terça-feira, 6 de abril de 2010

[Os sócios da mentira]

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Recebi o texto, uma fábula de autor não identificado, que reproduzo a seguir, em uma ecarta, das muitas que me enviam todos os dias. Com pequenas alterações, para corrigir alguns errinhos, eu o reconto:

Um dia, um carpinteiro catava madeira cortando o galho de uma árvore na margem de um riacho e seu machado caiu dentro d’água. O infeliz carpinteiro suplica desesperadamente – afinal, aquela ferramenta era uma das garantias ao seu sustento. Javé, que de vez em quando costuma da o ar da graça por estas plagas, aparece e pergunta com voz suave: “Por que você está chorando?”.


Contendo as lágrimas, o carpinteiro responde que seu machado havia caído no riacho – e desanda a chorar novamente. Compungido, Deus faz um gesto um tanto gaiato, tipo mágico de circo, um David Copperfield celeste, e das águas sobe um machado de ouro. “É este seu machado?”, pergunta o Todo-Poderoso. O nobre carpinteiro, que é um desses sujeitos que só existe mesmo em fábulas, responde “Não Senhor, não é esse”.


Deus faz novamente um gesto cabalístico e desta feita sobe das águas barrentas um machado de prata “E este é seu?”. “Também não”, responde o carpinteiro. Javé faz outra vez novo gesto mágico e tira da água um machado comum, tosco, de madeira e aço, e pergunta “É este o teu machado?”. “Sim”, responde o pobre homem. Deus sentiu grande felicidade com a sinceridade do carpinteiro e, para demonstrar-lhe seu divino apreço, mandou-o de volta para casa, não sem antes presenteá-lo com os três machados.


Passaram-se os anos e o carpinteiro, que melhorara muito de vida por causa da venda dos machados de ouro e de prata, estava a passear nos campos com sua mulher, quando ela tropeçou e caiu no mesmo riacho. Desesperado, o infeliz carpinteiro suplica a Deus, que novamente aparece na Terra e pergunta “Por que você está chorando?”


Desolado, carpinteiro responde que sua esposa caiu no rio e imediatamente Javé faz seu tradicional gesto cabalístico e imagine você, gentil leitor, quem sai da água, toda molhada e radiante: a Juliana Paes. Com um ar um tanto travesso, o Todo-Poderoso pergunta “É esta a sua esposa?”. “Sim, sim”, responde o carpinteiro e Deus claro!, se enfurece. “Mentiroso!”, exclama.


Sentindo que a barra ia ficar pesada, o carpinteiro rapidamente se explica “Deus, me perdoe, foi um mal-entendido. Se eu dissesse que não, então o Senhor me tiraria a Ângela Vieira do rio; depois, se eu dissesse que não era ela, Você tiraria minha mulher e, quando eu dissesse ‘sim’, mandaria eu ficar com as três. Mas eu sou um humilde carpinteiro e não poderia manter as três —só por isso eu disse ‘sim’ para a primeira delas”. E Deus coçou o queixo uma fração de segundo e decidiu por conceder-lhe o perdão.

Moral da história 1: Há homens que só mentem por causas nobres e com boas intenções!

Moral da história 2: Toda mentira é uma verdade que não soube encontrar a sua ocasião.

Moral da história 3: Mesmo sob as águas, uma mentira pode tornar-se uma verdade.

Garante o ditado que mentira tem perna curta. Perna curta coisa nenhuma! Mentira não tem perna, nem pé, nem cabeça. Mentira é mentira, e pronto, o que aliás, às vezes também é mentira. A única verdade é que sempre tem gente tola —a maioria— caindo nas mentiras mais deslavadas do mundo. Prova disso é que você lê, ouve e vê todos os dias nos veículos de comunicação de massa, ditas por pessoas de todos os setores da atividade humana: empresários, juízes, jogadores de futebol, políticos, artistas... Todos, enfim.

Pior que mentir, é não mandar bem a verdade. Quando se mente —dependendo da formação moral e intelectual de quem mente, é possível manter certa ética, a ética da mentira, que seria, digamos, o consciente e respeitoso distanciamento da verdade. Existem políticos que prestam mais serviço moral à instituição da verdade, mantendo-se afastados dela. Há inclusive os que mentem por complexo, por não se julgarem aptos ou dignos de dizer a verdade.

Sempre me senti moralmente mais seguro, eticamente tranqüilo, intelectualmente mais convencido e pessoalmente mais confortável, quando me provam que nem tudo é mentira —do que quando me provam que nem tudo é verdade. Na política isso parece ficar mais claro, pois neles, políticos, não há como negar que predominaria a faculdade da imaginação, em detrimento da faculdade racional. Assim surgem as seitas dos legisladores, adivinhos, magos, sonhadores, prestidigidatores e... políticos, que produzem maravilhas graças às suas estranhas astúcias e às artes ocultas.

Governar é fazer crer, famosa frase atribuída a Maquiavel que leva diretamente ao centro da discussão do que denominamos de Teoria da Mentira, no sentido de que a mentira, como instrumento, possui o seu próprio corpo de normas regulamentos. Possui sua própria estruturação e metodologia, já experimentada, ao longo dos séculos, na arte de exercer o poder, seja econômico, político ou religioso e, por extensão, na subversão dos governos e das instituições.

Pode até parecer absurdo, mas o conhecimento da Teoria da Mentira é estratégico. Com certeza é fundamental, ao estudioso da estratégia, o conhecimento do funcionamento da mentira, já que não se pode basear nenhuma estratégia em falsidades, em erros, em inverdades, pois então, esta estratégia estará, definitivamente, fadada ao fracasso. Robert A. Dahl, professor da Universidade da Yale, nos EUA, e autor do livro "Democracy and its Critics” (Yale University Press), que, em comentário político, afirmou que “pretender uma análise objetiva da política pressupõe que se dê valor a verdade... É preciso acreditar que vale a pena distinguir o verdadeiro do falso”.

É justamente, então, que entra a Teoria da Mentira: o objetivo da mentira é impedir de distinguir o verdadeiro do falso. É confundir, é iludir, é enganar e, assim, levar as pessoas a tomarem decisões erradas (para elas), mas que, claro, beneficiam quem criou e espalhou a mentira. É preciso ter em mente que sempre que surge uma mentira, tem alguém se beneficiando dela. A mentira é, portanto, arma valiosa no arsenal de qualquer beligerante ou assemelhado e serve tanto para a guerra como classicamente entendida, como para a propaganda política e pode ter utilidade, assim, tanto no conflito externo como nas lutas políticas internas.

E o que é mentir? Por definição, a mentira é o discurso contrário à verdade, proferido com o objetivo de enganar. Daí concluir-se que o criador da mentira conhece a verdade e efetua deformações intencionais sobre o verdadeiro, para atingir o seu objetivo. Portanto, a mentira não é uma falsa opinião, nem um engano ou descuido ou questão de crença. Mentir é um ato deliberado. Tanto é deliberado, que se pode mentir dizendo a verdade, contanto que se queira enganar o outro com o que esta sendo dito, pois, o essencial na questão é que a mentira é levada, sempre, no sentido de fazer crer, ao alvo da mentira, aquilo que se deseja que ele —o alvo— acredite.

Concluí-se, então, que a mentira é, pois, muito ligada à noção de crença, daí derivando para a questão da formação da opinião. Donde concluí-se que a mentira é destinada a criar um clima, na opinião pública ou geral, que favoreça o emissor da mentira e, naturalmente, desfavoreça o alvo do emissor. A mentira deve, pois, criar um ambiente, que seja positivo para aqueles que se valem dela e isto implica prejuízo ou derrota por parte dos que aceitam esta mentira.

Voltando ao aspecto estratégico da questão da mentira, veja-se o seguinte: se é preciso tomar decisões para traçar uma estratégia, é necessário que venha-se obter as informações necessárias e corretas, para que se possa tomar as decisões acertadas. Caso contrário, a estratégia fracassará. Millôr Fernandes argumenta que “a mentira é a mais-valia da credulidade, já que não se pode mentir se não houver um crédulo. Pois ao cético ninguém mente, já que ele não crê nem na verdade”. A Teoria da Mentira tem uma base sólida: a ética do poder é a mentira —ninguém é dono da verdade, mas a mentira tem um bocado de sócios.

Um comentário:

giselle disse...

Adorei o texto, de fato também fico mais tranquila em pensar que nem tudo é mentira...mantém um certo e ilusório poder de decisão, uma charmosa lucidez..rs

Bárbaro! ( e como tem sócios a tal Mentira...)

Beijos

Giselle Zamboni