sexta-feira, 2 de outubro de 2009

_Rato!

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Lendo as gazetas não faz muito tempo, fiquei sabendo, um tanto assombrado e constrangido, que uma equipe de cientistas dos Estados Unidos da América revelou que a raça humana descende de um animal parecido com o rato, que viveu no período Cretáceo, ou na era dos dinossauros, há uns 125 milhões de anos. O estudo que nos liga aos histricomorfos murídeos foi divulgado no pela revista britânica Nature, um das mais conceituadas publicações do mundo, especializada em ciências.

Diz a publicação inglesa que a conclusão dos sábios norte-americanos foi possível depois da descoberta do fóssil de um mamífero com placenta mais antigo encontrado até o momento. O animal viveu na época dos dinossauros na província chinesa de Liaoning, conforme cientistas do Museu da História Natural de Carnegie, em Pittsburg (EUA).

O animal, com um jeitão de rato, tinha uma longa cauda e comprimento de uns dezesseis centímetros, se alimentava provavelmente de insetos e é o exemplo mais antigo conhecido da subclasse de mamíferos eutérios ou placentários, isto é, aqueles animais que se desenvolvem em uma placenta —ao contrário dos metatérios ou aplacentários, cujos recém-nascidos imaturos completam seu desenvolvimento em uma bolsa marsupial, como os cangurus.

Tem mais: os pesquisadores que encontraram o fóssil lhe deram o nome de “mãe do amanhecer”, Eomalia. Essa espécie de rato tinha longos dedos que lhes dava a possibilidade de subir em árvores, o que possivelmente os protegia de serem devorados pelos dinossauros. E provavelmente já se podia antever neles uma certa queda para as macaquices...

As investigações revelaram que essa espécie de mamíferos tinha um longo período de gestação, durante o qual nutria suas crias através da placenta. Embora o Eomalia seja o antecessor dos mamíferos que se alimentam através da placenta durante o período de gestação, os pesquisadores acreditam que ele se reproduzia de forma similar aos atuais marsupiais. Os cientistas chegaram a esta conclusão porque algumas partes do esqueleto encontrado sugerem uma gestação curta e uma alimentação posterior da cria suspensa no abdômen.

Li todas essas informações e fiquei cá pensando com meus zíperes: não é que tem mesmo a ver? Os ratos parecem merecer os homens e vice-versa —e, ao menos nalgumas formas de se comportar, nos parecemos. Eles e nós gostamos de morar em ambientes parecidos, em tocas. E temos particular atração por cidades grandes, sujas, malcuidadas. E, apesar de nos temermos mutuamente, temos também fascinação um pelo outro.

Eles porque por um motivo ou outro escolheram viver com a gente e não na floresta como os outros animais não domesticados. Nós porque talvez vendo neles o melhor (ou o pior) espelho para nós mesmos, os transformamos em personagens como Mickey Mouse, Jerry, Félix e tantos outros ratos humanizados e meio bestas da cultura popular e de massa atual e antiga. Todos importados —não lembro de nenhum rato na cultura popular e no foclore brasileiros.

Como se sabe, rato é um mamífero roedor da família dos murídeos (nada a ver com muros, mas talvez tenha dado origem aos tucanos políticos). A espécie mais conhecida é o Rattus rattus (tem males que vêm em dobro). Na Idade Média, o rato foi acusado de ser um dos causadores da peste negra. Desde sempre ele tem a faculdade de assustar as mulheres (e os homens também!, não sejamos machistas), levando-as a subir na cadeira, na mesa e, incontinente, fechar as pernas —talvez seja por isso que em Portugal um dos apelidos da pixoca seja ratinha.

Como insulto, é sinônimo de ladrão, covarde. Há uma celebre e tradicional pergunta, “você é um homem ou rato?”, feita para encorajar pessoas reticentes, que se acovardam diante de situações difíceis. Agora, a resposta, em razão das descobertas dos paleontólogos norte-americanos, talvez deva ser outra: “Sou ambos”. O que não nos fará, evidentemente, nem piores nem melhores do que já somos.

Um comentário:

Rodrigo Gomes disse...

Essa história não pode em absoluto surpreender a ninguém, afinal homens e ratos se parecem grandemente, exceto pelo fato do rato ser muito mais fiel aos seus pares do que o tal bicho-homem, percebo também que as lideranças dos roedores também se preocupam mais com seus comandados e menos em cometer abusos de poder. Imagino que entre eles exista a frase “você é um rato ou um homem” e que agora em profundo sofrimento, eles temam o entendimento da resposta. O homem já foi rato? Processo evolutivo físico e degenerativo moral. (para o rato!)