quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

[Tenho corpo, logo existo]

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Pensar o ser humano implica também pensar o seu corpo. Corpo físico, corpo mental, corpo estático, corpo em movimento, corpo social. O corpo em seu conteúdo, em sua forma, ao percorrer tempos e lugares diferentes, passa a representar não apenas aquilo que se revela biológico, mental, espiritual. O corpo, como lugar em que se inscrevem os elementos culturais presentes nas experiências que os sujeitos vivem ao longo de sua existência, é a primeira forma de identificação: logo ao nascer somos identificados através da corporalidade, como homens e mulheres.

Ter um corpo é algo que extrapola nossa compreensão. É cartesiano: corpo pode lembrar ou ser muito parecido com o de alguém ou de outros, mas nunca é igual, até porque sua instância básica na dimensão espacial e temporal, da presença do aqui e agora, é moldada e atualizada a todo momento. Tenho um corpo, logo existo. Especificamente na prática da conscientização do movimento tratamos de um corpo que sabe que sente, sabe que existe e sabe que sabe que existe e sente.

Na dança, o corpo torna-se o veículo de representação da realidade, ou da ficção ou de ambas. Acompanhando a evolução da civilização ocidental, deduzimos que a dança esteve sempre ligada à vida em sociedade, como forma de expressão do ser e do estar. É assim que acontece com o espetáculo "Me=Morar", no qual o Coletivo Corpomancia se coloca de forma a contar um pequeno mas importantíssimo período da construção da sociedade morenopolitana: a história da ferrovia e de suas imbricações com a cidade. É fundamental conhecer a história, embora o campo-grandense não dê a mínima pra sua história.

Desde os primórdios das sociedades, é através das dança e do canto que o homem se afirma como membro da comunidade. A dança gera a metamorfose: transforma os ritmos da natureza e os ritmos biológicos em ritmos voluntários, harmoniza a natureza e dá poder para dominá-la. A música modal. A música tonal. A linguagem corporal simboliza alegrias, tristezas, vida e morte, celebra o amor, a guerra e a paz; principalmente como forma de expressão dos sentimentos, emoções, desejos e interesses de uma sociedade. E ao tirar a dança do palco e colocá-la nos aposentos de uma casa de arquitetura rústica e simples, o Corpomancia leva isso ao paroxismo.

No "Me=Morar", as noções de corpo e movimento estão estreitamente relacionadas e devem ser contextualizadas antropológica e historicamente. Fica claro que o indivíduo conhece o mundo através de sua entidade corporal. Graças ao movimento o homem aprende a estar no espaço. Há emoções fortes: a emoção, atividade eminentemente social, afirmando que a emoção nutre-se do efeito que causa no outro, isto é, as reações que as emoções suscitam no ambiente funcionam como uma espécie de combustível para sua manifestação.

Quem assiste o espetáculo, limitado a uma platéia de apenas dez pessoas por sessão, fica junto com quem dança; não há a separação palco/platéia. O experimentar corporal desponta como uma continuidade de sentimentos que se molda a si mesma. A moldagem dessa experiência é a própria identidade, até porque a audiência está presente, faz parte ela mesma do espetáculo —se alguém esticar o braço pode simplesmente tocar um dos atores/dançarinos.

Esse experimentar tem relação direta com os movimentos da dança e com a imagem corporal. O movimento é apenas e unicamente compreendido desde o externo. É a expressão da possibilidade de transformar o que o corpo apresenta em si mesmo. O corpo incorpora em si a possibilidade contínua de crescer e perscrutar-se. Cada expressão, cada gesto, traz em si a possibilidade de transformação. O movimento é sempre decorrência das histórias individual e coletiva. Num momento, lembra a casa/lar; noutro, lembra a estação ferroviária; mais adiante, remete aos trilhos e suas relações com a história da cidade.

E junto disso, há a roupa. Ela passa a ser não apenas um acessório, mas uma forma própria de expressão, até porque a nudez acaba se tornando agressiva na medida em que o traje vai muito além do abrigo e da proteção para tornar-se uma forma de posicionamento ético e moral diante do outro. Dançar é certamente o melhor meio para se fazer a experiência de diálogo com o corpo: o nosso próprio e o dos outros. O vestuário, sem cor, traz à lembrança antigas fotos em preto-e-branco, fazendo com que as linhas praticamente desapareçam, tornando o ambiente flou.

Há também a trilha sonora que não incorpora apenas a música —aliás, tem muito pouca música. São os ruídos de um cotidiano constantemente em movimento: pancadas, objetos que desabam, o arrastar os calçados, o frufrulhar dos tecidos, a estática do rádio, a incômoda campainha do telefone. O cenário extremamente despojado é a própria casa, praticamente sem mobiliário, remete a um ambiente franciscano com deviam ser as próprias casas nos seus momentos mais vivos.

Ao dançar, o ser humano é individual e único, mas no "Me=Morar" necessitamos do outro para demonstrar o que se quer dizer. A construção da identidade, através do papel do outro, nos mostra que o outro e o eu não podem existir um sem o outro —inclusive o espectador— tal e qual gêmeos siameses, mesmo que antagonistas, ocorre à afirmação da identidade, sintetizando que é necessário expulsar o outro de dentro de si e o que possa conservar para que indivíduo venha a se apropriar e construir sua própria identidade.

Entretanto, o papel do outro em todo processo de construção da identidade é imprescindível, pois sem ele não há possibilidade de amadurecimento da consciência, assim como não há com o que se comparar. O outro determina a natureza social do homem e as interações sociais vão configurando a personalidade. A gênese do seu eu se faz através da diferenciação e da construção progressiva. A pessoa apropria-se de sua identidade como sujeito social e vai se individualizando.

No final, atores e platéia se materializam numa sala em ruínas, com cacos de telha cobrindo perigosamente o piso. É um cenário de destruição. Tenho a boca seca e meio adocicada, os olhos arregalados e úmidos, a pele arrepiada e inundada de suor, e trago nos lábios, um sorriso tímido, com um esgar de tristeza. É o medo das conseqüências. Conseqüências das marcas produzidas pela poesia dos corpos em meu corpo. Da rima e da beleza da sonorização, ora lento, ora rápido, numa sucessão de espasmos ritmados, semelhantes a uma contração.

Sou tomado de sentimentos controversos que me fazem pensar, sonhar, lucubrar. Me encanta a presença do ritmo na dança e na poesia. Me fascina os corpos em movimento, os ruídos que tornam a casa viva, e até a ausência da música. Me instiga o movimento do corpo na dança, como se fossem flores ao vento. E o olhar fragmentado desses movimentos instigam meus sentimentos, que no final produzem não uma análise crítica mas uma lucubração sentimental.

Um comentário:

Paula Bueno disse...

que texto lindo, Luca, lindo!!! estou muito tocada com essas percepções que você teve e orgulhosa por participar disso de alguma forma. valeu, Luca, você foi fundo e é muito gratificante como resposta a um trabalho que a gente se empenhou tanto como o me=morar. um beijão!