sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Nas mãos dos palhaços


Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo.

Pierre-Joseph Proudhon

Mesmo em tempos de Internet, uma estrutura completamente anárquica, ainda há quem veja o anarquismo como sinônimo de caos, desordem, confusão, desorganização e distúrbio. Mas quem é mais letrado sabe que anarquismo não é nada disso. Mesmo que assim fosse, não se pode esquecer que é do caos que se cria a harmonia. Michael Bakunin, um dos mais brilhantes teóricos com anarquismo propunha: “deixem-nos por a nossa fé no espírito que destrói e aniquila somente porque é a insondável e eterna fonte criativa de toda a vida. A ânsia de destruir é também uma ânsia de criar”. Eu acrescentaria que para criar o bom é preciso destruí o mal.
Anarquia, portanto, não é confusão, anarquia não é desorganização, anarquista não é sinônimo de desordeiro.

Anarquia, do grego an (sem) e arché (poder): sem poder. Anarquismo é o movimento que luta por uma sociedade em que ninguém tenha poder sobre ninguém. O anarquismo apresenta apenas um aspecto da liberdade: a liberdade dos seres humanos entre os seres humanos. Trocando em miúdos, a grande preocupação do anarquismo é a conquista da liberdade.

Os mesmos que confundem anarquismo com desordem garantem que a idéia é utópica, impossível de ser colocada em prática. Mas no coração gelado do capitalismo europeu, na fria Copenhagen, capital da Dinamarca, uma comunidade de mais de dez mil pessoas vive num outro sistema. Christiania não tem prefeito nem vereadores, não tem eleição e funciona sem governo, sem a imposição de leis que controlem a organização social.

Libertária, a cidade resiste há mais de 30 anos, criando um jeito novo de vida comunitária. Limpeza das ruas, rede de esgoto, manutenção dos serviços básicos, tudo é decidido e feito diretamente pelos moradores da cidade. Eles se definem como uma comunidade ecologicamente orientada, com uma economia discreta e muita autogestão, sem hierarquia estabelecida e o máximo de liberdade e poder para o indivíduo. Uma verdadeira democracia popular direta, onde o bom senso e o diálogo substituem as leis.

Christiania começou a escrever sua história em 1971. Foi a partir das idéias de uma publicação alternativa, a Head Magazine, que um grupo de pessoas, de idades e classes sociais variadas, decidiu ocupar os barracos de uma área militar desativada na periferia de Copenhagen. Era o início de uma luta incansável contra o Estado. A polícia tentou várias vezes expulsar os invasores da área, mas sem sucesso. Christiania virou um problema político. A primeira vitória veio com o reconhecimento da cidade como um experimento social, em troca do pagamento das contas de luz e água, até então a cargo dos militares, proprietários da área.

O Parlamento decidiu que o experimento Christiania continuaria até que se encontrasse usos para a área ocupada. Em 73 houve troca de governo na Dinamarca e a situação de radicalizou: o plano agora era expulsar todos e fechar a cidade. O governo decretou que a área seria esvaziada até o dia 1º de abril de 1976. Na última hora, o Parlamento decidiu adiar o fechamento de Christiania. A população da cidade tinha se mobilizado para o confronto com o Estado, mas a guerra não aconteceu. O dia 1º de abril tornou-se o dia de uma grande manifestação da Dinamarca Alternativa.

Ao longo dos anos, a cidade-livre aprimorou sua autogestão: os mais diversos serviços públicos foram criados e passaram a funcionar na forma de autogestão. Mas década de 80 foi marcada pelas drogas. Em 82, o governo começou uma campanha difamatória contra Christiania: a cidade-livre era considerada o centro das drogas do Norte da Europa e a raiz de muitos males. A comunidade teve então que organizar programas de recuperação de drogados e expulsar comerciantes de drogas pesadas, como a heroína. O mercado de haxixe continua funcionando normalmente.

Mas o governo dinamarquês nunca deixou Christiania em paz. Vários planos foram elaborados visando a “normalização e legalização” da área. Em janeiro de 92, finalmente um acordo foi assinado. Christiania já tinha mais de vinte anos de independência e provara ao mundo que é possível viver em liberdade. Mesmo com o acordo, o governo ainda tenta controlar a cidade-livre. A resposta veio há algum tempo, com o lançamento do Plano Verde, em que os moradores de Christiania expressam sua visão de futuro e que rumos tomar.
Christiania tem provado ao mundo que é possível viver numa sociedade sem autoridade constituída, sem delegação de poder através de mandatos e eleições. A cidade-livre da Dinamarca criou um experimento social definitivo contra a idéia dominante de que a humanidade se auto-destruirá se não existir um controle sobre a liberdade individual.

Os habitantes de Christiania decidiram correr o risco de andar na contra-mão da história. Para eles, o governo, seja lá qual for, e seus mecanismos de administração pública são sinônimos de burocracia, abuso de poder e corrupção. Vivendo sem a necessidade de leis que controlem a organização social, cada morador da cidade livre tem que fazer sua parte enquanto cidadão e confiar que todos farão o mesmo. É uma nova ética de convivência, baseada na honestidade e na solidariedade.

Em 31 anos de existência, a cidade-livre sempre esteve associada à rebelião contra a ordem estabelecida e experimentando novos meios de democracia e formas de autogestão da administração pública. Christiania se organiza em vários conselhos, nos quais todos os cidadãos têm direito a opinar e discutir os problemas comunitários. As decisões não são feitas por votação, mas sim através do consenso. Isso significa que não é a maioria que decide e sim que todos tem que estar de acordo com as decisões tomadas nas reuniões. Às vezes, contam-se os votos somente para se ter uma idéia mais clara das opiniões, mas essas votações não tem nenhum significado deliberativo, não contam como uma solução para os problemas da comunidade.

Christiania é dividida em 12 áreas, cada uma administrada pelos seus moradores, para facilitar o funcionamento dos serviços básicos. As decisões tomadas sempre por consenso podem parecer difíceis para nós, brasileiros acostumados ao poder da maioria sobre a minoria (pelo menos, é assim que se justificam os defensores das eleições). Mas para os habitantes da cidade-livre, o consenso só é impossível quando existe autoritarismo, quando alguém tenta impor uma opinião sem dar abertura para que outras idéias apareçam e até prevaleçam como melhor solução.

A experiência tem ensinado aos moradores de Christiania que cada reunião deve discutir só um assunto, principalmente na Reunião Comum, que decide sobre os problemas mais importantes da comunidade. E, contrariando o pessimismo dos que não conseguem imaginar uma vida sem governo institucional, a utopia está dando certo: a vida comunitária de Christiania preserva a liberdade individual e constrói uma eficiente dinâmica de relacionamento social, livre do autoritarismo e da submissão. A cidade-livre vive o anarquismo aqui e agora.
Os moradores da Christiania fazem questão de ser uma pedra no sapato do capitalismo. Eles não se contentam apenas em incomodar os valores tradicionais da sociedade européia com a vida alternativa que levam. Christiania também desenvolve várias atividades com o objetivo de contestar o sistema capitalista e divulgar as idéias anarquistas. Durante os primeiros anos, a cidade-livre se tornou conhecida por suas ações no teatro e na política. E quem conseguiu maior sucesso nessa área foi o grupo Solvognen.

Uma de suas ações diretas mais famosas foi em 1973, quando a Organização do Tratado do Atlântico Norte – Otan –, braço armado dos Estados Unidos na Europa, realizou um encontro de cúpula em Copenhagen. Inspirados no programa de rádio Guerra dos Mundos, de Orson Welles, que simulou uma invasão de marcianos colocando em pânico a população norte-americana na década de 40, centenas de pessoas, lideradas pelo grupo de teatro de Christiania, fizeram parecer que um exército da Otan tinha ocupado a Rádio Dinamarca e outros pontos estratégicos da cidade. A impressão que se tinha era de que a Dinamarca estava ocupada por forças estrangeiras. Durante várias horas, o país inteiro ficou em dúvida se a invasão era teatro ou realidade. A ação foi uma dura crítica a intervenção dos Estados Unidos na vida dos países europeus.

O Solvognen também usou a criatividade para contestar o comércio da maior festa do cristianismo. Em 1974, o grupo organizou o primeiro Natal dos Pobres da Dinamarca. Milhares de presentes foram distribuídos por um batalhão de Papais Noéis. Detalhe: os presentes eram artigos roubados das lojas de Copenhagen. Resultado: foram todos presos, mas o escândalo ganhou as manchetes dos principais jornais da Europa, com fotos dos Noéis sendo carregados pela polícia. Até hoje o Natal dos Pobres é organizado como uma tradição e todo ano aproximadamente duas mil pessoas recebem uma grande ceia em Christiania.

No resto do mundo, os acontecimentos provam que somos dominados por gente poderosa que está sempre tentando nos fazer de palhaços. Governantes de todos os quadrantes estão sempre demonstrando que não têm itinerário – ele gostam mesmo é de ficar no volante. É essa gente que demonstra que está na hora de deixar a administração do circo nas mãos dos palhaços. Com certeza eles serão mais bem-sucedidos.

Um comentário:

Forasteiro disse...

O paraiso existe. Não entendo porque as pessoas tem tanto medo da responsabilidade decorrente da liberdade. Comentava sobre anarquia com um amigo e ele exclamou: "Eu, poder fazer o que quizer?". Já estão tão condicionados a seguir regras que se assustam com a possibilidade de liberdade. Olhe a religião, quanto mais regras eles se sentem mais confortáveis.