domingo, 10 de dezembro de 2017

A cidade dos buracos

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Não precisa pesquisar nenhum estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para chegar à conclusão de que uma das obras que mais crescem em nossos dias em Campo Grande são os buracos (também conhecidos como batocos, boçorocas, covas, depressões, escavações, grotas, sorocas, sorocabuçus —tem um bocado de sinônimos) nas ruas da cidade.

É quase inacreditável, mas em Morenópolis há um buraco a cada 23 metros de rua. Segundo altos mandatários municipais, Campo Grande tem mais de 280 mil buracos neste dezembro de 2017 —deu em noticiários de redes nacionais de televisão não faz muitos dias. E estes números continuam em célere crescimento, apesar das promessas do prefeito morenopolitano de plantão Marquinhos Trad, que já há um ano é o gestor da cidade, levantando a suspeita de que no futuro haverá um território urbano dividido em apenas dois gêneros de espaços: os com buracos e os remendados (não há a perspectiva de haver territórios sem buracos).

Num passado não muito distante ainda era possível trafegar tranquilamente em qualquer rua, sem ter de praticar slalom (percurso sinuoso entre obstáculos, ou seja, zigue-zague). As ruas pertenciam ao cidadão. Agora pertencem aos fazedores, consertadores, tapadores e outros especialistas em buracos. Hoje é impossível os condutores dos mais diversos tipos de veículos (motos, automóveis, caminhões, carrinhos de pipoca, bicicletas, velocípedes etc.) trafegarem pelas vias públicas sem ter de desviar-se ou cair nas covas que matam molas, amortecedores e outras partes dos semoventes e, infelizmente, pessoas do gênero humano.

Depois de anos de estudos, concluiu-se que o buraco —como centenas de outros tipos de mobiliário urbano(?)— também é uma consequência do progresso, embora alguns historiadores afirmem que o fenômeno seja mais antigo, tendo surgido quando o homem das cavernas teve de sepultar o primeiro parente morto. Em Campo Grande cai uma lágrima de chuva e faz logo um furo no chão. Passa um Corolla, uma Brasília amarela, a picape de um botinudo desabotinado —entra e salta, bate e alarga. E surge a primeira utilidade do buraco, que é o de sítio de despejo. E ali se podem despejar muitas águas: a suja, a de sabão, do banho do rebento, a das sobras das comidas e até, de outras sobras que são um tanto, digamos, escatológicas.

E cheira mal? E como cheira. É o cheiro da presença do pior dos seres criados pela natureza —ou por Javé, a partir da sua divina imperfeição. Os buracos se ampliam e aumentam de número. Agora já não é mais um buraco sozinho ou vazio —tem lama. Lama de todas as cores (que o buraco não é racista): tem a branca de areia, vermelha de barro tijolento e a escurinha, que é da mesma cor dos dejetos. Passarão os dias e será uma lagoa cheia de muitos outros viventes: baratas, moscas, mosquitos, limos, águas fétidas onde nadam pererecas e cobras d’água.

E cuidado! Não despeje sal na água dos buracos. Se fica salgada você pode ter no tal buraco bichos como baleia, arraia (até arraia miúda) e tubarão, entre outros. É um perigo para a criançada que toma banho e não sabe que pode morrer de morte comida. Tubarão é bicho que mata quando é peixe, e come tudo da gente se é pessoa. Mas, ao contrário do que se diz, a água do buraco não está ali só pra provocar doenças e quebrar carros —também educa. O buraco da rua é, verdadeiramente, uma escola do ócio e do lazer. Ali aprendem as crianças a arte de pescar, de navegar e de nadar. Ali aprendem os meninos a defender a sua propriedade, enxotando e vituperando os rivais. Conhecem a lei: no buraco das pescas só pesca o próprio dono do peixe.

É também óbvio que os buracos têm uma vigorosa vertente ideológica. São buracos democráticos —todos, sem qualquer discriminação, podem cair com seus veículos, enche-los de lixo ou destroncar os tornozelos. São para todos, o banho das crianças e as retretes dos adultos apertados. Ainda mais: fornecem água gratuita para quem quer lavar a roupa. Cheiram mal para toda a gente. Não escolhem nariz, nem posição social. Quem passa, cheira. Quem não cheira, é porque não passou —ou perdeu o olfato. Dividem por todos as doenças típicas dos buracos, tais como zica, dengue, chicungunia e outras, que matam a todos sem discriminação. Só não podem matar político, porque político não usa as ruas esburacadas (portanto, não caem em buracos) e filho de político estuda fora.

Todos sabem que os buracos fazem parte do patrimônio da cidade. Patrimônios histórico e turístico —e econômicos, porque proporcionam trabalho e lucros pra, mecânicos, borracheiros, empreiteiros, furadores etc., além de corruptos em geral. Dizem até que o prefeito está pensando em criar a Secretaria do Planejamento, Perfuração e Conservação do Buraco (Seplaperconbu), exatamente pra administrar as vantagens de ter buracos nas ruas da cidade —e lembrando que, a cada vez que se tapa um buraco, perde-se uma história.

Porém, os motoristas de toda a cidade têm enorme ojeriza ao buraco. A resistência do condutor, do ponto-de-vista psicológico, é compreensível. Vive tão atolado em dívidas e impostos que ainda não se acostumou a ter que pagar para ter ruas esburacadas e perigosas. Teófila Putifunda, moradora da Chácara dos Poderes, faz sua queixa: "caindo em no mínimo sete buracos todos os dias, o mínimo que se ganha são sustos, pneus desinflados, amortecedores destroçados etc. Quanto é que isso dá no fim do mês?" Uma fortuna, diz ela. Teófila conta que tinha um Corcel 77, mas na quarta prestação foi obrigada a vendê-lo a um ferro-velho. Não podia pagar os consertos do automóvel.

O problema, por conseguinte, também atinge as indústrias de automóveis, que procuram tomar suas providências para não reduzirem a produção e perderem as vendas. E em neste 2017 é muito provável que os carros já venham equipados com mini-usinas de asfalto, pás, enxadas, retroescavadeiras, rolos-compressores etc. Talvez não resolva o problema, mas vai fazer crescer a indústria e o comércio de maquinário rodoviário do município.

Quando candidato, ainda em 2016, o prefeito de plantão Marquinhos Trad prometeu exterminar todos os buracos da cidade em curtíssimo prazo. O doutor Trad seria o Exterminador de Buracos Monepolitano, o Janot das covas de ruas, becos e vielas. Trad bem que tenta, mas o serviço é tão malfeito que quando um buraco é fechado num dia, logo ressurge no dia seguinte —e já faz um ano que o doutor Trad vem tentando, sem êxito, porém. É como se os buracos sentissem saudades de seus lugares nas vias públicas e voltassem sempre. E com muitos irmãozinhos, filhinhos e outros aparentados. E o Trad Exterminador de Buracos continua sendo um desastre.


Luca Maribondo
Nostromo |Campo Grande | MS | Brasil

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Preconceito do bem

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Hoauiss, o dicionário, define preconceito como "qualquer opinião ou sentimento, quer favorável, quer desfavorável, concebido sem exame crítico ou ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão". E complementa: "atitude, opinião, argumento insensato, não raro de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância —contra um grupo religioso, nacional ou racial".
Para o dicionário, um dos mais importantes da língua vernácula brasileira, é "o conjunto de tais atitudes, geralmente negativo e hostil, que leva ao julgamento de objetos, opiniões, condutas e pessoas independentemente de suas características objetivas e se exprime ou é gerada por crença estereotipada".
O site Significados (significados.com.br) abona: "preconceito é um juízo pré-concebido, que se manifesta numa atitude discriminatória perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento. É uma ideia formada antecipadamente e que não tem fundamento crítico ou lógico". A definição é, digamos, um tanto preconceituosa: "o preconceito é resultado da ignorância das pessoas que se prendem às suas ideias pré-concebidas, desprezando outros pontos de vista, por exemplo. Na maioria dos casos, as atitudes preconceituosas podem ser manifestadas com raiva e hostilidade".
Evidente que o preconceito pode ser fruto de uma personalidade intolerante, geralmente fruto da ignorância —o preconceito tende a reduzir-se em virtude do maior conhecimento das pessoas. Existem diferentes manifestações e tipos de preconceito e suas formas mais comuns são o preconceito social, religioso, político, racial e de gênero (sexismo, misoginia, homossexualismo etc.). Nas características comuns a grupos, atitudes preconceituosas são aquelas que partem para o campo da agressividade ou da discriminação, embora preconceito e discriminação sejam coisas diametralmente diferentes.
Ainda segundo o Significados, "o preconceito faz parte do domínio da crença por ter uma base irracional, não do conhecimento que é fundamentado no argumento ou no raciocínio".
Mas todo preconceito é ruim como difundem os politicamente corretos da vida? Certamente que não. François Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire (1694-1778), filósofo e escritor francês, um dos grandes representantes do Movimento Iluminista em França, diz que não. Em seu "Dicionário Filosófico", Voltaire argumenta que "há preconceitos universais, necessários, e que constituem a própria virtude". Por isso, continua ele, "(...) ensina-se às crianças a reconhecer um Deus remunerador e vingador; ensina-se a respeitar, a amar os pais; a considerar o roubo como um crime, a mentira interesseira como um vício, antes que possam imaginar o que é um vício e uma virtude".
Donde se conclui que os preconceitos nem sempre são coisa ruim, mas há aqueles que são muito bons para as relações sociais e políticas —"são aqueles que o juízo ratifica quando se raciocina", observa o filósofo francês. Afirmar que preconceito é sempre ruim é uma grossa bobagem. Até porque não há fé, crença, proselitismo, fanatismo sem que haja algum tipo de preconceito. E.g.: o homem comum não poderia aceitar a existência do Deus único ou os deuses sem que houvesse uma forte dose de preconceito
E há uma outra questão. Pode-se dizer que numa sociedade de cognições abstratas como a nossa quanto à realidade das coisas é um mundo prenhe de preconceitos positivos. Sem estes, não seria possível viver no planeta. Como se poderia aceitar, sem ser um cientista ou teólogo, a rotação da terra em redor do sol, a lei da gravidade, a fé etc.? Os preconceitos positivos dão a oportunidade de definir um mundo mais adequado à frágil vida humana na Terra, em que as forças naturais são esmagadoras para todos.
Dá-se a oportunidade de trabalhar para esclarecer o mais possível todos os mistérios que se ocultam nos seres animados e inanimados que cercam a criação e, com isso, construir este mundo tecnológico dentro do qual abriga-se todas as sociedades humanas e sem o qual não se poderia sobreviver. Não sem o preconceito do bem.

Luca Maribondo | lucamaribondo@uol.com.br | Campo Grande | MS | Brasil

sábado, 2 de setembro de 2017

Curtas & finas 2

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Prende-solta
prende-solta está se tornando uma prática contumaz em todo o país. Depois do ministro Gilmar Mendes, do STF, haver rebentado os cadeados de corruptos fluminenses, foi a Justiça guaicuru que libertou todos a dúzia de detidos durante a Operação Antivírus do Gaeco nesta semana. Além do ex-deputado estadual Ary Rigo, foram liberados na noite de quarta-feira (30/ago.) todos os outros. O cidadão campo-grandense comemora com ardor inusitado. Pra que lotar a cadeia com mais doze corruptos, se é o cidadão que, no final das contas, paga a despesa?!
Mal assessorado
Governo de Mato Grosso do Sul demonstra, com o episódio do Decreto Normativo 14827, como as coisas andam disparatadas pelas bandas do Parque dos Poderes. Firmado pelo governador Reinaldo Azambuja Silva em 28 de agosto/17, o decreto visava regular "o uso da área denominada 'Parque dos Poderes', espaço territorial onde está concentrado o centro político-administrativo do Estado, com a finalidade de preservação do meio ambiente e da ordem e da segurança públicas". O decreto governamental sair eivado de erros, alguns bem grosseiros —erros legais (ferindo inclusive a Constituição Federal, gramaticais, vernaculares, explicativo e outros. E.g., o documento não define os limites do Parque dos Poderes", fere o capítulo dos Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos da Constituição, e até inventa palavras, tal como autofalante, que nem os servidores do Estado sabem explicar o que seja. OP governador tem que alterar o documento um dia depois, mas muitos dos erros permaneceram no decreto alterado. O governador anda muito mal assessorado.
Cidadão sofre
Continua difícil a Prefeitura de Campo Grande solucionar os problemas da área de saúde. Das grandes às pequenas questões, tudo tem falhas. No Centro de Especialidades Médicas (CEM) da Secretaria de Saúde, por exemplo, estão faltando medicamentos, alguns para doenças graves, porque, segundo servidores, "as licitações estão atrasadas". E ninguém explica quanto essas concorrências serão retomadas. E o cidadão a sofrer.  
Parco
A Câmara Municipal de Campo Grande aprovou, na semana que passou, projeto de lei, de autoria dos vereadores Gilmar da Cruz (PRB) e João Mattogrosso (PSDB), que propõe a instalação de parklets na cidade. Em nota, a casa afirma que o projeto é bom "por beneficiar o comércio local e desenvolver a urbanização da Capital". Criado na cidade de San Francisco, na Califórnia (EUA), no início da década, o parklet é uma extensão da calçada que funciona como espaço público. Pode até ser uma ideia interessante, mas precisa ser bem administrada —e boa administração é algo muito parco em Campo Grande.
Câmara quer parklets em Campo Grande
Saco cheio
Tem tempo que o ambiente está poluído. A situação, comum em espaços contaminados por lixo, fumaça ou gases, também pode ser ombreada ao ambiente político. A sociedade não mais suporta o enorme volume de prisões, escândalos, disputas, denúncias e desvios, os mais variados, envolvendo autoridades, políticos, governantes, juízes e empresários. E mais: as pessoas estão saturadas da volumosa cobertura da mídia relatando os malfeitos dos atores políticos. O cidadão está de saco cheio e exige a repaginação do livro do Estado.
Ladrão geral da República
Deu no site do Estadão deste sábado, 2/9/17: "em resposta à nota divulgada na noite de ontem pelo Palácio do Planalto, o empresário Joesley Batista, da JBS, chamou o presidente Michel Temer de 'ladrão geral da República'. Também por meio de nota, o empresário disse que Temer envergonha o país e pede que ele respeite o instituto da delação premiada. 'A colaboração premiada é por lei um direito que o senhor presidente da República tem por dever respeitar. Atacar os colaboradores mostra no mínimo a incapacidade do senhor Michel Temer de oferecer defesa dos crimes que comete. Michel, que se torna ladrão geral da República, envergonha todos nós brasileiros', diz o empresário, por nota".
Melhor idade?
Em Campo Grande, a Prefeitura Municipal anuncia a criação de um projeto de habitação para idosos, finalmente anunciando a concretização de algo previsto no Estatuto do Idoso. As casas, em um condomínio fechado, serão locadas aos idoso "por preços compatíveis com seus rendimentos", de acordo com nota da Assessoria de Imprensa da Prefeitura. O projeto ganhou o título um tanto rebarbativo de Vila Melhor Idade —quem chama idade avançada de "melhor idade é porque nunca foi velho.
A volta do coronel
Já tem gente na área política falando num possível retorno do ex-prefeito e ex-governador André Puccinelli, o Coronel da Toscana, ao cenário político de Mato Grosso do Sul. Um dos primeiros passos do chefe político será buscar a presidência do seu partido, o PMDB, pra organizar suas hostes para as eleições de 2018 —presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Isso tudo, se não rolar problemas com a Justiça em futuro não muito distante.
Ladrão geral da República
De modo geral o brasileiro tem a sensação de que o Brasil transformou-se numa imensa delegacia de polícia. Os organismos policiais dominam a crise política. Diariamente o cidadão presencia prisões, delações, denúncias etc. e tal, ou envolvendo políticos ou protagonizadas por empresários. Principalmente a Polícia Federal rotineiramente cumpre os mandados autorizados pelos magistrados. As operações em sequência ampliam o contencioso da operação Lava Jato. Cada detenção de políticos —parlamentares, ex-ministros, ex-governadores, impacta negativamente a imagem do Governo. Tem-se a impressão de que há uma estratégia bem definida para estreitar a margem de articulação governamental. Uma cadeia de fatos se estabelece: os deputados assustam-se com as prisões e fazem ilações sobre os efeitos que essas detenções geram na sociedade. E começam a tomar decisões que garantam suas sobrevivências no palco da política. Estão todos com os olhos fixados no futuro, nas eleições de 2018. E nesse palco, vão decidir um novo pedido de investigação do presidente Michel Temer, o temeroso, feito pelo procurador Geral da República. O presidente foi até chamado de ladrão geral da República.
Luca Maribondo|lucamaribondo@uol.com.br|Campo Grande|MS|Brasil

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Curtas & finas 1

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Previdência mal gerida
Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal de Campo Grande anunciou a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar irregularidades cometidas no Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (Impcg). O Impcg compreende a Funserv, Servimed e Previcamp. Os vereadores irão investigar denúncias de má gestão entre os anos de 2012 a 2017, o que provocou ineficiência financeira da autarquia. O documento que provocou a criação da CPI contém 51 páginas e dezenas de anexos foi elaborado com base em seis meses de trabalho de vereadores, que identificaram uma série de irregularidades no instituto, responsável pela gestão da previdência dos servidores públicos municipais.
Fufuca
Presidindo a Câmara Federal, o deputado maranhense André Fufuca (PP) conduzirá reunião nesta terça, 29 de agosto/17, com os líderes dos partidos para discutir o calendário de votação da reforma política. Foi orientado pelo presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), que assumiu interinamente a Presidência da República por conta da viagem de Michel Temer à China, a tentar pautar a votação do projeto —ou o que sobrar dele— ainda nesta semana.
Pra ajudar nas discussões
Um dos meus livrinhos de cabeceira chama-se "A Arte de Ter Razão", de Arthur Schopenhauer. Quer convencer alguém? Ponha o livrinho, que trata de erística, no seu receituário pra enfrentar as discussões com alguns estratagemas dos 38 que Schopenhauer apresenta no texto. Eis cinco que pincei do livro"
Nº 1. Ignore a proposição do seu oponente, destinada a referir-se a alguma coisa em particular. Ao invés disso, compreenda-a num sentido muito diverso, e em seguida refute-a. Ataque algo diferente do que foi dito.
Nº 2. Use significados diferentes das palavras do seu oponente para refutar a argumentação dele. Exemplo: a pessoa diz: "Você não entende os mistérios da filosofia de Kant". A pessoa B replica: "Ah, se é de mistérios que estamos falando, não tenho como participar dessa conversa".
Nº 3. Leve a proposição do seu oponente além dos seus limites naturais; exagere-a. Quanto mais geral a declaração do seu oponente se torna, mais objeções você pode encontrar contra ela.
Nº 4. Use as crenças do seu oponente contra ele. Se o seu oponente recusa-se a aceitar as suas premissas, use as próprias premissas dele em seu favor. Por exemplo, se o seu oponente é membro de uma organização ou seita religiosa a que você não pertence, você pode empregar as opiniões declaradas desse grupo contra o oponente.
Nº 5. Oculte a sua conclusão do seu oponente até o último momento. Semeie suas premissas aqui e ali durante a conversa. Faça com que o seu oponente concorde com elas em nenhuma ordem definida. Por essa rota oblíqua você oculta o seu objetivo até que tenha obtido do oponente todas as admissões necessárias para atingir o seu objetivo.
Por uma cidade mais desumana
Apesar da jactância do prefeitinho Marcos Trad, o trânsito de Campo Grande continua caótico. Um exemplo disso é a rotatória encruzilhada da Via Parque com a Avenida Mato Grosso, inaugurada recentemente com pompa e circunstância. Colocaram na circunferência bem uns dez semáforos para regular e orientar o tráfego no local, mas apenas para os condutores de veículos —ninguém se lembrou dos pedestres, que é quem mais pena com a falta de uma sinalização específica. Nas ruas da cidade existem uns poucos semáforos para pedestres mas apenas uns poucos em operação. Na década de 1970 o então prefeito Marcelo Miranda adotou o lema por uma cidade mais humana; Trad vai na contramão (com as escusas pelo trocadilho): por uma cidade mais desumana.
Transparência
No portal do Supremo Tribunal Federal (STF), quem acessar o menu Transparência poderá ver os gastos com remuneração, passagens e diárias, entre outros itens, dos ministros e servidores da corte. As informações relativas aos salários dos servidores estavam disponíveis no site do STF, mas de forma consolidada e não com a sua destinação esmiuçada, como começou a ser feito agora.
Luca Maribondo | lucamaribondo@uol.com.br | Campo Grande | MS | Brasil

sábado, 26 de agosto de 2017

Testemunha ocular da história

 ¬Em 1811, dois médicos portugueses, Vicente Pedro Nolasco da Cunha e Bernardo José de Abrantes e Castro, lançaram em Londres, a mando e sob a proteção dos representantes lusos, o Investigador Português, que começou a circular em julho daquele ano, recebendo aqueles "jornalistas" uma pensão para mantê-lo. Era o início daquilo que o general e historiador Nelson Werneck Sodré chamou, em seu livro História da Imprensa no Brasil, de imprensa áulica.
Daí surge uma pergunta óbvia: que vem a ser um áulico? O jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP Eugênio Bucci tem uma resposta: "a palavra vem de outras paragens. Com origens que remontam ao grego (aulikós), passando pelo latim (aulicus), ela ressurgiu no século XVI com o sentido de 'cortesão', de 'palaciano'. Hoje, designa aquele que enaltece e glorifica o poderoso. Se o poderoso em questão se encontra instalado no Estado ou aboletado no comando das legiões oposicionistas, é o de menos. Qualquer poderoso, esteja onde estiver, nutre estima por seus áulicos, aqueles amigos solícitos que riem de suas piadas, acendem seus cigarros e, quando conseguem atrair um microfone, elogiam os dotes visionários do chefe".
Diz ainda Bucci que, "para ser um áulico, o sujeito não pode querer pensar muito, pois, se muito pensar, sua lealdade ao chefe deixará de ser assim tão constante, tão canina. Não obstante, eis que começam a pipocar áulicos que se emprestam ares de intelectuais independentes".









Naquela época, depois do Investigador Português, surgiram no Brasil, como é do conhecimento de todos, inúmeros jornais ligados ao poder, que configuraram a tal da imprensa áulica, cortesã, puxa-saco. E é instigante, para reflexões de todos, saber que a palavra aula tem a mesma raiz de áulica. Bom saber que aula, em português antigo, significava também corte, palácio. E a imprensa áulica existe até hoje em todo o Brasil —regiamente remunerada, tanto pessoa jurídica, como pessoa física, pra agir como aduladora dos poderosos.
Há alguns dias houve um exemplo claro da postura áulica de boa parte da mídia em Campo Grande. Depois de mais de dois anos da divulgação do nome da empresa vencedora da licitação para reformulação da encruzilhada das avenidas Prof. Luís Alexandre de Oliveira, Nelly Martins (Via Parque) e Mato Grosso, finalmente a Prefeitura da cidade entregou a obra concluída, com uma festa de inauguração promovida pelo prefeito Marquinhos Trad com a cumplicidade do governador Reinaldo Azambuja.
E ai de quem ousasse invectivar o prefeitinho Marcos Trad. Receberia logo um passa-fora deseducado. Eu mesmo recebi uma repreensão porque escrevi numa mídia social a seguinte frase criticando o caos na saúde publica municipal: usando um linguajar pra lá de tatibitate, o prefeito Marquinhos Trad finalmente foi a público explicar a lambança na saúde pública na Morenópolis; e argumentou também a respeito das desavenças com a Santa Casa, maior hospital do Estado. Falou ao vivo para a TV Morena, mas não explicou realmente nada. E, como diria a famigerada Zulmira (tia do cronista Stanislaw Ponte Preta), "quando a desculpa é gaguejada é porque a explicação está errada". Um de seus jornalistas de algibeira logo respondeu: "quanta bobagem"! —isso sem qualquer argumentação lógica.
A um custo de 1,6 milhão de reais, cuja maior parte saiu dos cofres do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul. Mas foi o prefeito Marquinhos Trad que comemorou salientando que “estamos inaugurando aquilo que era um problema para todos os motoristas que usavam essas vias. São mais de 35 mil veículos que transitam pelas avenidas Mato Grosso e Nelly Martins, tanto no sentido centro, quanto no sentido Parque dos Poderes e toda a Região Norte da nossa cidade. Um serviço econômico, de alta resolutividade (sic) e que vai atender aos anseios de todos aqueles que aqui passam”, segundo nota da assessoria de Comunicação da Prefeitura.
Assim, na quarta-feira, 16 de agosto/17 a obra da mencionada rotatória das avenidas Mato Grosso, Prof. Luís Alexandre de Oliveira e Nelly Martins foi inaugurada com pompa e circunstância. Festa pra inaugurar reforma de rotatória e instalação de semáforos luminosos é um disparate. Entretanto, não se leu na mídia local nenhuma crítica nem dos veículos de comunicação, nem dos jornalistas, numa demonstração do aulicismo mais contumaz.
Outro exemplo do aulicismo dos comunicadores campo-grandenses é o aniversário da cidade. Nos textos jornalísticos e no material publicitário difundidos para comemorar a data neste ano de 2017 a gente é informada de que Campo Grande está festejando 118 anos, o que não é verdade, mesmo porque José Antônio Pereira e seus companheiros, fundadores da cidade, aqui chegaram em junho de 1872, há 145 anos, portanto.
Em agosto de 1972, o então prefeito Antônio Mendes Canale, promoveu uma grande festança pra comemorar o primeiro centenário daquela que viria a ser a capital de Mato Grosso do Sul. Depois, em agosto de 1999, o então prefeito André Puccinelli comemorou novamente o primeiro centenário da cidade, nesta época já ungida capital do MS. Parece piada, mas não é: num período de 27 anos, Campo Grande (e os campo-grandenses ignorantes a reboque) festejou duas vezes os seus primeiros cem anos.
Você, leitor, já leu algum material jornalístico analisando essa falta de respeito com a história da cidade? Não, né? Nem eu. Em 1999, o dr. Puccinelli, muito festeiro, distribuiu dinheiro a rodo pra comemorar o primeiro centenário da cidade e ninguém escreveu uma linha pra criticar o senhor prefeito de então. Mas que importância tem a história? Para o campo-grandense aparentemente nenhuma.
Só que não é bem assim. Como escreveu o historiador Eric Hobsbawm, "o passado continua a ser a ferramenta analítica mais útil para lidar com mudança constante (...)". A evolução política e social de todas as sociedades somente se configura através do estudo das relações entre passado, presente e futuro, e isso somente se espelha na amplitude e importância do conhecimento da história de um povo. O jornalista é uma espécie de testemunha ocular da história, porém seu testemunho só é válido se ele agir por conta própria, sem a remuneração de um amo e senhor.
¬Luca Maribondo | lucamaribondo@uol.com.br | Campo Grande | MS

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Pelo andar da ambulância


Bilhetinho pro prefeito

Caro Dr. Marquinhos
Estou aqui diante da tela do meu computador lendo a respeito do caos do sistema de saúde de Campo Grande, cidade que, como se sabe, o senhor deveria administrar bem. Diante do espaço branco e brilhante que imita uma folha de papel sulfite bem à minha frente fico imaginando qual seria a sua reação se fosse obrigado a usar os serviços de saúde (ambulatórios, hospitais, postos de saúde etc.) do Município, tido como rico e bom pra morar, feito "para viver e ser feliz", como afirma o slogan da sua administração.

Enquanto escrevo, estou pensando nos problemas que a população mais carente enfrenta quando necessita dos serviços públicos de saúde. E lucubro em qual seria a sua reação se chegasse diante do portão da Santa Casa, o maior hospital do Estado, com o dedo minguinho da mão esquerda decepado e o porteiro do nosocômio o barrasse (quem se importa com o minguinho?!). E se o senhor fosse com suas filhas sentindo dores de barriga? Ou qualquer outro desses pequenos e grandes problemas que afetam a saúde de todos nós, pobre ou ricos? O que o senhor faria se fosse impedido de receber os serviços do hospital.
Apesar de ser considerada rica, Campo Grande vem sofrendo com a falta de dinheiro há décadas graças às más gestões. Sei que o problema da saúde no Brasil não é apenas de falta de dinheiro, mas também da má gestão dos recursos. Há carência de gestão definida e qualificada. Há muita corrupção, fraude, corporativismo. Isso precisa ser solucionado e se resolve com gestão apta e qualificada e também com custeio adequado, algo que parece inexistir em sua administração.
Sabe-se que a gestão da saúde pública é muito complexa e exige capacidade, habilidades e qualificação continua. E interesse dos gestores. O que definitivamente não existe na Prefeitura de Campo Grande. A saúde morenopolitana vai de mal a pior. E o senhor, claro, sabe muito bem disso, né não?
A gente nota que, além da falta de recursos, a distribuição desses recursos não se dá de forma equitativa. Inúmeros bons serviços existentes não são acessíveis a todos e a qualidade deixa a desejar em muitas situações. Muitos daqueles que precisam de atendimento não conseguem por causa das longas as filas de espera para consultas, medicamentos, exames e cirurgias.

Sabe-se que saúde é o bem maior das pessoas e, por isso, o povo brasileiro merece atenção e respeito. Dr. Marquinhos, é preciso dar um basta nessa situação horrorosa que só amplia o sofrimento das pessoas, especialmente dos mais pobres e carentes. O senhor nem aparece pra explicar pra todos nós o que está acontecendo —o senhor precisa botar a cara a tapa e contar pra gente porque a saúde morenopolitana vai tão mal e o que vai fazer pra consertar e concertar as coisas. Pelo andar da ambulância, papai do céu vai castigar o senhor.
Luca Maribondo

Campo Grande | MS | Brasil

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Apesar do povo

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Nos alfarrábios políticos, explica-se que democracia é a forma de governo em que os membros de uma sociedade atuam como planejadores, autores e executores na elaboração política —a isto se dá o nome de democracia direta—, ou são representados por um grupo de pessoas que realizam essa elaboração por deputação —a este sistema dá-se o nome democracia representativa.
Como qualquer sistema político, a democracia contém inúmeras imperfeições em seus princípios filosóficos, sociais, de planificação e operacionais, em virtude do desenvolvimento dos partidos políticos, movimentos, grupos de interesses, redes sociais e outras instituições confluentes e influentes, e o fato dos valores defendidos por parte dos membros de uma democracia serem considerados, por eles, como de mais importância que a preservação da democracia como forma de governo, a aplicação do termo a qualquer Estado existente pode estar predisposta a críticas.
No seu Dicionário de Análise Política, Geofrey Roberts ensina que (...) pode-se, inversamente, alegar que o termo descreve a forma de governo até de Estados comunistas e totalitários, sob o fundamento de que as mudanças de relações econômicas encontradas apenas em sociedades comunistas constituem condição preliminar essencial de participação igual, na política, de todos os cidadãos. Assim, como categoria de classificação real, é menos eficiente que alguma forma de tipologia de governo baseado, por exemplo, no número de partidos políticos, no tipo de sistema eleitoral ou na forma de relações de legislativo e executivo.
Resumindo, democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo, apesar do povo. Diz-se que há uma democracia no Brasil, no país, porém, o sistema democrático começa na votação e acaba na apuração. Simples assim. No entanto, se a democracia neste país é relativa, a corrupção é absoluta. Na verdade, o Estado Brasileiro é, hoje, uma cleptocracia, até porque no Brasil, a Justiça é cega, o Governo é surdo, o Povo é mudo. E, pra completar, o legislativo é a ave de rapina que transforma a democracia em patavina —e a política é materializada por homens sem honestidade, sem ideais e sem grandeza, com as exceções de praxe.
Tem que, em Pindorama, a diferença entre circo e política é que no circo os palhaços estão no picadeiro, os gestores estão na bilheteria e o público está na plateia. Na política, o público está no picadeiro, os palhaços estão na plateia e os gestores se mandaram levando a bilheteria. Por conta disso, o maior problema da democracia por estas bandas é que a maioria não é democrata —aliás, a grande maioria do povo brasileiro nem sabe o que é democracia.
Se você perguntar pra dez pessoas o que é democracia?!, onze delas não saberão do que você está falando.
E o povo? Ora, o povo!...
De algum tempo para cá adotou-se, não só no Brasil, mas em boa parte do planeta, um esquerda volver! Por acá, um partido dito de esquerda assumiu o poder. Mas por conta de divergências e da adoção da corrupção como prática generalizada, o sistema não funcionou e o país andou pra trás. A esquerda não conseguiu implementar seus planos e agora precisa ser analisada sob dois ângulos: um positivo, pois estimula o despertar das massas populares inertes; por outro lado, implica risco de que a burguesia, alertada e temerosa, resolva agir preventivamente e restrinja ainda mais essa democracia. É importante que os partidos de esquerda, hoje perdidos num esforço eleitoreiro desgastante, mudem de discurso e de conduta. E que os partidos de direita abandonem o conservadorismo e o revisionismo.
Afirmar que há uma real e verdadeira democracia no Brasil é algo um bocado hilariante, embora seja trágico. Gente tida com inteligente, culta, séria, informada, afirma que há, "graças a Deus!", mas é complicado imaginar que desta forma possa haver uma conscientização política formadora de pessoas ativas e conscientes do interesse público (não se pode dizer que não há, mas que são poucos, ou melhor, raros). Contra os otimistas, entende-se que essa é a maneira por “excelência” de se fazer política no Brasil. E, se estiver certo, o que quer que exista aqui ou é contrário à palavra “democracia” ou tem outro nome, que ainda não se inventou. Na verdade, como país estamos longe da tão sonhada democracia. Temos é uma democracia estrambótica.

Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.br
Campo Grande | MS | Brasil

domingo, 23 de julho de 2017

Direção ofensiva

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Agência responsável pelo trânsito em Campo Grande, a Agetran alega, em estudo divulgado recentemente, que "excesso de velocidade e a imperícia dos condutores por falta de habilitação (sic) —falta de carteira de habilitação é motivo pra imperícia?— para dirigir foram responsáveis por mais de 45% dos acidentes com vítimas fatais registrados no último ano em Campo Grande, conforme levantamento dos órgãos integrantes do Gabinete de Gestão Integrada de Trânsito (Ggit)".
De acordo com o documento das autoridades do trânsito, "os números que compõem estudo do programa 'Vida no Trânsito', coordenado em Campo Grande pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), e que tem por finalidade desenvolver ações intersetoriais de vigilância, controle e prevenção das mortes e lesões no trânsito, são preocupantes".
Segundo o levantamento, nos últimos dois anos e seis meses foram registrados mais de 200 acidentes de trânsito com vítimas fatais na área urbana da cidade —96 em 2015; 83 em 2016 e 36 no primeiro semestre de 2017. Para as autoridades municipais, as principais causas dos acidentes de trânsito são alta velocidade, condutor sem habilitação (sic), dirigir alcoolizado, avançar semáforo, desrespeito à sinalização, problemas na infraestrutura, transitar em local impróprio, falta de visibilidade, dirigir em local proibido, conduzir falando ao celular e outros que tais.
Apesar de mencionar o problema com a infraestrutura, a otoridade prefere ignorar a parte que lhe cabe e às instituições na esculhambação no trânsito da cidade. Acontece que o poder público tem uma gorda cota de participação nas falhas no sistema de circulação de Campo Grande, a Capital do Estado, falhas essas que vão do planejamento à manutenção das vias públicas, passando por sinalização, construção, educação, fiscalização etc. etc. e tal. Há uma grande insegurança no trânsito da cidade e as autoridades, demonstrando ineficiência e ineficácia no exercício da própria função, jogam toda a culpa no cidadão e fogem da sua responsabilidade como gestores do trânsito.
A sensação de impotência afeta os cidadãos. O poder público, cada vez mais inerte, se pronuncia de maneira confusa e pouco eficaz. A violência atinge patamares assustadores e os acidentes graves já estão incorporados à rotina de todos, seja nos grandes centros urbanos ou nas pequenas localidades —e Campo Grande não está entre as exceções. Colisões, abalroamentos, atropelamentos viraram fatos corriqueiros no dia-a-dia da população.
Não há qualquer justificativa para acidentes que tiram de forma tão absurda a vida das pessoas, principalmente sabendo-se que todos eles podem ser evitados na medida em que o condutor dirija com responsabilidade e respeito a outras pessoas. Os números chocam, impressionam e doem. As causas dos “acidentes” normalmente têm sempre um vilão para as autoridades —seja ela de trânsito ou policial: o condutor. É sempre ele que corre demais, dirige alcoolizado, que tenta uma ultrapassagem em local não permitido ou dorme ao volante. As mortes poderiam ser evitadas se os condutores dirigissem com responsabilidade e respeito a outras pessoas. Mas as explicações não param por aí. Não mesmo. As pessoas morrem nas ruas, avenidas, rodovias e estradas por uma série de fatores. E o mais grave deles é a omissão estatal —com certeza à autoridade cabe mais culpa que ao motorista e motoqueiro. Se o motorista bebe e dirige, é também porque falta fiscalização para punir com rigor.
Quando se divulga que uma ultrapassagem proibida provocou uma tragédia, nenhum especialista vai checar se a sinalização no local era boa ou se havia um buraco na pista. Quando um caminhoneiro dorme ao volante, ninguém quer saber quantas horas ininterruptas ele trabalhava nem as condições de sua saúde. Nessas horas, uma das desculpas mais comuns das autoridades é que os órgãos de fiscalização não dão conta de tantas atribuições. Só que a situação precisa mudar. Por que não se toma uma iniciativa realmente séria e abrangente para conter a grande epidemia que causa tantas mortes no trânsito?
As medidas devem ir além das campanhas de conscientização. É preciso muito mais do que difundir o se beber, não dirija. É necessário reunir as autoridades pra preparar uma estratégia única para conter as tragédias nas vias públicas. Fazer um levantamento completo dos problemas enfrentados, melhorar as vias públicas e adotar uma fiscalização única e eficaz, além de uma engenharia de tráfego bem planejada e conduzida, coisa inexistente na Morenópolis.
Pode não render votos, mas evita tragédias diárias. Chegou o momento de estabelecer uma política séria de combate à violência no trânsito. Ou melhor, de firmar um pacto pela vida. E isso tem de começar com as autoridades parando de dizer platitudes como as que colocam todos os erros do trânsito na culpa dos motoristas.
A autoridade tem uma grande parcela de culpa pelo que acontece de errado no trânsito. É claro que se cada motorista exercitasse os valores da cidadania, da paciência, da solidariedade, da gentileza e da responsabilidade, o trânsito seria muito mais civilizado. Mas a mídia só cobra do cidadão; nunca exige do poder público, embora haja tantos erros no trânsito da exclusiva responsabilidade da autoridade.
A cada dia que passa, os veículos automotores são cada vez mais usados pelos seres humanos. O carro é cada vez mais precedente: alguns automóveis modernos, por exemplo, se autoconduzem —isto é, não necessitam de um motorista para conduzí-los. E ficam cada vez mais auto-suficientes. O carro, por exemplo, carrega seu próprio filtro; já o homem não pode correr e beber água filtrada simultaneamente —aliás, o carro quando sai leva, além do filtro, as velas, escova, pistão, luva, ventilador, mala, descarga, fluídos diversos e até mudança. E o homem? Carrega no máximo um saquinho de supermercado ou uma pasta de documentos.
Mas se são um dos objetos favoritos dos seres humanos, os automóveis são máquinas que podem tornar-se extremamente perigosas, notadamente quando estão sob o controle dos campo-grandenses. E enfrentar um morenopolitano ao volante é uma ação muito complexa e complicada, até porque os condutores de automóveis e outros veículos pensam que estão sempre certos, com toda a razão. Parafraseando o ex-presidente Lula da Silva, o motorista campo-grandense parece estar sempre dizendo: "duvido que alguém neste país dirija um carro melhor do eu".
Se você é um desses poucos motoristas que dirigem bem na cidade, tem uma solução muito prática e eficaz pra enfrentar o abominável, deplorável, execrável e repulsivo condutor morenopolitano: adote a direção defensiva (ou seria ofensiva?) e compre um tanque de guerra. Mas dirija com cuidado e não beba antes de dirigir — o tanque aqui do caso não é o recipiente de pedra, metal ou alvenaria próprio para conter líquidos.

Luca Maribondo
lucamaribondo@uol.com.br
Campo Grande | MS | Brasil