sexta-feira, 4 de setembro de 2009

_Triton trash

>>>
A indústria do tabaco usou a imagem da mulher pra vender cigarros. A indústria de bebidas ainda explora a imagem da mulher brasileira pra vender cerveja. Quase todo o varejo explora a mulher pra vender. Mas quem mais apela para as formas e a sexualidade feminina é a indústria da moda.

Boa parte dessa pessoal que vende roupa comete o absurdo de colocar suas modelos nuas. Existe maior contra-senso do que vender roupa com gente pelada? E muitas dessas empresas acabam botando os pés pelas mãos. É o caso, por exemplo, da Triton, que, ao tentar erotizar seu produto, visando o público-alvo jovem, conseguiu a proeza de ser machista e associar a imagem feminina a tortura e ao cinema trash, além de sugerir violência contra a mulher.

Apesar de acontecer a toda hora, em todo o país, somente de vez em quando um caso de mulher morta pelo marido ou namorado vira assunto. Aí dá notícia na grande mídia e a sociedade fica emocionada e indignada... Depois, o oblívio. Quanto mais machista o país, maior a violência contra a mulher. O Brasil tem avançado em tantas coisas, mas minha impressão é de que a situação da mulher não muda nada ou até piora em alguns casos, mesmo com a Lei Maria da Penha.

Apesar da luta da mulher contra a violência, ainda há gente que faz sua apologia, como acontece com a nova campanha de primavera-verão da marca Triton, que é ilustrada com uma coletânea enorme de fotos (malfeiras, diga-se de passagem) que sugerem mulheres matratadas e que podem ser vistas em outdoors espalhados pelas ruas de Campo Grande e outras capitais brasileiras. E isso com o apoio das próprias mulheres, como as modelos retratadas nas fotos.

As peças publicitárias seriam impensáveis em muitos países que já passaram por um processo de discussão sobre o impacto da mídia na sociedade. Porque cargas d’água a gente tem de aceitar que uma empresa ganhe dinheiro às custas da glamurização da violência e da brutalidade contra as mulheres?

Quando eu falo sobre esse assunto não é só porque as imagens de mulheres sendo agredidas fisicamente não me agradam. Não é porque eu não consigo separar a ficção da realidade ou porque eu quero censurar a enorme criatividade dos nossos publicitários cretinos —no caso até incapazes de escrever uma frase decente ou escolher imagens feitas com talento ou criatividade: as fotos são péssimas de todos os pontos de vista. O fato é que ninguém sai impune desse bombardeio de imagens degradantes, da mulher sempre vista como parte mais fraca, vítima, submissa ao garanhão, dono do poder de vida e morte. Penso que a maioria dos crimes contra a mulher estão relacionados ao sexismo, mesmo quando não são registrados dessa forma.

E não me diga que é somente propaganda, não. No estudo Images of women in advertisements: Effects on attitudes related to sexual aggression, Katherine Covell e Kyra Lanis demonstram que homens expostos a propaganda nas quais as mulheres eram usadas como objeto sexual, posteriormente, eram mais tolerantes e apoiavam atitudes relacionadas à violência sexual. Enquanto que mulheres expostas a imagens de mulheres em uma postura mais forte se mostraram menos tolerantes a essas situações.

Eu não sou cliente da Triton —até porque acho seu estilo de mau gosto— mas se fosse, deixaria de comprar lá agora. Não dá pra fazer de conta que aquilo não tem nada demais!, ainda que alguns pensem como o publicitário que me escreveu no Twitter: "(...) mas publicitário é assim; temos que ver as tendências, mesmo que elas estejam indo rumo ao caos". Pena que haja publicitários que pensam assim. É uma idéia trash. Assim como a Triton demonstrou ser lixo.

Um comentário:

Maria disse...

Lamentável, realmente. E muito infeliz o comentário do seu amigo publicitário. Demonstra a total falta de responsabilidade que toma conta de boa parte do setor.