terça-feira, 2 de novembro de 2004

A força da libido

02/11/2004
Sempre fui um sujeito extremamente curioso, até por vício profissional: não existe jornalista que não seja curioso. Muita gente argumenta que curiosidade está mais para vício do que virtude. Eu, não! Como Samuel Johnson, penso que “a curiosidade é uma das características permanentes e certas de um espírito vigoroso”. Foi a curiosidade que fez o homem ser o que é hoje – para o bem e para o mal.

Essa curiosidade já me proporcionou momentos excelentes, gratificantes, mas também já me colocou em situações não muito agradáveis, como quando pesadelei (se existe o verbo sonhar, porque não o verbo pesadelar, já que existe também o adjetivo pesadelar?) com o Pedro Bial apresentando o Mano Véio, programa calhorda de tv mais conhecido por Big Brother Brasil. Mas essa é outra história.

Vamos ao mote da história que ora vos narro: sempre que via um padre, ficava me perguntando que espécie de gravata borboleta (sem asas) branca era aquela que eles usam dentro da gola de seus hábitos e batinas. Às vezes me dizia que aquilo era uma régua encurvada. Mas na verdade é mesmo chamado de gravata.

Pesquisando em bibliotecas antigas, mosteiros, documentos secretos e muitas outras fontes, acabei descobrindo a verdadeira origem deste curioso artefato. Vou contar: nos anos 1920, nos tempos do jazz, do charleston, os moralistas de sempre sofriam com o sério problema da proliferação de bordéis. A revolução sexual ainda estava longe de acontecer, portanto, a única opção que os cansados operários tinham para liberar a tensão causada pelas linhas de produção eram as chamadas casas de tolerância, bordéis, lupanares.

Sempre preocupada com a moralidade alheia, a Igreja Católica resolveu atacar o mal pela raiz. Como a inquisição já havia acabado – e não ia pegar bem para os sacerdotes andarem por aí com lança-chamas queimando todas as moças de vida airada –, foi decidido que cada padre entrasse nas casas de luz vermelha pelo menos uma vez ao dia. Não!, não pense mal dos chefões da Igreja Católica, Apostólica, Romana. A idéia era a seguinte: isso constrangeria os fregueses dos bordéis de tal forma que, pouco a pouco, a demanda para esse tipo de serviço, digamos específico, iria diminuir até um ponto aceitável.

Porém os bispos e cardeais não contavam era com o poder de sedução das quengas, como dizem os nordestinos, com a força da libido. Ao encarar o diabo de frente (quem mais poderia ter inventado tal atividade a não ser o demo?), os jovens (puros e inocentes) ministros do Todo-Poderoso acabavam se atrapalhando e, muitas vezes não conseguiam conter sua lascívia reprimida por anos e anos de monastério. Resultado: os pais de família se sentiam até aliviados ao verem que nem os representantes do Senhor resistiam às tentações. O tiro da Igreja acabou saindo pela culatra.

Um dia, porém, um jovem padre francês resolveu virar o jogo. Foi ao bairro mais divertido de Paris, entrou no mais famoso cabaré da França e esperou que a grande estrela da casa começasse seu jogo de sedução. Todos queriam ver em quanto tempo a moça domaria o pobre coitado. Nadja, uma tipa com jeito cingano, a grande atração do lupanar surgiu no palco. Bela, loira, corpo perfeito, trajando um vestido de levantar morto e, o que era pior, dançando. E como dançava a bela Nadja. Padre Gaubert – este o nome do jovem sacerdote – se ajeitava na cadeira, tentando disfarçar o turbilhão de sensações que percorriam seu corpo viril. Quanto mais ele tentava se conter, mais ela aproximava. E Nadja dançava, ah!, como dançava! Aos poucos, Nadja foi encurralando os olhares e atenção de Gaubert, até que sentou em seu colo e, num cruzar de pernas criminoso – ela cruzava as pernas como quem maneja um instrumento de precisão –, deixou a fenda da saia se abrir, mostrando sua escultural e carnuda coxa envolvida por uma delicada meia de seda, cingida por invejada cinta-liga branca.

Deixando de lado todos os ensinamentos clericais e teológicos, Gaubert começou a abraçar a moça, que mantinha na bela face um leve e jocoso sorriso: uma Gioconda pervertida. As mãos do jovem começaram a percorrer as longas pernas que se levantavam lentamente. Pé, tornozelo... sura... joelho, antecoxa... coxa. Seus olhos se fecharam e sua boca se aproximou da face da piturisca, que já dava por certa a vitória. Quando todos menos esperavam, Gaubert agarrou a liga da perna direita da moça, e num só puxão, arrancou-a.

Como um troféu, levantou-a e, se esquivando rapidamente da moça que ainda tentava beijá-lo, disse em tom gongórico: “De hoje em diante, carregarei em meu pescoço essa liga, como prova de minha abnegação e lealdade ao Senhor. Todos que aqui me olham, saberão que eu, homem comum, de carne e osso assim com vós, resisti à tentação em prol dos preceitos que me regem. Levarei esse objeto danado para onde for, mostrando a quem quiser ver, a vergonha que sinto de vós e todos aqueles que se tornaram reféns de seus instintos primatas. Espero, e lutarei como puder, para que a decência volte a imperar em nossa sociedade, e assim sendo, retiro-me deste antro com a certeza de que a vontade divina será cumprida”. Gaubert colocou a liga por dentro do seu colarinho e saiu, seguido por todos os homens, que viram ainda não acreditavam naquele que resistira à maior de todas tentações: a dança sensual de Nadja e a liga branca que lhe cingia as coxas.

Não deu outra: rapidamente a história se espalhou no mundo ecumênico. Sempre sábia, Roma, sempre atenta para o poder dos fetiches, distribuiu ligas brancas a todos os padres, jovens e velhos, para que estes seguissem o exemplo do moço francês. Em pouco tempo o problema estava resolvido – ao menos era o que parecia – e o alto clero pode descansar em paz.

A única pessoa que não descansou em paz, nunca mais, foi a pobrezinha da Nadja. Como a jovem e bela mercadeira do corpo poderia saber que o seu fracasso acarretaria na maior recessão de todos os tempos no mercado de entretenimento adulto? E para piorar sua triste condição, ela não conseguia nem entrar no mais recôndito dos confessionários... Aquela liga imaculadamente branca cingindo o pescoço dos sacerdotes a fazia chorar. Muito. Aos borbotões.

Como se vê, a libido é uma força miraculosa. É uma espécie de usina elétrica do corpo humano, geradora de energia capaz de acionar todos os elétrons do sexo nosso e dos outros. Enquanto dá a luz, liga a batedeira do nosso ego, aciona o microondas do nosso id, a máquina de lavar nossa roupa suja psíquica, dispara o liquidificador da nossa mente. E tem mais, a libido nos faz acelerar o passo para da uma espiada nos glúteos da cachorra que está à nossa frente. Ainda assim não teve força suficiente para desviar nosso Gaubert de seu divino caminho...

http://luca.maribondo.blog.uol.com.br/

luca.maribondo@terra.com.br

2 comentários:

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