quarta-feira, 28 de maio de 2014

_Seres das trevas

[
Relendo alfarrábios há muito relegados em minha biblioteca, descobri um conto de Edgar Allan Poe em que ele dá o seu receituário pra alguém se tornar um corrupto de primeira grandeza o que facilita o cidadão comum reconhecer este corrupto. Segundo Poe, a corrupção —ou a ideia abstrata definida pelo verbo corromper— é geralmente compreendida pelo cidadão comum. Entretanto, percebo nas minhas andanças que a maioria das pessoas  não compreende muito bem como se dá a corrupção, notadamente no meio político, onde é mais disseminada.

Poe não procura definir a corrupção, mas afirmá-la como um comportamento inato do ser humano. “O homem é um animal que trapaceia”, afirma o escritor. Entenda-se trapacear como o conceito fundamental da corrupção. Assim, o homem é um animal que corrompe; e não existe nenhum outro animal que pratique a corrupção, a não ser o homem. Certo? Certo!

Na verdade, o ser humano está na essência da corrupção. Há outros animais que praticam ações velhacas. Por exemplo: uma raposa engana; um corvo furta; uma cobra ataca; um gato astucia; um papagaio finge. E um homem corrompe. E é corrompido. Corromper e ser corrompido é seu destino, é sua índole. O homem (e a mulher) foi feito pra corromper e ser corrompido.

Pra ser corrupto, o sujeito tem de possuir algumas qualidades. O corrupto —e a conseqüente corrupção— é composto por alguns ingredientes básicos: poderio, impertinência, desfaçatez, minuciosidade, interesse, perseverança, engenhosidade, audácia e displicência.

E Poe dá as dicas de como conceituar essas qualidade inerentes ao ser corrupto, o que proporciona às pessoas normais reconhecê-los como alguma facilidade:

Ter poderio é possuir grande poder, isto é, ter o direito ou força de ordenar, de agir, de se fazer obedecer, deter autoridade, domínio. É o agente capaz de mandar asfaltar uma via pública sem questionar os valores propostos pelos construtores. E se alguém de fora questionar, argumenta na lata: “Você por acaso sabe quanto custa cem metros quadrados de asfalto, seu cretino?!” Ninguém no Brasil sabe!, exceto quem detém o poder de mandar asfaltar uma rua ou estrada. Portanto...

A impertinência: o corrupto é impertinente, fala ou age de maneira desrespeitosa, ofensiva; inconveniente, insolente, atrevida, desrespeitosa. É um gozador, que escarnece do cidadão, fanfarreia, aponta-lhe o dedo médio em riste, bebe a sua cerveja, pede seu dinheiro emprestado, chuta-lhe a bunda e, se se distrair, ainda planta-lhe chifres.

O verdadeiro corrupto tira tudo da sociedade com um riso de escárnio. Essa é a desfaçatez. Mas ninguém lhe vê o riso, senão ele mesmo. Depois que ganha o dia (e sempre o ganha), ele vai pra casa, deita-se na cama, apaga a luz e ri. Ri muito de todos. Um corrupto não seria um corrupto sem o riso debochado. Em público, esse riso é substituído por frases do tipo “eu não sabia que isso estava acontecendo”.

Minuciosidade é uma das características do corrupto. Ele faz tudo com a máxima atenção e cuidado; é meticuloso e cuidadoso. Suas operações, pequenas ou grandes, são realizadas com o maior cuidado. Nunca um detalhe é deixado de lado —o diabo está nos detalhes, ele pensa. Por isso, raramente é apanhado com a boca na botija —ou em qualquer outro tipo de vasilhame. E, se apanhados, têm uma enorme capacidade de cuspir tudo imediatamente, o que sempre é acompanhado de derrisão.

Interesse. Isso é fundamental. O corrupto tem seus passos guiados pelo interesse próprio. Tem o maior desprezo por ser corrupto pelo simples prazer da corrupção, pois a motivação é fundamental. Tem sempre dois objetivos em vista: o bolso alheio, do cidadão (pra tirar) e seu próprio bolso (pra preencher).

Perseverança: outro ponto primordial. O corrupto nunca se desencoraja. Não é a ação dos cidadãos, dos eleitores, da polícia, que vai fazê-lo abandonar seus intentos. A contumácia, a pertinácia, a renitência, são uma constância na sua índole. Ele é obstinado e nunca abandona o jogo, mesmo que o juiz marque um pênalti aos 44 minutos do segundo tempo. O dinheiro é sempre capaz de entortar alguns pés certeiros.

O corrupto é dotado de engenhosidade e criatividade. Em geral, tem muitas e variadas aptidões: já lavou pratos, foi motorista, tem muitos phds, dobrou paraquedas. Entende de planos, inventa, enreda. Está sempre pronto a assumir algum cargo (de preferência em comissão). Se está em ascensão, assa um saboroso churrasco, produz uma deliciosa caipirinha e nunca ganha no pôquer. Se está na ponta da pirâmide, é incapaz de reconhecer uma nota de cem e não sabe como depositar um cheque.

Audácia. O corrupto é sempre audacioso. É um homem arrojado, atirado. Nada o assusta. Quando entra em campo, recebe as caneladas sem gritos, mas revida sem remorsos. É capaz de cantar a mulher do amigo, mesmo que seja uma baranga, e recebe uma comissão por baixo da mesa de um botequim sem que ninguém perceba. E negocia até com o bispo, mesmo com o risco de ser excomungado e extorquido no dízimo.

Finalmente, a displicência... O corrupto é displicente. Tem nervos de aço. Nunca se deixa levar pela comoção. Só se estressa no recesso das suas hostes. Nunca fica fora de si, a não ser portas adentro. E é complacente, complacente como um chinelo velho. É capaz de argumentar, como a maior cara dura, que “cansei de ir ver jogo de futebol a pé —nunca tivemos problema de ir a pé. Vai a pé, vai descalço, vai de bicicleta, vai de jumento, vai de qualquer coisa. A gente está preocupado que tem que ter metrô ou carro, tem que ir até dentro do estádio? Que babaquice é essa?”

Não se sabe exatamente quando surgiu a corrupção. Eu penso que surgiu no momento em que um ser foi identificado como humano. Os criacionistas dizem que o primeiro corrupto foi Adão (ao ser subornado pela mulher pra comer a maçã). Os evolucionistas dizem que foi o Orrorin tugenensis descoberto no Quênia. Mas isso não tem lá muita importância.



Interessa é que podemos seguir retrospectivamente os traços da história da corrupção desde a mais remota antiguidade. Numa rápida leitura do Código de Hamurabi, um dos mais antigos conjuntos de leis de que se tem conhecido, escrito por volta de 1.800 a.C., o leitor denota que a corrupção já era conhecida em priscas eras. Leia este artigo: “Se um construtor edificou uma casa para um Awilum (homem livre), mas não reforçou seu trabalho, e a casa que construiu caiu e causou a morte do dono da casa, esse construtor será morto". E há dezenas de outros artigos invectivando a corrupção.

Mas se a corrupção é muito antiga, os modernos a aperfeiçoaram de maneira jamais sonhada pelos estúpidos antepassados dos seres humanos. A corrupção atingiu um tal grau de eficácia e eficiência, que hoje praticamente é impossível acabar com ela ou com seus agentes, os corruptos. Lembre-se de que daqui a alguns dias teremos novas eleições presidenciais e estaduais no país. E que nada que se faz hoje em dia consegue dar um fim na corrupção, processo que se dá sempre na escuridão; não é possível reconhecer um corrupto na claridade. Eles são seres das trevas.

Umalas | Bali | Indonésia
28 de maio/2014



Nenhum comentário: