quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Esquerda, direita!

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Quase sempre dogmáticos, os historiadores, descrevem as grandes ideologias do século XIX —conservantismo, liberalismo e socialismo— com a ajuda de um modelo conceitual que situa esses movimentos num contínuo de direita para a esquerda (ou vice-versa), de acordo com sua preferência pelo status quo hierárquico (a direita) ou pela reforma liberalizante e igualitária (a esquerda). Ao final do século XX, com o eclipse tanto da esquerda histórica (socialismo) quanto da direita histórica (conservantismo), as posições de "esquerda" e "direita" não parecem mais definíveis com tanta limpidez como acontecia no início do século.

Também parece superada hoje a diferenciação esquerda-direita, por causa da nova proeminência das questões ambientais, superando em parte as questões da distribuição econômica, sobre as quais se baseava, em_termos históricos. Há também questões éticas e filosóficas. Uma pressuposição fundamental do capitalismo industrial do século XIX e de seus críticos socialistas —a de que é possível ter uma continua acumulação e expansão econômica— não prevalece mais. A distinção esquerda-direita, porém, conserva sua utilidade para a compreensão dos objetivos e valores fundamentais dos movimentos políticos no século XXI.

Só pra recordar, a terminologia esquerda-direita surgiu na Convenção Nacional da Revoluçâo Francesa (1789): as facções mais revolucionárias sentavam-se do lado esquerdo da cadeira da presidência, enquanto os parlamentares mais conservadores permaneciam à direita. Os deputados da esquerda eram favoráveis a reformas que levassem a mais liberdade e igualdade, enquanto os da direita preferiam os arranjos mais tradicionais e mudanças menos profundas.

Na extrema esquerda estavam os movimentos que favoreciam a igualdade econômica compulsória; na extrema direita estavam os monarquistas, que queriam restaurar os privilégios aristocráticos e o poder absoluto da monarquia, além de fortalecer o poder econômico da burguesia.

A igualdade e os direitos das pessoas eram os valores fundamentais que determinavam a localização dos movimentos no espectro político. Quanto maior o compromisso de alcançar igualdade, mais pra esquerda o movimento se situava, na percepção dos contemporâneos. A esquerda defendia a progressão para uma sociedade mais democrática; a direita propunha a manutenção ou restauração das hierarquias e relações sociais costumeiras. Nos extremos do espectro ficavam as facções que propunham a revolução, quer para alcançar a igualdade e acabar com a hierarquia, na esquerda, ou para restaurar a hierarquia e impedir a igualdade, na direita.

O que complica esse modelo conceitual, no entanto, é a contradição entre fins revolucionários e meios que surgiram na prática, depois da Revolução Comunista da Rússia em 1917. Para os bolcheviques, na extrema esquerda, o compromisso com a revolução social igualitária era tão grande que virtualmente qualquer meio —violência, demagogia, terrorismo, ditadura— parecia aceitável para a realização dos seus fïns.

Essa disposição para recorrer a métodos radicais leva ao paradoxo, observado com freqüência na história de que os métodos rigorosos de revolucionários da esquerda muitas vezes abalaram seus proclamados objetivos igualitários e democráticos. É por isso, que os esquerdistas mais radicais aceitam passivamente criminosos como Stalin, Mao Tse Tung, Fidel Castro e tantos outros, acusados de grandes chacinas de adversários. Até ditadores de fancaria do tipo Hugo Chávez são aceitos incondicionalmente.

A direita, por seu lado, se não chega a endeusar figuras como Adolf Hitler ou Benito Mussolini, aceita impassível meliantes do tipo Harry S. Truman, o da bomba atômica, George Bush, Idi Amin Dada, Papa Doc, Juan Perón e outros do mesmo calibre. Alguns chegam a ser homenageados com nome de rua —veja o caso do comissário Filinto Müller, o truculento chefe de polícia da ditadura Vargas (que me concedeu sua última entrevista, para o extinto Diário da Serra). Cada lado tem o criminoso que merece. Resumindo: pimenta no fiofó alheio é refresco.

Recentemente, o poeta e cronista Ferreira Goulart escreveu no jornal Folha de S.Paulo que "(...) entendo que a dificuldade de definir, hoje, esquerda e direita é consequência do avanço das ideias progressistas. Conhece alguém que se oponha à construção de uma sociedade justa? Eu não conheço. Difícil mesmo é chegar lá."

A idéia das velhas esquerdas dos anos 1950 a 80, de luta armada, totalmente fora da realidade, só serviu para estimular a reação antidemocrática. Não me entusiasma a sociedade de consumo desenfreado, nem penso que o mercado seja o árbitro de todos os valores. Esses têm de vir da cultura, da sociedade, das pessoas. Sem radicalismos de "direita" e "esquerda". "Todas as revoluções passam", dizia Kafka, "e só resta o lodo de uma nova burocracia"...

Não estou certo de que a discussão política sobre o que distingue a direita da esquerda seja apenas uma questão política ou se é, antes, uma questão filosófica relevante. Aliás, é muito raro encontrar tais conceitos na literatura filosófica. Seja como for, há uma tendência muito frequente nas discussões sobre direita e esquerda que me parece filosoficamente estéril e que consiste em caracterizar ambos os lados de tal modo que se torna imediatamente óbvio a uma mente equilibrada que um deles está errado e o outro certo.

Se, na caracterização filosófica de uma disputa, se torna evidente, para um ser racional interessado na verdade, que num dos lados estão os bons (ou os que pensam bem) e no outro lado os maus (ou que pensam mal), então tal caracterização nada tem de filosófica. A distinção em causa não passaria, nesse caso, de uma diferenciação pseudo-filosófica. Mas é sempre bom ficar como o vesgo, olhando pra os dois lados: cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo!

3 comentários:

Jota Jr disse...

Excelente explanação Luca! Vou passar o link para um pseudo-esquerdista amigo bixo que tem um só olho e muitas linguas

Casa do Maribondo disse...

Obrigado pelo comentário. Mas não creio que seu amigo aceite a reprimenda...

Marcelo do PV disse...

Artigo excelente !!!