terça-feira, 28 de julho de 2009

_Analfabetos vs alfabetizados

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Desde que a humanidade existe, há uma luta acirrada entre os letrados e os iletrados. Este últimos, também chamados de analfabetos, têm sofrido as dores do parto nas mãos dos alfabetizados, seres cruéis e desumanos. Mas os analfabetos resistem bravamente, como se pode inferir da frase do nunca suficientemente pranteado jornalista Paulo Francis: "A ignorância é o nosso grande patrimônio nacional".

Por definição, analfabeto é que ou aquele que desconhece o alfabeto, ou não conhece nem o alfa nem o beta, isto é, não sabe nem ler nem escrever, ou quem não tem instrução primária. Por extensão, o cidadão que é muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil. Analfabeto é o sujeito que pratica o analfabetismo: estado ou condição de analfabeto; falta de instrução, sobretudo da elementar (ou seja, ler e escrever).

Mas, nos dias de hoje, o Analfabetismo está muito além do apedeustismo: é um fenômeno religioso, filosófico, político e cultural de grande importância, que existe desde os primórdios da humanidade (talvez você não saiba, mas na pré-história todos eram analfabetos, inclusive o inventor do primeiro alfabeto) ou mesmo antes. Os primeiros analfabetos, segundo o grande historiador Sinfronius, viviam em cavernas, vestiam peles de animais, não cortavam as unhas, não se barbeavam e comiam carne crua (naquela época não existiam ainda churrascarias, que só foram inventadas no século XIX por um povo chamado gaúcho —e que depois foram aperfeiçoadas com o sistema rodízio, talvez por paranaenses).

Mais tarde, os gregos, que zombavam dos analfabetos, apelidavam-nos de analfas ou comedores de analfa (arbusto que cresce no sul da Tessália e que dá ótimo tempero para moussaka, deliciosa iguaria da culinária grega). A cozinha grega é uma das mais saudáveis, saborosas e perfumadas do mundo. É recheada de grãos, azeite, legumes, vegetais, iogurtes e mel, comporta elementos doces e salgados em todos os pratos e ainda tem nas oleaginosas, como nozes e gergelim, um ingrediente comum a muitas receitas. Mas este é outro assunto.

Voltemos aos analfas. Outros, no entanto, afirmam que os analfabetos se originaram na Idade Média, constituindo uma seita herética chefiada gelo monge Analphabetus.
Este Analphabetus arrebanhou grande número de adeptos, chamados de iletrados, que levavam vida das mais ascéticas, bebiam apenas água, comiam alfafa na salada, acreditavam na total transitoriedade da palavra, nos cultos, diários, assistiam telenovelas e reality shows, e recusavam-se a ler ou a escrever fosse o que fosse. Sofriam de uma grave enfermidade chamada quadrupáthos, que faz com que quando esses seres caiam de quatro no chão não mais consigam se levantar.

Participam das seitas (existem muitas facções, algumas extremamente violentas) de Analphabetus grandes contingentes populacionais do mundo de hoje. Mantêm o hábito do jejum regular ou intermitente, têm proles numerosas, acordam cedo para deitar cedo, não lêem os jornais ou qualquer matéria impressa, mas estão constantemente diante da televisão, que assistem por horas e horas, ouvem pagode ou bunda-music e têm carros com poderosos sistemas de som. Por isto, em geral, são equilibrados, harmoniosos, incapazes de se meter em atividades que alimentam as paixões baixas dos homens, quais sejam: a política, a história, a economia, a salvação do próximo, a página editorial e outras.

Entre os seguidores de Anaphabetus ou analfabetos, citamos todos os seres humanos no início de suas vidas, personagens de telenovelas, alguns índios e um certo número de pessoas registradas como jornalistas profissionais no Ministério do Trabalho —a maioria deles presta seus inestimáveis serviços para emissoras de rádio, televisão e colunas sociais. O analfabetismo é também muito difundido entre os políticos, especialmente os mais modernos, havendo, contudo, exceções.

O talento de alguns políticos, aliás, chama a atenção de algumas pessoas gradas, em geral chamadas de eleitores, que sentindo neles uma vocação excepcional, elegem-nos para os mais diversos cargos públicos, mercê de promessas que quase nunca são cumpridas. Quando era criança, fui ensinado que qualquer pessoa poderia ser presidente da República —agora, depois do Nosso Grande Líder Lula da Silva, eu acredito nisso piamente.

Muito embora ninguém saiba exatamente o porquê, o analfabetismo é considerado uma seita das mais nocivas, um mal que urge erradicar como há muito tempo vem se tentando com a malária, a dengue e a imoralidade administrativa, sem êxito, entretanto. A campanha contra o analfabetismo é insuflada e agitada pelo inimigo natural do analfabeto: o ser alfabetizado ou letrado. Caracteriza-se, este último, pela capacidade monumental, não só de ler tudo o que se escreve, mas também, de escrever quase tudo o que se lê.

Este, o ser alfabetizado, hoje em dia insinua-se em quase todos os setores da vida pública e privada. Vamos encontrá-lo nas residências, nos escritórios, nas repartições, nas escolas, até no Poder Legislativo. Infiltra-se no clero, nos esportes, nas artes; mesmo em certas camadas da alta administração e do Governo vamos topar, não com um, mas com inúmeros seres alfabetizados.

É por isso que a guerra que os alfabetizados movem aos analfabetos tem sido da mais extrema crueldade e sanguinária; uma após outra, caem as cidadelas destes, seus comandantes são aprisionados, seus soldados sujeitos a um intenso tratamento de doutrinação política ou brainwashing, como dizia o ex-presidente George W. Bush e seus compatriotas norte-americanos. Agora, seus conterrâneos são presididos por um letrado negro e mais simpático com o nome de terrorista árabe: Barack Obama.

É de ver que o resultado é que poucas pessoas podem, agora, manter-se fiéis ao Analfabetismo, sem que se exponham à indignada ofensiva de um alfabeto, através de livros brandidos tenazmente por um alfabetizado, orgulhoso de sua função social e intelectual. Mas nem assim é tem-se logrado extinguir esta que é uma das mais antigas e saborosas tradições brasileiras, tão ao gosto do conhecido intelectual Galvão Bueno.

Em verdade vos digo, só há um meio de defesa à disposição do analfabeto, uma só arma de que pode lançar mão para repelir a furiosa ofensiva dos alfabetizados: manter-se analfabetizado. Foi por isso, que os analfabetos tanto lutaram por algo que lhes permitiriam continuar como são e mesmo assim adquirir um certo verniz de cidadania: o voto.

O voto, como se sabe, é uma grande arma democrática. É tão democrática, que todos os autócratas, déspotas, ditadores e opressores, isto é, governantes totalitários —do gênero Hugo Chávez ou Raul Castro—, se utilizam dela quando querem provar que estão com a razão. Quando estendido ao analfabeto, passa a chamar-se voto do analfabeto, ocupando, neste caso, invariavelmente, tempo diário nos parlamentos e nas tvs, e espaço diário nos jornais.

O voto do analfabeto, concebido como arma, propõe, ao analfabeto, desde logo, um magno problema: como utilizá-lo, ou seja, em quem deve votar? Deverá o analfabeto votar no alfabetizado, seu inimigo natural? Deverá o analfabeto votar em outro analfabeto, que muitas vezes não sabe nem ler nem escrever? De acordo com a lei da luta de classes, só um analfabeto poderá defender realmente o interesse dos analfabetos; por outro lado, setores reacionários e alfabetizados, dispostos a conceder o voto, não se dispõem a conceder a candidatura; em outras palavras, o analfabeto, igual ao brasileiro naturalizado, poderia votar, mas não poderia ser votado.

Esta prática, aliás, parece-nos da mais revoltante injustiça: somos todos iguais perante a lei: animais, vegetais, minerais, analfabetos ou brasileiros naturalizados: quem vota deve poder ser votado. Afinal de contas, não é justo que num governo eivado de seres alfabetizados, os analfabetos não tenham voz, eles que representam, verdadeiramente, a maioria da população.

Acresce ainda, ao doloroso dilema, á descoberta feita por alguns gramáticos, de uma terceira posição: a do semi-analfabeto ou analfabeto funcional. A situação destes, hoje tão numerosos, é pungente, só comparável à de pessoas pertencentes às raças mistas. (Como sabemos, filhos de brancos com mulheres negras ou de negros com mulheres brancas são, freqüentemente, infelizes, porque a intolerância do meio-ambiente não permite que sejam reclamados, seja por um grupo étnico, seja por outro. Isto tudo, naturalmente, antes de se descobrir que no Brasil não existe preconceito de raça, e de se fazer uma lei a respeito de uma coisa que não existe)

Assim, os semi-analfabetos ou analfabetos funcionais giram entre dois campos de atração contrários, sem que haja um critério que possa realmente defini-los. Eles seriam inimigos naturais do alfabetizado ou do analfabeto? Como classificá-los? Como examiná-los? Que elementos ocupariam a banca examinadora? Apenas alfabetizados? Ou um misto de alfabetizados e analfabetos, como no caso de concursos para cargos públicos ou cátedras universitárias? E que atitude tomariam aqueles semi-analfabetos já aceitos e perfeitamente integrados nas classes dirigentes, alguns dos quais governam, inclusive com notória competência, os destinos do País?

A questão é das mais complexas. Só mesmo um estudo lingüístico, antropológico e sociológico aprofundado, talvez subvencionado pelos Ministérios da Cultura e da Educação poderá determinar quantos membros de um governo autenticamente representativo deverão ser alfabetizados, quantos analfabetos e quantos semi-analfabetos. Enquanto este importante problema não for solucionado, não haverá paz social em nosso País.

A campanha tenaz que os seres alfabetizados movem contra os analfabetos prosseguirá implacável, fazendo um número cada vez maior de vítimas, ferindo indiscriminadamente culpados e inocentes. Por isto, do alto deste site, lançamos um apelo de caráter humanitário, apartidário, politicamente correto, tendo em mira apenas o benefício da coletividade. O analfabeto não quer mal ao alfabetizado, que já foi seu irmão. Quer apenas não ser excessivamente importunado, para poder, talvez, converter-se, livre de coação. Pois o alfabetizado, como o evangélico novo, o petista novo, o bbb (Big Brother Brasil ou Mano Véio Global) novo ou o recém-casado, procura converter todo mundo à sua fé, e com isso acaba transformando-se num inominável chato.

Na realidade, deve-se meditar muito, antes de se dar este passo definitivo e irrevogável, que fará com que o cidadão passe a ler tudo que se publica, hoje em dia, em livros, jornais, revistas e outdoors (aqueles, raros, que têm algo escrito por algum publicitário mais criativo e alfabetizado). É de suma importância que o analfa seja instruído no sentido de saber o que está à sua espera a partir do momento que aprendeu o alfabeto.

E se for honestamente instruído, é possível que recue no derradeiro instante, decidindo por não tomar contato com o mundo esotérico, exótico, sanguinário e selvagem das pessoas que sabem ler e escrever. Até porque o analfabeto tem pelo menos uma virtude: não comete erros gramaticais ou ortográficos. Também é bom lembrar que o alfabeto foi inventado por um analfabeto. Ah! E o mundo abunda em alfabetos fora de uso, cujo código se perdeu —além dos povos que nunca tiveram alfabetos e mesmo assim foram felizes, como os nossos índios e os ingleses e norte-americanos (estes dois últimos adotaram o alfabeto romano e dominaram basbaques do planeta inteiro que tinham alfabetos próprios). Antigamente, os analfabetos eram os seres que não iam à escola; agora, são os mais escolados. E descolados.

Um comentário:

Eugênia Amaral disse...

Proponho um grupo de estudos para analisar tão urgente e relevante questão. Sugiro que o grupo seja formado por Analfas, PHds Letrados, outros animais e vegetais (sou veementemente contrária à inclusão dos minerais que, com raras exceções, são irredutíveis, duros como rocha. É impossível manter qualquer comunicação nessas condições). A presidência poderia ser exercida pelo Marimbondo de Fogo que, por intriga, tem sido identificado como Analfabeto Funcional (logo ele, nosso maravilhoso signatário dos Analfas... Quanta maldade!). Recomendo a participação das Alcachofras e dos Brócolis, por razões óbvias. Enfim... Coloco-me inteiramente a sua disposição para colaborar com grunhidos (tenho treinado no Twitter, sob a orientação - à distância - de José Saramago).
Eugênia.
P.S. Mi blog, su blog!