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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Politicamente (in)correto

Creche geriátrica. Estava escrito numa placa. Levei alguns segundos pra compreender o significado daquela estranha expressão. Não que a coisa seja desconhecida, mas ver tal placa ao vivo e a cores ultrapassou de longe as minhas piores expectativas: denominação politicamente correta pra asilo, isto é, instituição de assistência social onde são abrigados os velhinhos (palavra politicamente incorreta, reconheço). Mary Saldanha, minha mulher, que estava ao meu lado, ao ouvir o vocábulo asilo logo me contestou: "Provavelmente é algo mais que um asilo —argumentou ela—, deve ser um estabelecimento com gangorra, balanços, escorregas e outros brinquedinhos pros idosos".

Ironia e derrisão à parte, creche geriátrica é de morrer de rir. Ou de chorar. Mas uma barbaridade. Ridículo!, disse pros meus botões. A que ponto chegamos. Será apenas o medo das palavras? Não se sabe, mas com certeza é a bobagem do vocabulário politicamente correto, um dos aspectos da atitude politicamente correta que parece ser exigência para a "vida-civilizada-em-sociedade" de hoje em dia.

Penso que a febre do politicamente correto é, além de tudo, burra. Dar nome aos bois é a função da língua e, portanto, utilizar-se constantemente de eufemismos só pode representar duas coisas: hipocrisia ou medo. Ou as duas coisas juntas. A língua portuguesa até que é bem precisa; não tanto quanto o alemão, mas à frente do francês, por exemplo, em que uma mesma palavra quer dizer guardanapo, toalha e absorvente (!); abraço e beijo podem ser expressos também por um mesmo vocábulo e, por fim, namorado e amigo também podem ser expressos por uma mesma palavra (ou a putaria é totalmente disseminada ou a confusão deve ser grande); ou do inglês, que tem um verbo só pra ser e estar, o verbo to be.

É nessa de não dar nome aos bois (mais por hipocrisia do que por burrice, acredito), que há palavras que foram banidas das rodas de pessoas que se dizem politicamente corretas e socialmente apropriadas. Mas quem baixou um decreto proibindo de chamar cego de cego, puta de puta, surdo de surdo, doido de doido, bicha de bicha, mongolóide de mongolóide e aleijado de aleijado, por exemplo?

Mas não pára por aí. Se você já estava se achando o mais politicamente correto do mundo por utilizar o deficiente com os seus diversos qualificativos, cuidado. Recentemente, num programa desses que passam à tarde na tv, a representante de uma entidade de atletas deficientes conclamava à utilização da expressão, pra ela "não-preconceituosa", atletas-eficientes. Eficientes?! Aí já é demais! E essa história não significa que esse discurso é preconceituoso. Estou apenas na defesa do "nome aos bois" (não, não estou chamando deficientes de bois, e nem duvidando de sua eficiência para o trabalho!).

Mas o que é, afinal, o politicamente correto? Não tem uma resposta simples, mas um dos significados da expressão diz que é um modo de falar que supostamente não fere os sentimentos e a suscetibilidade de pessoas pertencentes a grupos marginalizados ou desavantajados ou ainda ambas as coisas. Surgiu nos EUA, país que tem uma sólida tradição de defesa dos direitos humanos, mas por outro lado, tem também uma robusta base de preconceitos: o país de Thomas Jefferson é também a pátria da Ku Klux Klan.

À medida que os diversos grupos e estamentos (étnicos, políticos, profissionais, religiosos, sociais, esportivos etc.) fizeram valer seus direitos, o vocabulário teve de mudar. Entretanto, como sói acontecer nesses casos, o tiro em muitas situações saiu pela culatra: o que era uma sadia reação aos preconceitos e à discriminação tornou-se caricatural, debochado, tosco. Não poucas vezes, ridículo!

Tal e qual o conhecemos atualmente, o politicamente correto representa a entropia do pensamento político. Como tal, é de impossível definição até porque carece de um verdadeiro conteúdo. Seu fundamento básico é aquele do vale tudo. Nele encontramos restos de um cristianismo degradado, de um socialismo reivindicativo, de um economicismo marxista e de um freudismo em permanente rebelião. Se compararmos a demolição do comunismo com uma explosão atômica, diríamos que o politicamente correto constitui a nuvem radioativa que acompanha a hecatombe.

O politicamente correto consiste na observação da sociedade e da história em termos maniqueístas. O politicamente correto representa o bem e o politicamente incorreto representa o mal. O supra-sumo do bem consiste em buscar as opções e a tolerância nos demais, a menos que as opções do outro não sejam politicamente incorretas; a quintessência do mal encontra-se nos dados que precederiam à opção, quer sejam estes de caráter étnico, histórico, social, moral e sexual —e inclusive nos avatares humanos. O politicamente correto não atende à igualdade de oportunidade alguma no ponto de partida, senão, ao igualitarismo nos resultados no ponto de chegada.

Ninguém inventou o politicamente correto: ele nasceu como conseqüência da decadência do espírito crítico da identidade coletiva, quer seja esta social e nacional, quer seja religiosa ou étnica. O politicamente correto é de uso comum entre os intelectuais desarraigados, porém como é contagioso, é normal que outras pessoas estejam contaminadas sem que por isso estejam conscientes disso.

A desintoxicação é difícil, na medida em que vivemos em um mundo no qual os meios de comunicação (e a palavra mídia —o termo é usado errado inclusive, até porque midia é plural de midium—, é em si mesma um barbarismo politicamente correto) adquiriram uma importância desmesurada e são precisamente estes os encarregados do contágio massivo. O primeiro remédio consiste em tomar consciência de que o politicamente correto existe e que circula sobretudo através de nosso vocabulário. O segundo, seria tomar consciência de que o "eu" forma parte de um "nós" e de que este "nós" deve proteger o "eu" contra o "que se diz…" politicamente correto.

Outro remédio consiste em pôr em prática a consciência de renúncia a toda terminologia politicamente correta e às ideologias sobre as quais se apóia. Por exemplo, há que dizer "albino" em lugar de "hipopigmentado", "surdo" em lugar de "deficiente auditivo", "velhice" em lugar de "terceira idade" (ou o insolente "melhor idade"), "masturbação" em lugar de "auto-ajuda", "adúltero" em lugar de "pessoa casada com atividade sexual paralela". Um gago nunca será um loquaz intermitente.

E quais são os estragos produzidos pelo politicamente correto? Consistem fundamentalmente em confundir o bem e com o mal, sob o pretexto de que tudo é matéria opinativa. Os alvos prediletos são a família, as tradições e, sobretudo, a crença nisto, visto que para o politicamente correto só há uma verdade —o resto é falso. O politicamente correto está contaminando toda a cultura e criando uma nova e dissimulada forma de censura, muito pior porque hoje a censura é velada; é a censura do politicamente correto. E uma das principais vítimas é o humor, o humor escrito e o falado. Humor que pede licença não é humor. Cada vez mais grupos, grupelhos, guetos, classes, pessoas públicas e privadas reivindicam imunidade contra a crítica. Experimente chamar um homossexual de veado, bicha, baitola ou qualquer outra expressão similar; você logo será acusado de homofóbico —como se ser homofóbico fosse um crime.

O humor tem que ser crítico, ora! A liberdade de opinião é cada vez mais filtrada e o que temos hoje é uma liberdade melita. Isso afeta os jornalistas e os meios de comunicação, que ficam se cerceando, adivinhando processos que podem sofrer se vão contra o politicamente correto. Mas não se pode nunca esquecer que não existe nem jornalismo nem humor a favor. Jornalismo e humor são oposição.

Precisamos do humor e do jornalismo para não morrer de realidade. A vida tem de ser pensada através do humor. O humor é o menor caminho entre duas pessoas. A primeira ação do pai com o filho é um ato de humor: faz careta para o filho rir. Todos querem o riso através da vida, o riso que pode ser traduzido em felicidade. O espantalho é colocado na plantação não para espantar os pássaros, mas para que eles riam e achem o fazendeiro um cara legal. De todas as artes humanas, a que mais se destaca é o humor, o ato de levar o riso às pessoas —este riso que envolve crítica, conhecimento, informação, poesia e simples divertimento.

Como detectar uma pessoa “politicamente correta”? Uma pessoa politicamente correta considera-se a si mesma tolerante, porém não pratica a tolerância… É verdade que o politicamente correto nos espreita e se apresenta sempre com argumentos inocentes e de fácil assimilação. Trata-se de rechaçar sua inocência e repudiar essa facilidade de assimilação. É necessário, do mesmo modo, prevenir-se contra o mimetismo de falar como os demais. Repito ainda o risco de parecer pesado, o vocabulário politicamente correto é o principal veículo de contágio. Em qualquer caso, há que afirmar que o politicamente correto é uma fé débil e que, como tal, não resiste a uma enérgica aplicação do espírito crítico. Não temos que ser submissos aos sentimentos e opiniões generalizadas: o espírito contraditório mais obtuso vale sempre mais do que a livre aceitação do pasto midiático.

O politicamente correto prepara o terreno de forma ideal para as operações de desinformação e para a expansão da globalização. Quando todo o mundo acreditar que as verdades podem ser objetos de truque, de que não existem nem verdades nem mentiras, o mundo estará preparado para receber a mesma propaganda, de participar da mesma pseudo-opinião pública fabricada para consumo universal. E esta pseudo-opinião pública aceitará qualquer ação, inclusive as mais brutais que indefectivelmente irão em benefício dos manipuladores.

A linguagem, a capacidade de comunicação através da palavra, é o aspecto mais característico da espécie humana. A linguagem, porém, não serve só pra comunicação. Ela é também um veículo de crenças, de valores, de paradigmas comportamentais, de ação, e, como tal, tem uma história. Também é preciso lembrar que, por vezes, as palavras acabam por assumir uma aura de magia, para o bem e para o mal. Daí a força das pragas, das maldições, dos xingamentos.

As palavras, observa o antropólogo Bronislaw Malinowski, têm um poder próprio —elas fazem as coisas acontecer; em sua função primeira, são olhadas como um modo de agir mais do que a expressão de um pensamento. Corresponde, pois, a um determinado cenário histórico. É a expressão da revolta de grupos marginalizados em busca do que respeitam, do que merecem... Ou acham que merecem. E traduz séculos ou milênios de humilhação e de opressão, sutil ou brutal, quando não sanguinária.

Assim, em nome da diversão e da inteligência, espero tempos em que volte a reinar o politicamente incorreto, com os seus derivados de precisão lingüística e humor negro. Porque esse negócio de politicamente correto é chato, muito chato. Tão chato que chega a causar arrepios: por causa do politicamente correto, em Brasília ninguém mais chama ninguém de corrupto ou ladrão, mas de pessoa dotada de ética alternativa.

Quero o politicamente incorreto. Nunca apreciei o politicamente correto e hoje este perdeu todo o seu charme e apelo social. Perdeu a graça a definição da expressão "politicamente correto", tal como formulada por Henry Beard e Christopher Cerf em seu magnífico "Dicionário do Politicamente Correto" (L&PM Editores): "politicamente correto: culturalmente sensível, multiculturalmente não-discriminatório, apropriadamente inclusivo". A expressão politicamente correto, apropriada pela elite branca no poder com um instrumento para atacar o multiculturalismo, deixou de ser, como se vê, politicamente correta.


Campo Grande MS, terça-feira, 3 de fevereiro/2009

domingo, 25 de janeiro de 2009

Será que existe televisão depois da morte?

Tem gente com a crença profunda na idéia de que a televisão de fato existe. Entretanto, apesar dos fenômenos bizarros a ela relacionados, alguns cientistas do mundo inteiro, mais cautelosos e partidários desta ficção espantosa que se chama “o fato”, duvidam da existência da televisão como tal, atribuindo seus efeitos a um vírus filtrável, isto é, um agente de doença invisível, que passa através dos filtros e só pode ser cultivado em presença de células vivas que sejam suscetíveis, também conhecido como ultravírus ou tevírus.

Em resumo, esses homens de ciência defendem a teoria de que a tv não passa de uma moléstia pandêmica dos grandes centros urbanos e neurológicos, transmitida através de bizarras caixas de plástico ou madeira, chamadas receptores, que têm antenas, quatro ou mais patas, cíatos, um grande olho brilhante —que se torna ativo, como nos mosquitos, à hora do crepúsculo—, cinescópio, iconoscópio, e são acéfalos ou anencéfalos, além de super-heteródinos —os mais modernos utilizam sistemas como plasma, cristal líquido e outros.

Surgida originalmente no hemisfério setentrional, suas primeiras vítimas foram detectadas nos EUA, Alemanha e Inglaterra, depois na Itália, França, Belarus, Macedônia, Bósnia Herzegovina, Croácia e outros países da Comunidade Econômica Européia. Segundo os especialistas no assunto, também conhecidos como teleologistas, a tv ataca principalmente o cérebro, o cerebelo e telencéfalo, apresentando a curiosa capacidade de devastar tanto pessoas vivas quanto gente já defunta. Isto, aliás, seria explicado pelo fato de que criações dos grandes gênios da humanidade, quando acometidas pela tv, transformarem-se em fantasias pueris, cretinas e ocas.

Hoje, a televisão fala os idiomas de todo o mundo. Aqui, no Brasil, segundo o jornal Folha de S.Paulo, “do galego ao árabe, do japonês ao hebraico, a tv brasileira é uma verdadeira ‘torre de Babel’. Nela, o telespectador pode encontrar onze línguas. distribuídas em canais internacionais e/ou programas feitos no Brasil por descendentes de imigrantes”. Dizem os especialistas que não demora muito a tv brasileira vai conseguir falar em português.

Ao descrever os sintomas, os cientistas observam que as pessoas afetadas pela tv passam horas diante do olho brilhante, julgando observar ali uma infinidade de imagens fascinantes. Alguns animais domésticos, além de seres humanos, também são suscetíveis à moléstia, como é o caso de inúmeros gatos, cães, papagaios, antas e peixinhos de aquário que acabam tão fascinados quanto homens e mulheres, crianças e idosos, bichas e lésbicas.

Mas o animal doméstico que mais gosta de tv é a mosca. É notável a freqüência e a obstinação com que este díptero costuma aparecer, seja participando das imagens que as pessoas acometidas de tv (telepacientes ou telespectadores) imaginam ver no vídeo —nas orelhas dos atores das novelas, no nariz dos apresentadores de telejornais, na testa de políticos entrevistados etc.—, seja ela mesma participando como telespectadora amiga, pousando (e posando) e decolando da tela. O fato de a mosca ser vidrada em tv pode ser explicado pela especial preferência que o asqueroso inseto demonstra por matéria fecal ou coisas em estado putrefato ou malcheirosas.

Certos povos da Lapônia, algumas tribos da Amazônia interior, ugro-fineses da Europa setentrional e outras gentes menos votadas são imunes à tv e suas conseqüências. Em compensação, particularmente vulneráveis são donas de casa, senhoras de certa idade, crianças, políticos e deficientes mentais. Nos casos mais agudos, o telespectador —pessoa acometida pela moléstia— perde o interesse por tudo que não seja tv, fica preguiçosa, abandona a família, deixa de comer e passa os dias estático diante da telinha, olhos vidrados nos conjuntos de imagens a que chamam de programas, shows, telejornais, reality shows, aos quais dá nomes extravagantes como Os Mutantes, Big Brother Brasil, SuperNanny, Especial Campus Party, Octopus, Domingão do Faustão, Pânico na TV, Gordo Chic Show, Caminho das Índias etc. e tal.

Estes —e outros— são programas de televisão que, quando a gente liga, não consegue mais desligar —dorme imediatamente. As vezes fico pensando se não estou redondamente (ou quadradamente) enganado: os que vivem combatendo a televisão deveriam ser mais humildes ao emitir juízo de valor a respeito dela; afinal, 100 milhões de cretinos (só no Brasil) não podem estar tão errados.

Na fase terminal nota-se a liquefação parcial ou total da massa encefálica, dislogia, esquizoidia, encefalocele galopante e uma profunda frenoplegia. Esses fenômenos são perceptíveis tanto naqueles telepacientes que assistem tv, quanto naqueles outros que pensam que estão produzindo as imagens. Talvez seja por isso tudo que o humorista Millôr Fernandes tenha afirmado que “uma coisa não se pode negar à tv: ela não tem medo de insultar a inteligência do telespectador”.

Depois que analiso tudo isso, penso na morte e fico apavorado: será que existe televisão depois da morte?

Campo Grande MS, domingo, 25 de janeiro/2009

sábado, 6 de dezembro de 2008

Difícil é comunicar de perto

Because something is happening here
But you don't know what it is
Do you, Mister Jones?

Bob Dylan in "Ballad of a Thin Man"

Não adianta procurar; está cada vez mais difícil encontrar um restaurante, lanchonete ou bar que não possua um telão ou um enorme televisor no recinto. Está cada vez mais difícil encontrar, em Campo Grande ou em qualquer outra cidade do Brasil, um local para sentar e conversar com amigos tranqüilamente. Em quase todos esses espaços —dos lugares da moda aos botequins pés-sujos da periferia, há enorme parafernália tecnológica, cujo som ensurdecedor e imagens poluídas dificultam qualquer diálogo inteligível —ou mesmo ininteligíveis.
Acaba acontecendo quase sempre uma situação absurda: as pessoas deixam seus televisores em casa para assistir televisão num bar ou restaurante e, por isso, não conversam civilizadamente —gritam, impõem-se pela tirania do grito, fazendo com que ninguém escute e todos falem ao mesmo tempo. A poluição sonora e imagética desses ambientes aumenta ainda mais com os toques, cada vez mais espalhafatosos e calhordas, de celulares e a gritaria dos néscios que os atendem.
E o que motiva tanto as pessoas a estarem conectadas, ininterruptamente, com o mundo sonoro e visual? O que tanto as leva a usarem, o tempo todo, um, dois e até três aparelhos celulares, bips, aifones, aipodes, notebuques com uaifai y otras cositas más. Por que, ao conectar-nos à rede, ficamos, em muitas oportunidades, conectados ao nada?Por que uma verdadeira conversa é hoje tão difícil num espaço público?
Considerando a dificuldade apresentada, formula-se a seguinte hipótese: hoje, de forma geral, as pessoas têm pouco ou nada a dizer umas às outras, e, por isso, não têm o que conversar, resignando-se a falar qualquer coisa a quem sempre está distante, ainda que fisicamente próximo. Ou então ficam vendo televisão, batendo papo nos MSN da vida, ou jogando joguinhos eletrônicos calhordas, o que fariam melhor e mais barato em suas próprias casas.
Como elementos paralelos, alternam-se as imagens pouco assimiláveis (quem consegue dar atenção total à tv na balbúrdia de um botequim?) de uma tv e os sons estridentes de aparelhagens de som que atordoam os sentidos. Assim, se três amigos se encontram num bar, não raro os três têm telemóveis, cada um tem o sentido na pessoa ausente, que o chamará ou será chamada ao telefone. Se um dos três fala ao telefone, os outros se calam, sentem-se indiscretos —há uma imposição que os obriga olhar para o lado como quem surpreende alguém fazendo xixi na rua.
Essa necessidade, quase patológica, de falar constantemente ao celular não decorre da importância que essas pessoas dão a si mesmas, supondo-se absolutamente indispensáveis, porque imaginam que os outros sempre necessitam delas? Ou seria a incapacidade de falarem consigo próprias e pensarem sobre si mesmas que impulsionariam muitas delas à tagarelice, no caso do celular, e a não olharem para si mesmas, no caso da tv? Enfim, o vazio interior das pessoas não lhes provocaria o medo atroz de si mesmas, que, para ser compensado, as leva a buscar conexão com todo um mundo, ou seja, com ninguém?
E isso mesmo acontece com relação aos televisores nos bares e restaurantes. Em seu livro "1984", George Orwell compõe com brilhantismo uma "utopia negativa" em que os cidadãos são vigiados todo o tempo, em todo lugar, pelas teletelas (aparelhos que transmitem e captam som e imagem) sob a liderança do partido no poder e do Big Brother (Mano Veio). Em todos os lares dos membros das comunidades, praças, ruas e locais públicos, as teletelas transmitem a ideologia do partido. Mais que isso: captam todos os movimentos de todas as pessoas.
Onipresente, o Big Brother, não o programa besta da tv mas o líder vigilante do livro de Orwell, é visto em cartazes espalhados por toda a Oceania, um dos três únicos países existentes na história. Apesar de estar sempre presente, ele jamais aparece em público. O Mano Véio talvez nem seja uma pessoa real —ninguém nunca o viu. Mas o slogan do partido, o Grande Irmão zela por ti; seus feitos nas guerras; seu trabalho duro para melhorar a condição de vida do povo da Oceania; e sua liderança firme e constante na propaganda do partido, conduz o povo da Oceania a acreditar na sua presença e existência.
A eficácia da propaganda é maior: faz com que o povo não só acredite na existência do Mano Véio, mas o ame e o idolatre. Em um mundo em que o Estado domina e nada é de ninguém, mas tudo é de todos, talvez, tudo que reste de privado seja alguns centímetros cúbicos no crânio: aquilo que chamamos de cérebro.
No ano de 1984, muita gente conjecturou que a profecia de Orwell em "1984" não havia sido cumprida. Vê-se hoje, entretanto, que estavam todos enganados: as previsões orwellianas são uma assustadora realidade, até porque a maioria ao não percebeu sua concretude. As teletelas, agora chamadas televisores, computadores, câmeras (sorria, você está sendo filmado!), estão aí, em todos os lugares.
Percebe-se que as pessoas buscam preencher seus vazios interiores com formas de ruídos e imagens que não passam de manifestações do próprio vazio. Parafraseando George Berkeley, substituímos um vazio por outro. Porém, de onde vem este vazio? Em poucas palavras, do tédio cotidiano. Isto significa dizer que a repetição constante em vários setores da nossa vida (trabalho, o tum-tum-tum da música eletrônica, a programação vazia da tv) gera a monotonia, que gera o tédio, que gera o vazio, e que, por sua vez, gera a incapacidade das pessoas de lidar com o tempo livre. De certo modo, os indivíduos talvez temam, de fato, a si mesmo, pois é custoso imergir nele, dar sentido á sua verdadeira substância e, ademais, há os riscos das descobertas e das transformações, das mudanças do que é tão regular e cômodo: o nada, o vazio e o ócio improdutivo.
Nunca é demais lembrar que o século XVIII francês inventou os famosos salões de conversação. Eram verdadeiros espaços sociais, em que os convidados podiam se expressar livremente, longe das censuras da corte, e em que manter a conversa animada se constituía numa arte. Havia certas regras. A mais expressiva era a interdição do monopólio da palavra. O encerramento de uma rodada de conversa significava que todos se expressaram a contendo, valendo-se da palavra argumentada para convencer seus ouvintes.
Muitos autores, poetas, pensadores do século XVIII francês fizeram dos salões ambientes de debate, de gestação e problematização inicial de suas obras. Houve outros espaços, especialmente os cafés parisienses, que se tornaram ambientes de socialização, porque, neles, se encontravam os amigos, sabia-se das novidades, trocavam-se informações, idéias e conhecimentos. Essa idéia de meio e espaço de conversação foi retomada na França no final dos anos 1980 na forma do "Café Filosófico", que rapidamente se espalhou pelo mundo, inclusive no Brasil.
Dizem que o século XXI é o século da comunicação. Nunca foi tão fácil comunicar-se com o mundo como os dias atuais. A Internet, efetivamente, não só facilitou o acesso à informação, mas, também, o contato entre as pessoas. Num átimo, é possível falar com alguém do outro lado do mundo. Porém, esse acesso tão fácil significa, necessariamente, que as pessoas se encontram e trocam informações e conhecimentos?
É evidente que, ainda que se dê a troca de informações e conhecimentos, caso elas se habilitem para tanto, não se pode dizer que elas se tornem melhores e mais humanas, mais conhecedoras de si mesmas e do outro. A parafernália eletrônica impõe às pessoas situações paradoxais: ao anular as circunstâncias do espaço, aproxima as pessoas, mas, ao mesmo tempo, as mantém distantes; talvez não seja erro afirmar que a parafernália unifica os pólos extremos, mantendo-os em seus pontos remotos. Por essa razão, decerto, muitos dos que falam ao celular berram, gritam como feirantes em um mercado superlotado, como que tentando fazer com que mais gente os ouça.
Sim, nos lugares barulhentos, todos são como feirantes, cada um deles tenta mostrar-se, “vender-se” como um produto singular, o melhor dos oferecidos, exigindo o monopólio palavra: ganha quem falar mais alto. Sejam os que falam ao celular ou os que fazem uso da Internet, sejam os que escrevem ou apenas discursam: suas mensagens se tornam cada vez mais codificadas, abreviadas, cheias de coloquialismos vagos, empobrecendo-se seriamente o processo comunicativo —a palavra deixou de ter importância, embora seja cada vez mais necessária. Não se ouvem mais as acústicas das palavras, não mais se assimilam os sentidos que lhes são possíveis, não mais se percebem os sentimentos que elas exprimem: tudo é reduzido ao simplismo e a códigos descontínuos e boçais. Nesse sentido, pode-se concluir que diz-me como tu falas que te direi quem és...
Não se trata de demandar uma volta ao passado ou defender a repulsa à tecnologia, como neo-luddistas. O que se busca é questionar os vários usos dos meios de comunicação que, na verdade, não realizam o processo comunicativo e nem aproximam as pessoas, mantendo-as ilhadas, escravas de suas próprias pessoalidades. Lee Siegel, o polêmico crítico cultural norte-americano, numa entrevista publicada há algum pelo Caderno Mais da "Folha de S.Paulo", diz textualmente: "Estamos vivendo numa cultura da primeira pessoa, na qual as pessoas parecem incapazes de usar o pronome pessoal da terceira pessoa, como 'ele' e 'ela'. Todo mundo só usa o 'eu'.”
Talvez, seja preciso voltar a ler Michel de Montaigne. Ele, que é considerado o fundador da subjetividade no mundo moderno, dizia que era melhor conhecer a alma do que preenchê-la. E continua: "Eu penso sobre mim mais do que qualquer outro assunto". Sem temer a alma humana nem a si mesmo, Montaigne ensina, primeiramente, a conhecer-nos melhor e a não temer a solidão, muito menos o questionamento de nós mesmos. E quanto mais nos conhecemos, tanto mais somos livres para decidir sobre o que queremos. É nessa perspectiva que as pessoas usarão (ou não) a parafernália eletrônica como meio de aproximação dos indivíduos sem ser dela escravos.
Em resumo, depois que a tecnologia inventou telefone, computador, celular, aipode, aifone, Internet, todos os meios de comunicação a longa distância é que estamos descobrindo que o grande problema da comunicação é o de perto. Enquanto isso, cada vez mais o cidadão é cuidado, vigiado, espionado, espreitado, investigado, observado, pois não há forma melhor —para governos e empresas— enfiar as mãos nos bolsos de todos nós para nos vender bobagens e nos extorquir com impostos. Se nós, pessoas, temos problemas de comunicação, grandes conglomerados empresariais e os governos não têm: estão comunicando até o que nunca pensaram e imaginaram.

Campo Grande MS, sábado, 6 de dezembro/2008
luca.maribondo@terra.com.br

domingo, 3 de agosto de 2008

Estoque de beleza


"Não há nada mais terrível que a ignorância ativa".
Johann Goethe

Em entrevista recente com a engenheira química Sonia Hess, professora da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e uma das mais polêmicas ambientalistas do país, ela saiu-se com uma expressão muito forte ao referir-se ao Pantanal: estoque de beleza. No decorrer da entrevista não foi possível aprofundar com a professora esse conceito do "estoque de beleza". Eu, porém, resolvi agora tornar tangível, à minha moda, esse conceito: o Pantanal tem muito mais valor pela beleza que encerra em sua superfície do que pela exploração das suas matérias-primas.

Para Hess, a preservação da região é fundamental, até porque a beleza, diz Oscar Wilde, "é a única coisa no planeta contra a qual a força do tempo nada pode: a política não se sustenta nas suas bases falsas; as filosofias se desmancham como areia; as crenças sucedem-se uma após a outra; a História muda seus rumos de acordo com os vencedores. Mas o que é belo é uma alegria para qualquer época, em qualquer tempo; e é algo que pertence a toda a humanidade para sempre". É imutável.

Mas estamos deixando a beleza de lado: mais freqüentemente do que seria aceitável, nossa visão contemporânea das coisas é encoberta pela doutrina do utilitarismo, a idéia fundamental que afirma que o valor das coisas, inclusive dos seres humanos, depende exclusivamente da sua utilidade. Esse óptica leva, inevitavelmente, a muitos dos conflitos que assombram o mundo moderno: o culto da eficiência, a busca da linha de base e da produtividade máxima a qualquer custo e a idéia de que a própria natureza é meramente uma fonte de matérias-primas e insumos para ser explorada à exaustão, ao esgotamento. Em um tempo em que os conceitos de utilidade triunfam sobre a experiência da beleza e do prazer, nossa experiência do mundo torna-se muito mais uni-dimensional e insatisfatória. Chegamos ao ponto de criticar o hedonismo como algo pecaminoso.

Em outras palavras, a crença no utilitarismo leva ao reducionismo e à sociedade de consumo. Na ideologia consumista, o indivíduo —que já foi visto como um espelho das infinitas possibilidades da criação— é reduzido ao status de consumidor, mero coadjuvante econômico no sistema mecanicista de produção e consumo que leva à relegação e, finalmente, à destruição da beleza do mundo natural. Hoje em dia os humanos, principalmente as mulheres, são capazes de destruir suas próprias belezas naturais —colocando seios, bundas, coxas e outras partes de suas anatomias artificiais— em busca de um pretenso embelazamento midiático.

Seria uma das grandes mudanças da era atual reafirmar a dignidade da humanidade e da noção de que a finalidade da vida não é apenas a sobrevivência em nome da utilidade, mas a experiência da beleza, prazer e criatividade. Na Renascença, por exemplo, a arte e a educação foram vistas como amplos caminhos nos quais poderíamos aprofundar nossa experiência de vida. De acordo com essa visão, o humanitarismo não está separado da vida diária, mas reflete a trama de temas eternos com os quais nossa vida está entrelaçada. A partir desta perspectiva, a arte não pode ser separada da vida diária; melhor, a vida bem vivida é uma obra de arte. A arte, uma vez que não possui valores utilitários, não é essencial para a vida, por isso é um reflexo da própria vida.

Infelizmente, o conceito do utilitarismo tem afetado profundamente a educação, principalmente nossas idéias sobre a universidade. Melhor que cultivar e preservar o que é bom e bonito na natureza humana, a tendência da educação superior nos últimos séculos, notadamente os séculos 19 e 20, tem sido transformar as instituições de ensino superior em meras escolas vocacionais —a idéia final é formar gente pra produzir. Certamente, indivíduos que são melhor treinados merecem empregos mais recompensadores que aqueles que não o são; mas quando a meta financeira se torna primária, a educação simplesmente se torna um meio para atingir o fim, e inócua em um profundo sentido; ela falha em aprofundar as nossas experiências de beleza e de prazer na vida diária.

Sob essas condições, a educação assume um caráter industrial, e aumenta a tendência em direção à especialização acadêmica sem sentido na humanidade, levando a uma lacuna ainda maior entre a humanidade e a vida diária. A humanidade assim, torna-se artificialmente separada do seu contexto perene, do mundo concernente ao humano e que possui relevância cultural. Compreensivelmente, com o tempo, muitos jovens adultos saem da universidade e se sentem frustrados por não avançar pelo caminho escolhido. Para muitos, deixar a universidade é o fim de suas relações com a humanidade.

Muita coisa está sendo feita da forma errada, estúpida. O processo educacional deveria atrair as pessoas e não aliená-las. Quando alguém deixa a escola, deveria sentir a humanidade como uma fonte de beleza e prazer, de hedonismo —como uma fonte insubstituível para aprofundar nossas experiências diárias— por tê-los testado, em primeiro lugar. E mais, com a finalidade de obter isso, nossas fantasias acerca da educação superior precisarão, uma vez mais, ser inspiradas por uma mitologia próxima daquela do humanismo da Renascença, ao invés de uma perspectiva exclusivamente utilitária.

E fica a pergunta: qual é a finalidade da educação? Educação, basicamente, treina as pessoas em habilidades e técnicas que irão ser necessárias para a vida. Estes fundamentos são necessários, mas não são a meta da verdadeira educação, nem resultam em felicidade —tanto a felicidade pública quanto a privada. A filosofia da educação em seus fundamentos, está baseada nas idéias de John Locke, da mente como uma tábula rasa, uma lousa em branco ou um recipiente vazio esperando para ser preenchido de fatos e informações. Esta é uma visão popular em nossa época quando a informação se confunde com conhecimento genuíno.

Um passo acima da teoria da tábula rasa é a visão que, ao invés de encher um tanque vazio, o propósito da educação é o de treinar pessoas em técnicas específicas. Esta visão sugere que a função mais nobre da educação é "aprender a aprender". Sem dúvida, esta é uma habilidade valiosa, mas sem uma recompensa ainda maior, este é apenas uma variação do tema do consumismo.

Pode ser que está idéia pareça surpreendente, mas penso que a verdadeira finalidade da educação na humanidade é erótica —erótica, de Eros, no sentido de instilar desejo pela beleza, bondade e pelo cultivo da própria humanidade pessoal. Em outras palavras, a finalidade da educação é desenvolver a paixão e amor por tudo o que é bom, e neste sentido, aprender torna-se uma atividade prazerosa. Na Renascença alguém escreveu que "há uma correspondente profundidade no conceito de humanitas. É através dele que o homem é definido e consiste na capacidade em amar. 'Venus significa humanidade'. Humanidade é o amor que se expande através do universo e é manifestado pelo homem". Isto talvez explique melhor esse conceito de erotismo.

Na visão platônica, amor —e aprendizado— é Eros ou o desejo nascido pela beleza. Colocado em termos psicológicos por James Hillman, "uma visão exaltada da suprema beleza é uma idéia necessária para a composição da alma-artística que chamamos de existência": o aprendizado da existência é uma parte integral da composição da alma-artística. Essa beleza divina tem gerado amor, isto é, um desejo por si mesmo, em todas as coisas. Mesmo se Deus atrair o mundo a ele mesmo, e o Mundo é atraído, existe uma certa atração contínua (começando em Deus, emanando ao Mundo e retornando, no final, para Deus) que volta uma vez mais, como num círculo, ao mesmo lugar de onde saiu.

De acordo com o modelo da tábula rasa, a mente é um jarro vazio esperando para ser preenchido. De acordo com o modelo técnico, nós precisamos apenas aprender a aprender. De acordo com o modelo erótico, a finalidade da educação é o prazer e a fertilidade. Existem diferentes tipos de fertilidade. Existe uma fertilidade da natureza, a fecundidade de plantas e animais, mas também existe a fertilidade da alma. Quando a alma é fertilizada, torna-se plena, preenchida, isto é, grávida com o belo e espontaneamente produz trabalhos maravilhosos. Esta é a autêntica finalidade da educação, e este é o sentido do estoque de beleza da professora Hess, penso eu.

Em resumo, só vamos mudar se mudarmos todo esse sentido utilitarista e laboracional de educação; deveríamos ser educados não para trabalhar, mas para a contemplação e para o ócio: nenhum olho jamais viu o sol sem se tornar ele próprio um sol, nem pode a alma ver a beleza sem se tornar bela. Você precisa primeiro, tornar-se em tudo, semelhante à natureza e em tudo, belo, se você tem a intenção de ver Deus e a beleza.

Voltando ao Pantanal —e ao ambiente de forma global—: pelo andar da carruagem (e de outros veículos não tão limpos), logo destruiremos seu estoque de beleza. Segundo Sônia Hess, não mais de cinco anos para que o ecossistema pantaneiro, com todo o seu estoque de beleza, se torne um deserto. Tudo porque, entre políticos, governantes e empresários utilitaristas há um enorme deserto de idéias.

lucamaribondo@gmail.com

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Às compras para o dia das Mães

Findos a quaresma, a semana santa, a malhação do Judas, os festejos pascais com seus coelhinhos e ovos de chocolate, o comércio volta suas baterias para o Dia das Mães, que acontece neste ano no dia 11 de maio, segundo domingo daquele mês. Mesmo tendo sido contada e recontada milhares de vezes, relembro que a história da criação do Dia das Mães começa nos Estados Unidos, em maio de 1905, em uma daquelas pequenas e bregas cidades dos EUA, no caso, do Estado da Virgínia Ocidental. Foi lá que a filha de pastores Anna Jarvis e algumas amigas começaram um movimento para instituir um dia em que todas as crianças se lembrassem e homenageassem suas mães. A idéia era fortalecer os laços familiares e o respeito pelos pais.

Os comerciantes, no entanto, logo descobriram o potencial da data e a transformaram em Dia de Comprar Presentes para as Mães. E, por isso, pode ser considerado também o Dia do Comércio. Ao se avizinhar o Dia das Mães, o comércio, como é sabido, intensifica bastante o seu movimento. Grande número de pessoas entra nas lojas, butiques, supermercados, armazéns de secos & molhados, bolichos e outros estabelecimentos do gênero com a finalidade precípua de comprar presentes para as mães.

Havendo muitas mães e muitos presentes, ocorrem, vez por outra, mal entendidos. Pode acontecer que uma pessoa presenteie a mãe de outra, o que, dependendo das circunstancias, será interpretado como homenagem, engano, insulto ou sacanagem. Às vezes o presente não é destinado propriamente à mãe e sim a uma outra figura feminina nela encarnada. Pois, como se sabe, numa mesma mulher podem acumular-se muitas outras mulheres.

Não são raros os casos de mulheres que, sendo mães de alguns, são ao mesmo tempo esposas de outros, noivas de quartos, namoradas de terceiros, amantes de quintos, avós de sextos, e ainda irmãs, tias, cunhadas, concubinas, madrinhas, noras e amigas dos restantes. Este fato, aliás, pode ser facilmente verificado em anúncios fúnebres, e em nada contribui para evitar as confusões e os qüiproquós que são cometidos, por vezes, no Dia das Mães. E tem também as mães que são —ou se tornam— chefes de família, porque por este ou aquele motivo (mulheres descasadas, divorciadas, desquitadas, mães solteiras etc.) acabam liderando e sendo provedoras de suas proles: tornam-se o homem da casa.

Como se sabe, mãe também é um ser humano. Cada mãe recebe os presentes de acordo com o seu temperamento. Isto porque as mães, como quase todo mundo são também, como já foi dito, seres humanos e tem reações iguais a toda gente. As mães só deixam de ser seres humanos quando são entronizadas ou divinizadas, como no caso dos antigos egípcios e outros, ou então em cerimônias cívicas, quando então a mãe se torna A Mãe. Já em discussões, brigas de rua, estádios de futebol, sucede exatamente o inverso: a mãe se torna a mãe, ou a mãezinha, ou coisa pior, conforme o clima da pendenga.

A mãe geralmente é uma senhora ou moça de características medianas, cabelos castanhos (ainda que pintados), olhos castanhos, gênio variável, com bons dentes e bem vestida, se for mãe de família abastada, ou então com poucos dentes ou, às vezes, sem dente nenhum, malvestida, caso pertença às chamadas classes menos favorecidas, em torno das quais, nos últimos anos, tem havido considerável celeuma, graças aos inúmeros programas sociais e sanitários desenvolvidos pelos governos dos diversos níveis.

Fora das características sócio-econômicas, a mãe pode ser bem ou mal-humorada, culta ou analfabeta, mais ou menos bonita, dependendo de quem a olha. Pode ser dadivosa, gentil, amorosa, simpática, terna, doce, compreensiva, generosa, uma verdadeira mãe enfim; ou violenta, chata, exasperada, ranzinza, desagradável, desbocada, boquirrota, temperamental, pessimista: uma autêntica sogra. E também podem umas e outras dessas coisas, isto é, pessoas normais.

Isso nos leva à conclusão de que o tipo e o temperamento da mãe tem uma importância fundamental na vida dos filhos —seus e dos outros. Muitos estudos se realizaram a respeito. Alguns desses trabalhos foram feitos por filhos; outros por mães, que mostraram assim raro desprendimento e senso critico. Na maioria dos casos, esses trabalhos, publicados em forma de livros, opúsculos, reportagens e até canções populares, sugerem que mãe é a carreira mais difícil do mundo e é pra toda vida —embora não precise de exame psicotécnico, curso de graduação ou pós-graduação, nem atestado de bons antecedentes.

A fim de se tornarem mães, as mulheres ou casam ou mantêm poderosos intercâmbios de idéias, sentimentos e práticas fesceninas (com intensas trocas de fluídos) com pessoas do sexo oposto. Há, porém, casos de mulheres que se tornaram mães sem o referido intercâmbio. A este processo dá-se o nome de partenogênese ou agamia, e as pessoas que conseguem realizá-la tornam-se muito conhecidas e, não raro, até santificadas e veneradas .

A partenogênese (que vem do grego virgem + nascimento) ocorre com maior freqüência entre crustáceos, pulgões e aracnídeos, acontece também naturalmente em plantas agamospérmicas, afídeos e alguns vertebrados, como lagartos, salamandras, peixes, e até mesmo perus. Para alguns é um método muito prático, pois leva sobre o modo tradicional a formidável vantagem de dispensar a intervenção do ser masculino, sabidamente incômoda e moralmente execrável para evangélicos, carolas, papas, gays e outros.

Muitas editoras e articulistas de revistas ditas femininas já pensaram e escreveram sobre o assunto e cogitam tornar popular a partenogênese (assim, na base de proposta do tipo modernize a sua vida sexual: exclua os homens e seja uma partenogenética). Assim, mãe poderá gerar mãe através dos tempos, até se obter uma humanidade constituída exclusivamente de mães, um matriarcado, o que não só valorizará infinitamente o Dia das Mães, mas também tornara astronômica a receita do comercio varejista nessa data.

Diga-se de passagem, já hoje, mesmo sem a divulgação da partenogênese, o número de mães é muito grande. É difícil e sair-se à rua sem logo a gente deparar com uma mãe. Existem mães em toda parte: pilotando carros, motos e aviões, nas lojas, nas calçadas, nos ônibus, nos palcos, nas telas, nas praças. As estatísticas mais recentes demonstram que uma, em cada uma e meia mulher, foi, é ou será mãe. E destas uma e meia, dois terços receberão, com toda a certeza, um presente no Dia das Mães .

Não há país que não tenha mães. Há mães em Fiji, Eritréia, Djibuti, Curdistão, China, Madagascar, Sri Lanka e em todos os outros países filhados ou não à ONU. No Brasil, país de vasta extensão territorial, embora parcialmente desconhecido, mas muito explorado, também há mães em grande número e, naturalmente, registra esta celebração folclórica da imagem materna: sem contar as personagens populares como mãe-da-taoca, mãe-d'agua, mãe-de-porco, mãe-benta, mãe-joana etc.

Para essa celebração toda há ainda frases célebres como Mãe, só tem uma, É a mãe!, Só uma mãe sabe o que pesa um filho”, Não há nada pior do que não ter mãe sem ser órfão. Uma mas mães mais requisitadas é a Pátria-Mãe, na qual a pátria é comparada a uma verdadeira mãe. Desta última redunda, com certeza, a idéia de mamar nas tetas do Estado, idéia esta muito aplicada por políticos e governantes não só brasileiros, mas de todo o mundo.

Países ocidentais e orientais, do hemisfério norte ou do hemisfério sul, não foram os únicos a participar intensivamente da proliferação das mães. Grande parte dos países existentes no passado participou, igualmente, dessa produção. É o caso do Império Romano, do Império Otomano, de Portugal e Algarves ou ainda da Itália Fascista. Esses povos produziram mães não só em suas próprias terras, que ocuparam e saquearam e por onde deixaram vestígio indelével de sua passagem, tanto nas mães quanto nas artes, nas letras, ou nas ciências.

Curioso, aliás, como as guerras, as invasões, os terremotos, as inundações, as eras glaciais e outras calamidades públicas ou privadas, incrementam a produção geral de mães. As paixões parecem intensificar-se —os homens e as mulheres, diante da perspectiva do fim, querem gozar mais intensamente os derradeiros momentos da existência. Resultado: aumento da natalidade. Como se a natureza desse com uma das mãos e tirasse com a outra; melhor ainda: como se tirasse de um bolso para colocar no outro, agindo assim (na opinião de muitos) como uma a verdadeira mãe .

Assim chegamos ao auge e, conseqüentemente, ao desfecho destas maltraçadas observações. O que é, verdadeiramente, uma mãe? É aquela que tem um verdadeiro filho? É aquela que tem um verdadeiro amor de mãe? Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração? É padecer no paraíso? A questão é complexa. Para os sentimentais é o amor de mãe que faz a mãe . Assim, para ser mãe não haveria necessidade de ter filhos (da mesma forma que para ser filho não haveria necessidade de se ter mãe). É o caso de religiosas, monjas e outras que tais, de certas babás, de professoras de jardim de infância, de senhoras que mantém cãezinhos etc.

Já as pessoas menos sentimentais —ateus, advogados, ginecologistas e outros, por exemplo— não acreditam que baste o amor para fazer a mãe. No seu entender, as únicas verdadeiras mães são encontradas entre as formigas e as abelhas, ou seja, as rainhas-mães: somente estas se dedicam, profissionalmente, vinte e quatro horas por dia, a atividade de ser mãe. Constituem-se em verdadeiras mães operarias, sendo tanto mães de zangões quanto de soldados, de operários, de futuras rainhas-mães, mães, enfim, de todo mundo que trabalha naquela particular colméia, sauveiro ou repartição.

Eis que a definição, como se nota, é das mais intrincadas. E esta complexidade é agravada pela crise de nosso tempo, crise imemorial, que é uma das características mais óbvias da civilização do chamado mundo ocidental. Resta-nos, apenas, o consolo de que a civilização contemporânea é com certeza a civilização mais nova que se conhece e, como toda civilização nova, necessita de tempo e experiência para resolver sozinha os seus problemas. Ou envelhecer sem chegar a solução alguma, como aconteceu a tantas civilizações do passado.

E o futuro? O que dizer do futuro, se o presente já é, por si só, tão emaranhado? Haverá no futuro mães como hoje? Produzirão, estas mães, filhos, como produzem em nossos dias? Mudará radicalmente o conceito de mãe ou mudarão os humanos? Cada vez mais rápidas, a ciência e a tecnologia — com a cibernética, inteligência artificial, biônica, transgênicos, adns, células-tronco, seres geneticamente modificados—, descobrirão outras maneiras de preservar a espécie? Haverá, ainda, espécie?

São perguntas inquietantes, sintomáticas da atribulação do século 21. E contudo, apesar de o futuro ser, tradicionalmente, quase impossível de se prever, atrevemo-nos a fazer uma: se continuar o atual desenvolvimento da Mulher, e este culto que se lhe presta em cada esquina, em cada capa de revista, na política, nas telas de tv e do cinema, na intenet, não há a menor duvida de que dentro de muito poucos anos, possivelmente ainda neste século, a única e verdadeira Mãe será o Pai. Enquanto não sabemos o que nos reserva o futuro, às compras para o Dia das Mães, portanto. Até porque tudo é uma questão de dinheiro; e, como se sabe, o dinheiro fala mais alto —e também manda calar a boca mais rápido.

Campo Grande MS, sábado, 29 de março/2008

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Fazer mais e mais


“Só cada pessoa pode ser juiz de sua própria vida”.
Henry David Thoreau

Diz Jean Baudrillard que "nada demonstra com mais clareza que hoje o único problema verdadeiro é o silêncio das massas, o silêncio da maioria silenciosa". Pode-se dizer que Baudrillard não sugere alternativas e, muito ao contrário, entenda que as massas não querem nem poder nem responsabilidade, isto só se dá porque acredita que seriam uma espécie de buraco negro, assimilando tudo sem qualquer eco. Porém não se trata somente da patuléia, mas também de indivíduos —principalmente estes.

Claro que a desobediência civil funciona melhor em grupo —muita gente até diz que não ocorre em atos individuais. Mas o fulcro da desobediência civil reside na noção de liberdade, e esta, por sua vez, é, no âmbito social, sintetizada através de outra noção, cidadania, ou seja, pela possibilidade de uso desse direito. E a cidadania é preponderantemente um componente individual (ainda que o resultado de seu exercício remeta para o social). Como argumenta Norberto Bobbio, em "Era dos Direitos", a democracia no sentido moderno da palavra, "deve ser corretamente definida não como o faziam os antigos, isto é, como o ‘poder do povo’, e sim como o poder dos indivíduos tomados um a um..."

Na desobediência civil é possível ouvir o eco das massas, mediado pelo dos indivíduos-cidadãos: certamente não será o eco das maiorias, embora nada impeça de sê-lo —mas aí já terá outro nome. De uma ou outra forma, estarão os desobedientes sempre muito distanciados do silêncio (em todos os sentidos), provocando, então, uma fissura nas massas. A tese de Baudrillard, como o próprio aumento de intensidade dos movimentos de desobediência, podem ter a ver (o primeiro com certeza) com o turn linguístico-pragmático da filosofia que operou-se após Wittgenstein, através de Austin, Heiddegger e Habermas, e que resultou num "pluralismo das razões" pelo reconhecimento da intersubjetividade.

Mas o texto clássico da desobediência é de Henry David Thoreau, norte-americano que se manifestou contrário à guerra ao México, que resultou na anexação do Texas em 1835. Ele a entendia como um abuso, uma perversão, do Estado. Como forma de contestação, sonegou imposto eleitoral. Foi preso, mas escreveu o texto que o tornou famoso. Thoreau inicia "A Desobediência Civil" com a tese do laissez-faire: "aceito com entusiasmo o lema 'o melhor governo é o que menos governa'; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente". Logo em seguida deriva para algo próximo a Bakunin: "levado às últimas consequências, este lema significa o seguinte, no que também creio: 'o melhor governo é o que não governa de modo algum'; e,
quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão".

Eis o problema, segundo Thoreau: "Existem leis injustas; devemos submeter-nos a elas e cumpri-las, ou devemos tentar emendá-las e obedecer a elas até à sua reforma, ou devemos transgredi-las imediatamente?" A resposta é positiva, é possível transgredi-las imediatamente, mas de forma pacífica: "Se no ano corrente mil homens não pagassem os seus impostos, isso não seria uma iniciativa tão violenta e sanguinária quanto o próprio pagamento, pois neste caso o Estado fica capacitado para cometer violências e para derramar o sangue dos inocentes. Esta é, na verdade, a definição de uma revolução pacífica, se é que é possível uma coisa dessas."

Em 20 de junho de 2001, cerca de 200.000 manifestantes (pelos cálculos destes) estavam nas ruas de Gênova, Itália, para protestar contra a política econômica mundial, bem às vésperas de encontro do G-8, o grupo das oito nações mais industrializadas do mundo, mais a Rússia. No confronto, o jovem Carlo Giuliani, 23, levantou um extintor ameaçando atirá-lo em um dos jipes da polícia. Um policial de 21 anos não hesitou em atirar na cabeça de Giuliani —e o jipe ainda passou duas vezes por sobre o corpo do jovem.

Manifestações como essas têm perturbado, e algumas vezes até mesmo impedido, reuniões da Organização
Mundial do Comércio, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da Organização do Tratado do Atlântico Norte, resultando em autênticas batalhas nas ruas. Não se trata de baderna ou ingênua utopia: são desobedientes não somente em decorrência dos métodos, mas na medida em que buscam a reforma a partir da deslegitimação de um sistema que, entendem, impede a participação dos menos favorecidos: a vertente neoliberal do capitalismo.

Até os brasileiros, pouco afeitos a atos de desobediência contra as normas e regulamentos do Estado, se levantam em pleno 2008: dos bairros de alta classe média da zona sul aos empobrecidos bairros da zona norte, ganha corpo o movimento no Rio de Janeiro de boicote ao pagamento do Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) em protesto contra a gestão do prefeito Cesar Maia (DEM). Com a adesão de mais e mais gente, surgiu a proposta de só pagar o imposto em novembro, depois de passada a eleição, para que a receita não seja usada em obras eleitoreiras.

A ação desobediente é ordinariamente coletiva: quanto maior o número de participantes, maior a segurança individual, como, a princípio, maior a legitimidade, talvez maior a eficiência, se não resultar em descontrole. Apesar da discordância por parte de alguns pensadores, Bobbio e Hannah Arendt entre outros, o fato é que nada impede que um ato individual e isolado possa ser considerado como de resistência. Um dos princípios da resistência civil é justamente o de elevar o cidadão ao patamar de partícipe das transformações; não seria o próprio movimento quem deturparia essa razão fundamental. O que se depreende, por exemplo, do texto de Thoreau, é que sua intenção era firme no sentido de provocar mudanças, não somente por razões de consciência, mas sobretudo para fazer valer os direitos que entendia ser proprietário enquanto cidadão.

É um ato ocasional e limitado: tem um determinado objetivo e cessa com sua obtenção. Nesse sentido, as greves cessam com reconhecimento dos direitos dos trabalhadores —e mesmo sem. É importante notar que, apesar de ocasional o ato, isto não significa que não possa partir de um movimento ou de uma consciência mais ampla. A desobediência é pública e transparente, não tendo feições conspirativas. Em algumas vezes os participantes dão a conhecer não somente suas razões e intenções, como também os meios que serão empregados. Uma vez que a desobediência decorre quando há divergência quanto ao comportamento do Estado, ou melhor, com suas soluções, sua forma de encaminhamento do problema, há que se entender que é, igualmente, um ato político.

Os desobedientes reconhecem a ilicitude do ato e se põe à mercê do Estado para a sanção, mesmo porque acreditam que isso reafirma a confiança na Justiça. Portanto, acatam o ordenamento jurídico, no sentido de entendê-lo por necessário. Não querem removê-lo, mas reformá-lo: é uma visão construtiva. Assim, os ativistas devem exercitar esse instrumento com riscos e perigos para quem o reivindica. Isto significa que, o recurso à desobediência civil, por resultar uma fratura da lei, somente irá ocorrer após esgotadas as vias de negociação, tanto quanto devidamente instruídos e preparados os ativistas: é uma forma de legitimar o comportamento via a demonstrada inoperância dos institutos legais. Trata-se de um pleito de reconsideração, no interesse da sociedade e da justiça, como pode-se ver nos movimentos pacifistas, ecológicos e nos protestos pelo desarmamento nuclear.

A desobediência civil pretende, a princípio, ser um movimento não-violento. Todavia, na prática, isto nem sempre ocorre. Thoreau e Martin Luther King reconheceram a necessidade da força em determinas situações. Porém, a bem da verdade, é justamente o uso da violência que tem dado a possibilidade aos poderes institucionalizados da criminalizar alguns movimentos, taxando os desobedientes de guerrilheiros e terroristas, buscando quebrar o apoio popular.

Em todo caso, o apelo à opinião pública é fundamental e característico, tanto para os fins de informar a sociedade sobre as questões levantadas, mas até mesmo para dar conta da existência de descontentes. e para mobilizar os demais cidadãos, angariando-os para a causa. Ademais, essa mobilização da opinião pública causa um despertar que até mesmo vai além dos interesses específicos dos desobedientes, no sentido em que redescobrem os cidadãos a vontade de participar, tanto quanto dão conta dessa necessidade em prol da democracia e da sociedade em geral.

Cabe ressalvar que a desobediência civil não se confunde com a objeção de consciência, que remete a razões morais ou religiosas, como por exemplo, a negativa a prestar o serviço militar. Também não é o mesmo que a afirmação da minoria, que são medidas contra a discriminação, caso de cotas para os negros —embora a afirmação da minoria possa a ser conseqüência de um pleito através da desobediência. Segundo Hannah Arendt, idéia de liberdade se prende à idéia de ação: "os homens são livres enquanto agem, nem antes, nem depois; pois ser livre e agir são uma mesma coisa".

Neste sentido, liberdade e política são o mesmo: "é este o âmbito em que a liberdade constitui uma realidade concreta, tangível em palavras que podemos escutar, em feitos que podem ser vistos e em eventos que são comentados, relembrados e transformados em estórias, antes de incorporarem por fim ao grande livro da história humana." Mas isso não significa, como, aliás, salienta Arendt, em reconhecer que essa coincidência entre liberdade e política esteja em nossa atual experiência política.

Ademais, liberdade é resistência lúcida. Aqui chegamos ao problema principal: traçar a linha demarcatória entre as esferas da livre autodeterminação do indivíduo e da atuação do Estado ou, para usarmos a expressão de Karl Manheim, entre a liberdade e a planificação. Neste sentido a promoção de certas liberdades a verdadeiros direitos subjetivos dos cidadãos, oponíveis não só aos particulares como ao próprio Estado e seus agentes, contra pessoas ou organizações detentoras de poder público", o que se fez e faz através das conhecidas declarações, tal como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Esta última assim dispõe em seu art. 4: "a liberdade de cada um só tem limite na dos demais e só a lei determina esses limites".

Daí o porquê da obediência à lei ter alto grau de vinculação com a legitimidade do governante: ou é legítimo e será ouvido através da lei em função deste requisito, ou então, seu poder residirá na força e na violência. Porém, mesmo na democracia é preciso identificação entre a legalidade e legitimidade para que haja obediência voluntária - porque a autoridade deve atuar sob a lei e a lei só é justa quando resultante do consenso público.
Já se foi o tempo, no qual, como diz Bobbio, era possível crer que "o sistema político fosse ou auto-suficiente (e, portanto, gozasse de certa independência em face do sistema social global), ou fosse ele mesmo o sistema dominante (e, portanto, que bastasse buscar remédios aptos a controlar o sistema político para controlar, com isso, o sistema de poder da sociedade como um todo). Mas, de qualquer forma, é notório que as reformas sempre foram conseguidas devido à pressão das massas: a própria reforma agrária brasileira é exemplo disso".


Talvez fosse interessante a essa altura perguntar porque sempre foi necessário o levante das massas. Talvez porque "o sinal dado pela indisciplina em massa, que enfrenta o delito e a loucura (marginalidade), assusta e pressiona muito mais os que estão no poder do que outras formas de manifestação, por ser já um rompimento com a disciplina do sistema, antecipando a imagem de um rompimento total".

Em resumo, nesta visão o que põe o sistema a negociar seria um só fator: o receio do descontrole e não o respeito ao cidadão. É porque ordem e sistema conjugam e se reproduzem em todas as instâncias e porque, em suas estratégias, fabricam liberdades e moldam normalidades —porque o sistema pleiteia para si, então, uma espécie de soberania da ordem ou da desordem normalizada. Se o sistema receia o descontrole é também porque reconhece uma certa virtualidade do comportamento das massas, ainda que a assuma como periculosidade.

Cabe, então, salvaguardar o espaço de exercício deste instrumento da cidadania, como de proteção e renovação da democracia e de aperfeiçoamento do processo social. Isso se dará, entre outras formas, caso se propicie a abertura dos canais representativos, para a participação e influência popular nas decisões dos organismos sociais e políticos, e se intervenha para garantir o próprio processo de formação da opinião pública.

Enfim, a desobediência civil e seu contrário, o silêncio (abstenção) das massas, revelam em comum uma crise nas fronteiras das liberdades e no sistema representativo —que pode, quem sabe?, sinalizar para até mesmo a recusa de representação. No frontispício de "A Náusea", Jean-Paul Sartre faz —ironia erudita menção à uma citação de Céline em "L’Eglise": "é um rapaz sem importância coletiva; é apenas um indivíduo." No Brasil, vivemos hoje um momento especial de falência democrática e estatal, materializada pelas lambanças na saúde pública, na segurança, nas instituições (veja-se caso do Senador Federal), no excesso de impostos, na corrupção, nos partidos políticos etc. etc.

Como cidadãos, precisamos fazer mais e mais. Como diz Thoreau, “não é suficiente ser deixado em paz por um governo que pratica a corrupção sistemática e cobra impostos para fazer mal a seu próprio povo!"

Campo Grande MS, segunda-feira, 21 de janeiro/2008

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Mural de previsões

Neste nosso mundo um tanto de cabeça pra baixo, principalmente no Brasil, país um tanto desmandado e desmantelado, fazer previsões pode ser algo extremamente complicado e perigoso. Bancar o profeta passa ser uma atividade sujeita a chuvas e trovoadas.

Como já disse algum pseudocientista místico, rir faz bem pra alma e pro bolso... dos humoristas. Nesta área você encontra o lado engraçado das religiões, do ateísmo, do ceticismo, da crença em baboseiras paranormais, da ciência, do misticismo e do racionalismo —não quero dizer com isso, que tudo nesta área seja disparate.

Num mundo tão cheio de motivos pra chorar, há de se conseguir um motivo para rir, nem que seja da cara dos que têm medo de Bicho Papão, Belzebu, bruxas, juremeiros, magos, mandingueiros, pajés, benzedeiros e outros que tais. Portanto, reservei-me o direito de falácias, aqui permitidas em prol de uma boa risada. Assim sendo, não me venha você, leitor, com um processo judicial se algum dado científico de suma importância para a segurança nacional for reportado erroneamente nestas mal traçadas.

Como não somos dados às práticas de bruxos, profetas, feiticeiras, políticos, curandeiros e outros tipos de charlatães e profetas, optamos por contatar, via espíritos do além, um bruxo sério e da pesada: Michel de Nostre-Dame, médico francês nascido em 1503 numa cidadezinha chamada Saint-Rémy-de-Provence, famosa sobretudo por ser a cidade natal de Michel de Nostre-Dame. Foi ele um homem muito além de seu tempo. Fã do zodíaco, logo percebeu o potencial de mercado das publicações esotéricas e lançou, em 1555, as “Centúrias Astrológicas”. Era, à época da caligrafia gótica, de letras grandes e cheias de frescura, um catatau de 4.772 versos, dispostos em 967 quadras e 58 sextilhas, contendo nada menos que 141 presságios, prenúncios e agouros.

Na verdade, por ele o mundo nem existiria mais. Afinal, lá pelas tantas Nostradamus —nome artístico que revela, no mínimo, o inegável toque de marketing obscurantista do escritor— previu nada menos que a destruição da Terra. Como aparentemente tudo o que ele escrevera vinha se confirmando, catástrofe após catástrofe, divórcio após divórcio, unha encravada após unha encravada, quase ninguém duvidou. Enquanto gozava de credibilidade, Nostradamus foi reverenciado como o maior adivinhão de todos os tempos e um pioneiro do segmento da, literalmente, auto-ajuda: angariou fama, fortuna e mordomias, chegando mesmo a ser tratado pelo informal e descontraído título de "bidu" pelos nobres das cortes européis, sempre com um tapinha nas costas.

Seu dom para a futurologia ultrapassou gerações e chegou até nós. Séculos depois, seguidores enxergaram nas profecias dele a ascensão e queda do nazismo, o assassinato de John Kennedy, as experiências com a bomba atômica e — na interpretação da corrente feminina mais realista — a hegemonia da celulite no final do segundo milênio. Até o momento em que se encerrava esta edição, porém, o carro-chefe das tragédias profetizadas por Nostradamus —a aniquilação total do planeta e um abraço— ainda não havia se confirmado.

Foi o que bastou para jogar por terra quase 500 anos de reputação. Desde o último eclipse solar do milênio, quando tudo o que aconteceu foi a entrada de um troquinho a mais nas lojas de cristais, incensos e patuás, Nostradamus vem sendo duramente questionado. Seria o visionário um farsante? Estariam as Centúrias realmente equivocadas ou tudo não passava de um erro de cálculo, num momento de distração do autor, pressionado pelo prazo da editora? Será que o mundo vai mesmo acabar ou podemos todos ir ver tranqüilamente os fogos lá na praia? Visando sempre o interesse jornalístico, já que a época tem tudo a ver e, afinal de contas, nunca se sabe, este Mural contatou Nostradamus, através de outro bruxo, Pazco Prittzell, para esta entrevista exclusiva com o visionário.

Mural: O senhor acredita mesmo em previsões?

Nostradamus: Claro! Senão não estaria aqui respondendo suas perguntas. Mas sempre saio com o meu guarda-chuva. Afinal, como confiar em computadores profetas.

Mural: Então, como explica que o mundo ainda não tenha acabado?

Nostradamus: Estão com pressa [risos, mas só da parte do entrevistado]? Falando sério, é evidente que o mundo vai acabar. Ou vocês acham que alguém agüenta mais uma campanha do Lula da Silva pela televisão? O que aconteceu foi que, por questões profissionais, fui obrigado a adiar o fim do mundo. Mudei a data, só isso. Não posso estragar o suspense! Seria quebra de contrato.

Mural: Já que o senhor anda enturmado com os políticos, como vai acabar a crise política em 2008, ano de eleições municipais?

Nostradamus: Com aquela bandalheira toda? Óbvio: vai acabar no prato preferido de Brasília: em pizza!

Mural: O senhor também previu a destruição completa de Nova York, o que não ocorreu.

Nostradamus: Mas foi por pouco, hein?! Na época, tudo estava caminhando para o caos. Milhares de brasileiros de sacola na mão em Times Square, falando alto, lotando os restaurantes, os táxis, um inferno. E o 11 de setembro de 2001, então?!

Nostradamus: Ah! Lá as coisas estão mesmo feias. Hillary Clinton, Barack Obama, Rudy Giuliani, Michael Huckabee... Tudo gente muito estranha. Mas qualquer um é melhor que Bush, um desacerto mundial. Lá ainda é uma corrida sem favoritos.

Mural: Isso nos leva a outra questão: quem vai suceder o presidente Lula da Silva?

Nostradamus: Olha... Com tanta esculhambação em Brasília, tem um pessoal aí me pedindo que o mundo acabe logo... E em barranco. Mas tô desconfiado de que é lobby do PT, se é que vocês me entendem... Nessa questão, prefiro não me envolver.

Mural: O senhor acredita nas previsões dos economistas?

Nostradamus: Sabe qual o defeito deles? Excesso de otimismo. Falam em inflação projetada, problemas nas bolsas de mercado futuro e falência dos fundos de pensão das estatais como se tivessem toda uma vida pela frente... [exaltado, dá um murro na mesa.] Pois se estou dizendo que o mundo vai acabar, ora!

Mural: Enquanto isso, para quando o senhor prevê a cura definitiva da calvície?

Nostradamus: Notou o meu chapéu? Também estou esperando, meu filho.

Mural: Quem será a capa da edição de 75 anos da Playboy, em 2028?
Nostradamus: Esqueça a Maria Flor, a Carolina Dieckman e a Grazzi Massafera: a essa altura, elas estarão concorrendo a prêmios pela continuação de "Tropa de Elite", partes 23, 24 e 25, e vão querer ser reconhecidas apenas pelo talento. Por outro lado, como a ciência fará mulheres de 50 parecerem bonecas de 20, graças às pesquisas desenvolvidas no Senado Federal e acessível apenas às amigas do peito, periga a disputa ficar entre a Hebe Camargo e a Dercy Gonçalves.

Mural: E o que o filho de Mick Jagger com a Luciana Gimenez vai ser quando crescer?

Nostradamus: Ele vai ter a beleza dela e o talento dele. Ou será o contrário, coitado? Sei lá, melhor perguntar para a Xuxa, que é especialista em moleques talentosos, filhos de pais talentosos, ou mais ou menos...

Mural: Será que finalmente Rubinho Barrichello vai ser campeão da Fórmula 1?

Nostradamus: Epa! Não vamos colocar a Ferrari, ou melhor, a Honda na frente dos bois. Uma das vantagens de o mundo acabar é essa: já imaginou a gritaria do Galvão Bueno, se o Rubinho ganha?!

Mural: Como vai terminar a Copa do Mundo de 2010?

Nostradamus: O juiz vai apitar, erguer o braço e pedir a bola para que um dos times comemore levantando a taça. Posso garantir, no entanto, que os brasileiros não ficarão decepcionados. Enquanto a cerveja permanecer gelada, bem entendido! Só acho que não vai o Dunga como técnico da Seleção Brasileira.

Mural: Afinal, o Brasil vai sair da crise?

Nostradamus: Que crise?

Mural: Hum... Pelo jeito, o senhor também acredita em duende.

Nostradamus: Não. Mas a idéia é boa, hein?! Preciso falar com o Renan Calheiros, o Nelson Jobim, o Lula da Silva, o Arlindo Chinaglia, pra fazermos um consistório e decidirmos o que fazer. Uma boa idéia seria devolver tudo aos índios e pedir desculpas pelos estragos.

Mural: Nós estamos falando de Mato Grosso do Sul, Estado que fica na fronteira do Brasil com o Paraguai. O senhor tem alguma dica para a gente?

Nostradamus: Claro que tenho. Mas prefiro ficar na moita. Você sabe como é, aí na sua terra acontecem coisas de que até Deus duvida. Mas posso garantir que tudo vai continuar "legitimo", como sempre.

Como nossa entrevista com o profeta Nostradamus logrou êxito limitado, o Mural decidiu fazer suas próprias previsões, com a ajuda do senhor Prittzell, psicografou profecias de várias almas penadas, depenadas e empenadas, todas de desconhecidos. Eis alguns de seus vaticínios: o empresário Nilton Servo, aquele dos caça-níqueis, será eleito prefeito de Campo Grande. E vai nomear um conhecido bruxo secretário de Ação Social. O líder de uma conhecida igreja neopentecostal brasileira será acusado de lavagem de dinheiro. Um deputado federal será cassado por corrupção. No mesmo dia um grupo de 113 duendes, goblins, pixies, sacis, elfos, gnomos, vereadores etc. será visto dançando salsa na Via Morena, em Campo Grande.

Lá no Planalto Central, o presidente Lula da Silva vai trocar todo o ministério em setembro —se isso não acontecer antes, claro! O interior de Mato Grosso do Sul vai ficar mais de oito meses sem chuva, o que causará grandes perdas na safra de cana-de-açúcar e na pecuária, e o conseqüente aumento do preço do álcool combustível e do cupim assado.

Quatro mortes em virtude da violência serão amplamente divulgadas pela imprensa e causarão revolta no Brasil, para três meses depois ninguém mais se lembrar delas. A Polícia Federal vai empreender inúmeras operações com nomes insólitos (eis algumas sugestões do Mural: Anta de Tênis, Tuiuiú Baleado, Onça Manca etc.), prenderá um bocado de gente da melhor qualidade, mas nenhuma permanecerá em cana por muito tempo.

O PCC vai comprar as ações do Comando Vermelho (se eles fazem julgamento na cadeia, porque não bolsa de valores?) e vai se transformar na maior organização criminosa interestadual do Brasil. O conclave será realizado no presídio de segurança máxima de Campo Grande e será presidido (presidido!) por Fernandinho Beira-Mar, que completará naquela cadeia seu primeiro aniversário de casamento. Mais do PCC: um membro do grupo, ex-presidiário, será eleito vereador na capital. Ainda o PCC: o grupo vai fazer lobby no Congresso para a aprovação do projeto do Gabeira que legaliza a maconha. E, como é muito mais eficiente que o Governo, vai conseguir.

Claro que a credibilidade de um bom profeta ou futurólogo depende da quantidade de previsões que acerta. E, apesar da humildade ser uma das mais nobres virtudes (seguida da modéstia) deste Mural, eu vou apresentar então minhas credenciais. Por exemplo, eu previ a queda do muro de Berlim cerca de vinte anos antes dela se concretizar. Infelizmente meu professor de História do ginásio (no meu tempo ainda tinha ginásio) não reconheceu meus dons proféticos e não considerou minha previsão como uma resposta válida para uma questão que ele deu na prova. É, vida de profeta não é fácil, principalmente quando ainda se cursa o ensino elementar. Mais recentemente, aqui mesmo no Mural, eu antecipei o fim do cd de música, mas ninguém se dispôs a acreditar. Deu no que deu.

Como você pode ver, a minha fama de profeta/futurólogo/cara-de-sorte só não se espalhou ainda por causa da minha modéstia e humildade. Mas agora isso acabou. Se você chegou até aqui na sua leitura, sabe agora que seus dias serão mais felizes em 2008. Mas o mundo —e o Brasil a reboque— continuará piorando. Não é todo dia que você lê previsões tão precisas nem uma entrevista não transcendente para nós outros como estas contidas no Mural..

Campo Grande MS, segunda-feira, 31 de dezembro/2007
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Fé demais, siso de menos


I belong to Jesus. Estava lá escrito na camiseta do jovem príncipe Ricardo Izecson dos Santos Leite, mais conhecido pelo codinome Kaká, 25 anos, o jogador de futebol brasileiro considerado o melhor do mundo pela Fifa, entidade que administra o futebol mundial, neste 2007 em seus estertores. Kaká, a camiseta e a frase em inglês estão estampados em jornais do Brasil e do resto do mundo, que mais uma vez se rende ao futebol brasileiro, porém hoje não tão grande quanto em tempos não tão remotos.

Ao vencer o Campeonato Mundial Interclubes pelo seu time, o italiano Milan, na semana passada, Kaká teve sua foto envergando a camiseta com a inscrição I belong to Jesus (eu pertenço a —ou sou propriedade de— Jesus em inglês) publicada na mídia de todo o mundo, principalmente do Japão, país sede do torneio, Itália, pais sede do Milan, e Brasil, país de origem do jogador. Esta não é a primeira vez que Kaká usa sua fama de futebolista para fazer proselitismo religioso. Basta ele ter uma de suas grandes conquistas esportivas para surgir sorridente com sua indefectível camiseta.

Como se sabe, Kaká é evangélico e faz parte da farândola Atletas da Cristo. E é adepto e paladino da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, seita evangélica de linha neopentecostal comandada pela bispa Sônia Hernandes, famigerada por seus bordões (do tipo "Jesus é uma coisa quentinha, fofinha") e seus problemas com a Justiça no Brasil e nos EUA, juntamente com o marido, Estevam Hernandes, o grande apóstolo daquele culto.

Detido nos EUA desde 2006, o casal Estevam Hernandes Filho e Sônia Haddad Moraes Hernandes, fundadores da igreja, deixou a prisão nos Estados Unidos, mas continua sendo vigiado pela polícia norte-americana. O juiz que autorizou a saída deles da prisão em que estavam nos EUA obrigou o casal a usar uma tornozeleira eletrônica. Dessa forma, a polícia consegue monitorar todos os passos da dupla enquanto eles estiverem respondendo processo nos Estados Unidos. Com isso, Sônia e Estevam Hernandes são monitorados pela polícia 24 horas por dia. Aqui no Brasil eles são acusados de estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Gente da melhor qualidade como se vê.

Na época, segundo o colunista Ancelmo Gois, do jornal "O Globo", Kaká chegou a fazer uma espécie de greve de fome —jejuando conforme seus parentes e amigos— como forma de protesto pela prisão dos líderes da Igreja Renascer, da qual o brasileiro é devoto. De acordo com a nota, o jogador do Milan, realizava jejuns para padecer junto com a bispa Sônia e o marido, o apóstolo Estevam. Kaká nega o jejum, claro.

Kaká não nega sua profissão religiosa. Ao contrário: recentemente, ele disse que em função de sua fé casou virgem com Caroline, sua mulher. "Sou um jovem normal com valores fortes. Sou religioso, seguindo a confissão evangélica, e tento viver seguindo os preceitos da Bíblia", afirmou. E tem mais: "Optamos por chegar castos ao casamento. A Bíblia ensina que o amor verdadeiro é alcançado apenas com o casamento, um laço de sangue no qual a mulher perde a virgindade. Para nós, a primeira noite foi magnífica", comemorou o jogador.

Kaká declarou à edição italiana da revista "Vanity Fair" que leva uma vida regrada dentro dos preceitos da Bíblia e que por isso chegou virgem ao casamento. Melhor falasse de futebol. Futebolista falando de Bíblia soa como o presidente Lula da Silva falando de gramática ou literatura ou o senador Renan Calheiros falando de ética.

Quem conhece sabe que a Bíblia é um livro escrito há mais dezenas de séculos por machos do deserto, que nunca tiveram maiores considerações por mulheres. Na Bíblia, a mulher deve ser virgem. Se não for, pode ser apedrejada até a morte. Não há passagem na obra que prescreva a virgindade para o varão. Se Kaká pensa que a Bíblia lhe exige virgindade, caiu no conto do vigário e perdeu momentos de grande prazer. Além disso, se fosse seguir estritamente as prescrições bíblicas, caso Caroline não fosse realmente virgem, teria de entregá-la aos milaneses para que a apedrejassem.

Kaká, usa sua imagem de moço bem sucedido para influenciar outros jovens a aderirem ao seu estilo bom-moço religioso. Mas nem tudo no seu comportamento é tão impoluto assim. Apesar de todo o seu lado religioso e bom-mocista, ele vem a cada dia se firmando como ícone gay. O jogador é constantemente chamado pela mídia de sporno, acrônimo formado a partir das palavras inglesas sport (esporte) e pornô (redução de pornográfico), termo criado pelo mesmo autor da nomenclatura metrossexual, e que designa esportistas com potencial para serem astros pornográficos.

Mark Simpson, o jornalista e marqueteiro que inventou a metrossexualidade, criou este novo conceito estético: sporno, que descreve como pornografia homossexual inspirada no desporto. O sporno nasceu da combinação do mundo do desporto com o mundo da publicidade. Os novos modelos são desportistas conscientes do potencial que têm no mundo gay e dispostos a venderem o corpo como objeto sexual.

Simpson diz que Sportsmen on this side of the Atlantic are increasingly openly acknowledging and flirting with their gay fans (desportistas deste lado do Atlântico estão cada vez mais abertamente reconhecendo e flertando com os seus fãs gays). Os grandes spornos são David Beckman e Fredrik Ljungberg (que Simpson descreve como the man who actually looks the way Beckham thinks he looks [o homem que é exatamente o que Beckham pensa que é]).

Mas Kaká é o terceiro da fila. Estrela ascendente do sporno, o brasileiro mostra seu encanto gay em recente campanha publicitária da Emporio Armani, griffe italiana com quem mantém contrato há cerca de dois anos. Ele aparece nas fotos, todas em preto-e-branco, com um agasalho aberto e bermudão, mostrando os peitorais num gestual extremamente agressivo. Em outra imagem, só um close da sua caraça mostrando um relógio da grife italiana. Gays de todos os idiomas e credos se deliciam ao ver as fotos do atleta.

Nada contra a religiosidade e nem contra as preferências sexuais do jogador do Milan. Sou, no fim das contas, um adepto do laissez-faire. Mas certamente não pega bem ele sair por aí vendendo aos jovens a imagem de prosélito de uma seita cujos líderes estão às voltas com a Justiça por terem praticado as mais diversas formas de falcatrua. Como não pega bem vender seu corpo como objeto sexual. Há em Kaká fé demais e siso de menos.

Kaká é um jogador de futebol bem razoável. Diz Pelé (e eu concordo), o Rei do Futebol, que "eleito o melhor jogador do mundo em 2007, Kaká teria lugar na seleção brasileira de 1970, mas teria de brigar por uma vaga no time titular". Mas em qualquer seleção, em qualquer época? Em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, Tostão, companheiro de Pelé em 1970, não concorda e escreveu que Kaká seria craque em qualquer geração. Eu já penso que falta muito pra ele ser um gênio do futebol —até porque sou de uma geração que viu gente como Garrincha, Pelé, Didi, Nilton Santos, Rivelino, Sócrates e tantos outros nos campos de futebol. Só.

Particularmente penso que ele deveria limitar-se à atividade de jogador futebol. Como prosélito religioso ele apenas prova que um homem não se torna melhor só porque pertence a Cristo. Ele apenas demonstra, eloqüentemente, que roupas e objetos de griffe, luxo e agressividade não as novas espécies de fé do mundo moderno. Ainda bem que as práticas religiosas são inteiramente inúteis para os infiéis —que, afinal, são maioria.

Campo Grande MS, quinta-feira, 20 de dezembro/2007

terça-feira, 12 de junho de 2007

O custo da corrupção

Saiu há alguns dias no sítio Contas Abertas: estudo realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) revela que o custo médio anual da corrupção para o Estado brasileiro, em valores de 2005, é de R$26,2 bilhões, valor equivalente a 1,35% do Produto Interno Bruto (PIB). Muito dinheiro, né não? E por inacreditável que pareça, a quantia é superior ao orçamento de sete ministérios para este ano.

Todos calculados, os orçamentos previstos para os Ministérios das Cidades, Esporte, Meio Ambiente, Cultura, Relações Exteriores, Transportes e Turismo em 2007 somam juntos R$25,6 bilhões, ou seja, R$600 milhões a menos que os prejuízos anuais com os desvãos da corrupção. O dinheiro perdido com essa barbaridade toda também é quase igual aos gastos da Pasta da Educação para este ano: R$27,6 bilhões.

Os estudos da Fiesp comparam, entre os anos de 1975 e 2005, indicadores relativos ao Brasil e ao Chile, país considerado o menos corrupto da América Latina (e um dos melhores do mundo). Através de dados da própria Fiesp, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), da ong Transparência Internacional e da consultoria Barros & Lee, o estudo mostra que, durante o período, a média do produto per cápita brasileiro passaria de US$ 6,8 mil para US$ 8,3 mil, caso o nível de corrupção medido aqui fosse o mesmo do chileno. Enquanto lá o índice de percepção da corrupção é de 7,3 pontos, quase o dobro do Brasil, que é de 3,7 —quanto maior o índice, menor a corrupção.

Algumas razões para os problemas são apontadas no estudo. Entre elas, a burocracia acachapante, a lentidão do sistema judiciário, o elevado poder discricionário do Estado na implementação e condução de políticas e os baixos dos barnabés, a gente que realmente toca o serviço público. Um exemplo citado pela pesquisa é que, enquanto um chileno demora 27 dias para abrir uma empresa, no Brasil a média é de 152. Segundo a Fiesp, a corrupção reduz a eficiência do gasto público e desestimula o investimento. Se comparado com o Brasil, o Chile gastou menos com saúde e educação (porcentagem em relação ao PIB de cada país). Porém, a escolaridade média dos chilenos é bem maior que a dos brasileiros.

De acordo com a Fiesp, para combater a corrupção o Brasil precisa fazer seis reformas nas áreas econômica e institucional —fiscal, sistema tributário, microeconômica, sistema judiciário, política e administrativa. Um cientista político, Antonio Flávio Testa, argumenta que o sistema político brasileiro provoca práticas corruptas. "A política é uma atividade nobre. No entanto, para combater esses atos ilícitos no Brasil, tem que haver uma reforma política. Por exemplo, os bancos e as empreiteiras elegem seus representantes parlamentares, que tem influência no Congresso". E Testa não deixa de ter razão: a política está mesmo entre as mais nobres atividades humanas; mas seu pior ponto é exatamente o fator humano. O agente político destrói a atividade.

Testa diz que o Estado se torna refém dos interesses privados, o que prejudica o crescimento do Brasil que, segundo ele, é totalmente desigual: “Parte da elite é beneficiada e os pobres não. A Operação Navalha da Polícia Federal (PF) mostrou que as obras ligadas ąs classes mais desfavorecidas da população não foram concluídas”. Ele afirma que esses casos de corrupção na administração pública só estão sendo desvendados porque as investigações ficaram mais eficientes. "A tecnologia da informação hoje é bem mais desenvolvida que antigamente. Mesmo assim, ainda estamos patinando na questão institucional. A PF prende e a justiça solta. A população não entende isso".

Segundo o cientista político, o brasileiro é tão acostumado a ver corrupção que acredita que a prática ilegal faz parte do cotidiano. "Há no Brasil um problema para diferenciar o que é público e o que é privado. Algumas autoridades acham que os cargos assumidos em órgãos públicos lhes dão o direito de ser donos. A corrupção é um problema cultural". Testa critica inclusive o Poder Judiciário no país. "Como a população não vê justiça, as pessoas consideram normal essas situações. Surge o seguinte raciocínio: as coisas são assim e vão continuar dessa forma." Testa acredita que o crime só vai acabar, ou pelo menos diminuir, quando a formação do cidadão mudar desde o berço, assim como as relações entre pais e filhos forem reformuladas.

Há quem não concorde com Testa. José Alexandre Scheinkman, brasileiro que é professor de economia na Universidade Princeton (EUA), em artigo publicado pelo jornal "
Folha de S.Paulo" no domingo, 3 de junho, argumenta: "Há um mito de que os brasileiros são especialmente tolerantes com a corrupção, mas a reação da imprensa e do público demonstra que essa complacência está acabando. É possível que o Brasil esteja passando por uma mudança cultural semelhante à dos Estados Unidos no final do século 19, quando, depois de uma série de escândalos, os americanos começaram a exigir dos seus políticos um nível de honestidade muito mais elevado. Mas a corrupção da classe política americana só diminuiu quando congressistas passaram leis para combater as negociatas que o Judiciário aplicou rigorosamente. Há fortes indícios de que existem políticos no Brasil que se comportaram como Duke Cunningham (deputado norte americano condenado por corrupção). Resta saber se algum deles vai acabar condenado a passar oito anos em uma prisão comum".

No Brasil, porém, a política é uma festa, uma grande festa que não aceita povo penetra e na qual é mero coadjuvante daquilo que abominamos. Ou celebramos? Ou invejamos? Ou aceitamos? Mas nos acostumamos às coisas erradamente nos seus eternos molde; tanto é assim, que nos esbaldamos com CPIs porque sabemos que não existe nada mais corretamente malfeito e meticulosamente sem efeito do que uma CPI, nem nada mais desconexo que a corrupção: dinheiro nosso nas mãos de gente antes nossa, mas que quando chega nos píncaros do poder, muda de lado. E não existe nada mais fácil que buscar culpados e se eximir de culpa. Pois assim não há condenação.

Mas não dá para mandar a corrupção para o espaço de um dia para o outro. O Brasil funciona, do seu jeito, mas funciona, o que não serve de consolo pra ninguém. É um político cassado; mas ainda na ativa. É um relógio sem corda, sem pilha, sem ponteiros, mas certo duas vezes ao dia: quando dorme e quando lembra. Mas quando lembra, logo esquece. Ao contrário do que dizem, tem boa memória: assim que se lembra, lembra logo de esquecer. É como alguém que conhecemos que nada sabia antes mesmo de acontecer. Já nasceu traído e esquecido.

E nós continuamos assim, dia sim, outro também, ao gosto do freguês. E o freguês, povo, quase
nunca tem razão. A ilusão já não é mais vendida; é gratuita; a granel. Nossa esperança constante nos rouba a paz tão sonhada camuflando verdades e atrasando o futuro. Mas o tempo que não se meta conosco! Mentimos para nossa própria história; e não será a tal da ordem que irá nos impedir de chegar a lugar algum! Pelo justo direito de permanecer alienada.

E como se já não bastasse toda a imoralidade que impera na política brasileira, como se fosse pouco todo o dinheiro público enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres —veja-se os 600 bilhões de reais gastos pelo governo Lula da Silva até agora com juros, dinheiro que vai para as mãos de banqueiros e especuladores, exatamente os mais ricos—, como se já não houvesse motivos demais para se enojar com o descaramento dos nossos governantes estampados nas capas de todos os jornais, de todas as revistas semanais e em todos os noticiários de todos os canais televisivos, temos ainda tenho que agüentar ouvir os mesmos mentirosos —ou os filhos, irmãos ou agregados, assessore e áulicos deles—, contando sempre as mesmas mentiras (e que se, na melhor das hipóteses, mais parecem piadas, já perderam a graça) dia e noite, noite e dia, incansavelmente.

Campo Grande MS, quarta-feira, 12 de junho/2007

lucamaribondo@gmail.com