão acabar provocando logofobia nas pessoas —e aí estarão mortos como profissão.
Outro termo canhestro é galera. A palavra denominava, na antiguidade, os escravos que remavam pra mover nas águas as galés ancestrais. Ou seja, os remadores eram o substrato da espécie humana. Hoje é uma forma das classes superiores subestimarem os mais humildes. Sempre que alguém está chamando outrem de galera o está inferiorizando, ainda que inconscientemente. Ah!… Portanto, não se refira a mim como galera. Galera é a sua turma.
Há uma frase do filósofo Ludwig Wittgenstein: "Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento”. Simplificando: o bem pensar quase que se confunde com a competência de bem usar as palavras. Traduzindo pra uma linguagem mais moderna, significa que pensamos com as palavras; e quem não sabe usá-las com acerto não sabe pensar.

Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.br
Campo Grande | MS | Brasil

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Cármen Lúcia Rocha assume STF

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Cármen Lúcia Antunes Rocha, jurista e magistrada brasileira, presidente-eleita do Supremo Tribunal Federal (STF), assumirá a presidência da suprema corte brasileira na segunda-feira, 12 de setembro. Nascida em 19 de abril de 1954, ela é a segunda mulher a presidir o STF. Mineira de Montes Claros, formou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais.

A ministra Cármen Lúcia fez nesta terça-feira, 6/set., sua despedida da atuação na Segunda Turma do STF antes de assumir a Presidência da Casa, a partir da semana que vem. No encerramento da sessão, colegas e representantes da advocacia e do Ministério Público ressaltaram suas qualidades como julgadora e desejaram sucesso nas suas novas atribuições como presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Decano do STF, o ministro Celso de Mello abriu a despedida, também em nome dos demais ministros, para expressar seus votos de sucesso à frente da gestão do STF e do CNJ. “São encargos muito desafiadores, os tempos são difíceis, mas sei que a ministra Cármen Lúcia, que tem o apoio e a confiança de todos os juízes da Corte Suprema do Brasil, desempenhará com o talento que lhe é próprio essas difíceis e complexas atribuições”, afirmou.

Presidente da Turma, o ministro Gilmar Mendes somou-se ao decano e compartilhou sua visão sobre a chegada da ministra à Presidência do Supremo. “É uma benção propiciar que chegue à Presidência do STF uma figura tão diferenciada e tão dotada de compromisso com a vida pública e com o espírito republicano como a ministra Cármen Lúcia”.

Em nome do Ministério Público, o subprocurador-geral da República Paulo Gonet Branco também saudou a chegada da ministra Cármen Lúcia à Presidência, e do ministro Dias Toffoli à Vice-Presidência do Supremo, ressaltando que suas “qualidades superiores de julgadores sensíveis e seguros dão causa à alegria de verificar que esta Corte é dirigida pelos melhores padrões éticos e jurídicos”. Em nome da advocacia, o advogado Marco André Dunley Gomes desejou boa sorte à ministra nas novas atribuições, afirmando que a classe acompanha seu trabalho diariamente. “Na Presidência da Casa continuará a atuar com o mesmo brilho”, disse.

“São tardes que adoro, vou sentir muita falta”, respondeu a ministra Cármen Lúcia, observando que ainda deve voltar para trazer algum processo remanescente. “Fui muitíssimo feliz nessas tardes de terça-feira, podendo exercer uma coisa de que eu gosto e tenho gosto de fazer, que é estar aqui participando desses julgamentos. Portanto sou grata a tudo que aprendo com Vossas Excelências, e tenho certeza, vou fazer o que for possível para honrar o cargo de presidente, e contarei com a ajuda de todos em especial, do ministro Dias Toffoli, na Vice-Presidência”, afirmou.




domingo, 4 de setembro de 2016

Choro matinal

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Ary Coelho é o nome da praça, que é suja e malcuidada; ilhas esparsas de grama ressequida parecem sujeiras não varridas; o chafariz estava tão depredado que suas antigas formas estavam, agora, indistintas; os caminhos de tijolos envelhecidos alcatifados de folhas caídas. Quem a visse jamais desconfiaria que, num passado não muito distante, ela fora famosa, lugar para crianças brincarem, velhos descansarem, amantes e enamorados trocarem juras de amor eterno.




Apenas os bancos de madeira, indiferentes à deterioração que um dia atinge a todos os seres e coisas, permaneciam tais quais eram. O local, outrora frequentado por famílias, há muito estava malcuidado ––apesar de reformado não faz muitos anos––, tendo se tornado ermo e perigoso, mesmo no centro da cidade. De vez em quando, drogados ou vagabundos aparece, mas apenas nas primeiras horas da noite —o sol e a falta de abrigo ou sombra tornavam tudo muito desnudo e devassado para quem preferia a escuridão e o segredo.

Mas alguém parece ter se interessado em reviver o encanto da mais central das praças de Campo Grande e, pelo menos aos domingos, promover recitais de música no coreto da Ary Coelho. Coreto?, você perguntará! Sim, um coreto, um desses pavilhões erigidos em praças ou jardins públicos para concertos musicais. E que tipo de música é tocada no coreto. Não pense nessa coisa horrorosa de música sertaneja, mas choro ou chorinho.

E o que é chorinho? Nos primórdios, era apenas uma maneira mais emotiva, ou chorosa, de interpretar uma melodia, cujos praticantes eram chamados de chorões. Como gênero, o choro só tomou forma na primeira década do século 20, mas sua história começa em meados do século XIX, época em que as danças de salão passaram a ser importadas da Europa. O fim do tráfico de escravos, na década de 1850, provocou o surgimento de uma classe média urbana (composta por pequenos comerciantes e funcionários públicos, geralmente de origem negra), segmento de público que mais se interessou por esse gênero de música, que é cultuado até os dias de hoje, embora raramente seja toca nas emissoras de rádio e na Internet.

Neste domingo fui à Praça Ary Coelho assistir a um recital de chorinho no coreto. Quem tocava era a banda Clube do Choro ao Palco, com repertório que vai desde as raízes de Pixinguinha, Nazaré, Chiquinha Gonzaga até os mais modernos como Guinga, Pascoal e Tom Jobim, além de composições autorais de seus integrantes, principalmente de seu líder, Raimundo Galvão, que é violonista e jornalista.

Havia uma pequena plateia neste domingo ––não mais de cinquenta aficionados pelo gênero musical. Mas havia uma justificativa pra um público tão reduzido: era uma manhã de domingo um bocado fria e cinzenta, com o sol escondido atrás de nuvens que pareciam anunciar chuva. A apresentação, que acontece agora todos os domingos, começou às dez horas e foi aberta ao público e foi até o meia dia.

O Regional Clube do Choro foi criado recentemente para ancorar o Clube do Choro de Campo Grande, também criado recentemente pela necessidade de dar continuidade à extinta Confraria do Choro, que acontecia na Vila Alba, com o objetivo de preservar uma corrente autêntica da arte musical brasileira, além de ampliar o gosto do sul-mato-grossense pelo chorinho.

Quem tem um gosto musical que vai além da baboseira tocada nas emissoras de rádio não pode perder o Choro Matinal ––o título do projeto não é este, mas resolvi nomeá-lo assim por desconhecimento de outro nome...


Texto: Luca Maribondo
Fotos: Mary Saldanha & Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.br
Campo Grande | MS| Brasil