sábado, 6 de dezembro de 2008

Difícil é comunicar de perto

Because something is happening here
But you don't know what it is
Do you, Mister Jones?

Bob Dylan in "Ballad of a Thin Man"

Não adianta procurar; está cada vez mais difícil encontrar um restaurante, lanchonete ou bar que não possua um telão ou um enorme televisor no recinto. Está cada vez mais difícil encontrar, em Campo Grande ou em qualquer outra cidade do Brasil, um local para sentar e conversar com amigos tranqüilamente. Em quase todos esses espaços —dos lugares da moda aos botequins pés-sujos da periferia, há enorme parafernália tecnológica, cujo som ensurdecedor e imagens poluídas dificultam qualquer diálogo inteligível —ou mesmo ininteligíveis.
Acaba acontecendo quase sempre uma situação absurda: as pessoas deixam seus televisores em casa para assistir televisão num bar ou restaurante e, por isso, não conversam civilizadamente —gritam, impõem-se pela tirania do grito, fazendo com que ninguém escute e todos falem ao mesmo tempo. A poluição sonora e imagética desses ambientes aumenta ainda mais com os toques, cada vez mais espalhafatosos e calhordas, de celulares e a gritaria dos néscios que os atendem.
E o que motiva tanto as pessoas a estarem conectadas, ininterruptamente, com o mundo sonoro e visual? O que tanto as leva a usarem, o tempo todo, um, dois e até três aparelhos celulares, bips, aifones, aipodes, notebuques com uaifai y otras cositas más. Por que, ao conectar-nos à rede, ficamos, em muitas oportunidades, conectados ao nada?Por que uma verdadeira conversa é hoje tão difícil num espaço público?
Considerando a dificuldade apresentada, formula-se a seguinte hipótese: hoje, de forma geral, as pessoas têm pouco ou nada a dizer umas às outras, e, por isso, não têm o que conversar, resignando-se a falar qualquer coisa a quem sempre está distante, ainda que fisicamente próximo. Ou então ficam vendo televisão, batendo papo nos MSN da vida, ou jogando joguinhos eletrônicos calhordas, o que fariam melhor e mais barato em suas próprias casas.
Como elementos paralelos, alternam-se as imagens pouco assimiláveis (quem consegue dar atenção total à tv na balbúrdia de um botequim?) de uma tv e os sons estridentes de aparelhagens de som que atordoam os sentidos. Assim, se três amigos se encontram num bar, não raro os três têm telemóveis, cada um tem o sentido na pessoa ausente, que o chamará ou será chamada ao telefone. Se um dos três fala ao telefone, os outros se calam, sentem-se indiscretos —há uma imposição que os obriga olhar para o lado como quem surpreende alguém fazendo xixi na rua.
Essa necessidade, quase patológica, de falar constantemente ao celular não decorre da importância que essas pessoas dão a si mesmas, supondo-se absolutamente indispensáveis, porque imaginam que os outros sempre necessitam delas? Ou seria a incapacidade de falarem consigo próprias e pensarem sobre si mesmas que impulsionariam muitas delas à tagarelice, no caso do celular, e a não olharem para si mesmas, no caso da tv? Enfim, o vazio interior das pessoas não lhes provocaria o medo atroz de si mesmas, que, para ser compensado, as leva a buscar conexão com todo um mundo, ou seja, com ninguém?
E isso mesmo acontece com relação aos televisores nos bares e restaurantes. Em seu livro "1984", George Orwell compõe com brilhantismo uma "utopia negativa" em que os cidadãos são vigiados todo o tempo, em todo lugar, pelas teletelas (aparelhos que transmitem e captam som e imagem) sob a liderança do partido no poder e do Big Brother (Mano Veio). Em todos os lares dos membros das comunidades, praças, ruas e locais públicos, as teletelas transmitem a ideologia do partido. Mais que isso: captam todos os movimentos de todas as pessoas.
Onipresente, o Big Brother, não o programa besta da tv mas o líder vigilante do livro de Orwell, é visto em cartazes espalhados por toda a Oceania, um dos três únicos países existentes na história. Apesar de estar sempre presente, ele jamais aparece em público. O Mano Véio talvez nem seja uma pessoa real —ninguém nunca o viu. Mas o slogan do partido, o Grande Irmão zela por ti; seus feitos nas guerras; seu trabalho duro para melhorar a condição de vida do povo da Oceania; e sua liderança firme e constante na propaganda do partido, conduz o povo da Oceania a acreditar na sua presença e existência.
A eficácia da propaganda é maior: faz com que o povo não só acredite na existência do Mano Véio, mas o ame e o idolatre. Em um mundo em que o Estado domina e nada é de ninguém, mas tudo é de todos, talvez, tudo que reste de privado seja alguns centímetros cúbicos no crânio: aquilo que chamamos de cérebro.
No ano de 1984, muita gente conjecturou que a profecia de Orwell em "1984" não havia sido cumprida. Vê-se hoje, entretanto, que estavam todos enganados: as previsões orwellianas são uma assustadora realidade, até porque a maioria ao não percebeu sua concretude. As teletelas, agora chamadas televisores, computadores, câmeras (sorria, você está sendo filmado!), estão aí, em todos os lugares.
Percebe-se que as pessoas buscam preencher seus vazios interiores com formas de ruídos e imagens que não passam de manifestações do próprio vazio. Parafraseando George Berkeley, substituímos um vazio por outro. Porém, de onde vem este vazio? Em poucas palavras, do tédio cotidiano. Isto significa dizer que a repetição constante em vários setores da nossa vida (trabalho, o tum-tum-tum da música eletrônica, a programação vazia da tv) gera a monotonia, que gera o tédio, que gera o vazio, e que, por sua vez, gera a incapacidade das pessoas de lidar com o tempo livre. De certo modo, os indivíduos talvez temam, de fato, a si mesmo, pois é custoso imergir nele, dar sentido á sua verdadeira substância e, ademais, há os riscos das descobertas e das transformações, das mudanças do que é tão regular e cômodo: o nada, o vazio e o ócio improdutivo.
Nunca é demais lembrar que o século XVIII francês inventou os famosos salões de conversação. Eram verdadeiros espaços sociais, em que os convidados podiam se expressar livremente, longe das censuras da corte, e em que manter a conversa animada se constituía numa arte. Havia certas regras. A mais expressiva era a interdição do monopólio da palavra. O encerramento de uma rodada de conversa significava que todos se expressaram a contendo, valendo-se da palavra argumentada para convencer seus ouvintes.
Muitos autores, poetas, pensadores do século XVIII francês fizeram dos salões ambientes de debate, de gestação e problematização inicial de suas obras. Houve outros espaços, especialmente os cafés parisienses, que se tornaram ambientes de socialização, porque, neles, se encontravam os amigos, sabia-se das novidades, trocavam-se informações, idéias e conhecimentos. Essa idéia de meio e espaço de conversação foi retomada na França no final dos anos 1980 na forma do "Café Filosófico", que rapidamente se espalhou pelo mundo, inclusive no Brasil.
Dizem que o século XXI é o século da comunicação. Nunca foi tão fácil comunicar-se com o mundo como os dias atuais. A Internet, efetivamente, não só facilitou o acesso à informação, mas, também, o contato entre as pessoas. Num átimo, é possível falar com alguém do outro lado do mundo. Porém, esse acesso tão fácil significa, necessariamente, que as pessoas se encontram e trocam informações e conhecimentos?
É evidente que, ainda que se dê a troca de informações e conhecimentos, caso elas se habilitem para tanto, não se pode dizer que elas se tornem melhores e mais humanas, mais conhecedoras de si mesmas e do outro. A parafernália eletrônica impõe às pessoas situações paradoxais: ao anular as circunstâncias do espaço, aproxima as pessoas, mas, ao mesmo tempo, as mantém distantes; talvez não seja erro afirmar que a parafernália unifica os pólos extremos, mantendo-os em seus pontos remotos. Por essa razão, decerto, muitos dos que falam ao celular berram, gritam como feirantes em um mercado superlotado, como que tentando fazer com que mais gente os ouça.
Sim, nos lugares barulhentos, todos são como feirantes, cada um deles tenta mostrar-se, “vender-se” como um produto singular, o melhor dos oferecidos, exigindo o monopólio palavra: ganha quem falar mais alto. Sejam os que falam ao celular ou os que fazem uso da Internet, sejam os que escrevem ou apenas discursam: suas mensagens se tornam cada vez mais codificadas, abreviadas, cheias de coloquialismos vagos, empobrecendo-se seriamente o processo comunicativo —a palavra deixou de ter importância, embora seja cada vez mais necessária. Não se ouvem mais as acústicas das palavras, não mais se assimilam os sentidos que lhes são possíveis, não mais se percebem os sentimentos que elas exprimem: tudo é reduzido ao simplismo e a códigos descontínuos e boçais. Nesse sentido, pode-se concluir que diz-me como tu falas que te direi quem és...
Não se trata de demandar uma volta ao passado ou defender a repulsa à tecnologia, como neo-luddistas. O que se busca é questionar os vários usos dos meios de comunicação que, na verdade, não realizam o processo comunicativo e nem aproximam as pessoas, mantendo-as ilhadas, escravas de suas próprias pessoalidades. Lee Siegel, o polêmico crítico cultural norte-americano, numa entrevista publicada há algum pelo Caderno Mais da "Folha de S.Paulo", diz textualmente: "Estamos vivendo numa cultura da primeira pessoa, na qual as pessoas parecem incapazes de usar o pronome pessoal da terceira pessoa, como 'ele' e 'ela'. Todo mundo só usa o 'eu'.”
Talvez, seja preciso voltar a ler Michel de Montaigne. Ele, que é considerado o fundador da subjetividade no mundo moderno, dizia que era melhor conhecer a alma do que preenchê-la. E continua: "Eu penso sobre mim mais do que qualquer outro assunto". Sem temer a alma humana nem a si mesmo, Montaigne ensina, primeiramente, a conhecer-nos melhor e a não temer a solidão, muito menos o questionamento de nós mesmos. E quanto mais nos conhecemos, tanto mais somos livres para decidir sobre o que queremos. É nessa perspectiva que as pessoas usarão (ou não) a parafernália eletrônica como meio de aproximação dos indivíduos sem ser dela escravos.
Em resumo, depois que a tecnologia inventou telefone, computador, celular, aipode, aifone, Internet, todos os meios de comunicação a longa distância é que estamos descobrindo que o grande problema da comunicação é o de perto. Enquanto isso, cada vez mais o cidadão é cuidado, vigiado, espionado, espreitado, investigado, observado, pois não há forma melhor —para governos e empresas— enfiar as mãos nos bolsos de todos nós para nos vender bobagens e nos extorquir com impostos. Se nós, pessoas, temos problemas de comunicação, grandes conglomerados empresariais e os governos não têm: estão comunicando até o que nunca pensaram e imaginaram.

Campo Grande MS, sábado, 6 de dezembro/2008
luca.maribondo@terra.com.br

Um comentário:

Victor Saboia disse...

Entrar em bar e restaurante pra ver tv realmente é um é no saco. De verdade, a pessoas perderam mesmo o jeito de se comunicar pessoalmente.